terça-feira, 5 de novembro de 2019

Para Ti ComDor! - capítulo 1





Há quem me esqueça todos os dias, sabias?
o mundo é esta porta que se fecha
e não me deixa respirar,
cansei-me de ficar para trás...

Septicemia...
http://librisscriptaest.blogspot.com/2019/08/clororohexidina.html



PORQUE CAEM AS FOLHAS?


Dizem que a chegada do Outono carrega em si o simbolismo da queda de folhas, que se desprendem das árvores num adeus curto e caiem num canto qualquer ,calcadas, pisadas, cuspidas e gastas por pares de pés apresados e indiferentes. Outras, iludidas, são levadas temporariamente  pelo vento, num bailado inquietante, até terem o mesmo fim. Hoje sou folha, em transição entre o calcamento e o vento que me leva para uma nova saga. Mas ao invés das folhas, já não me iludo, embora queira acreditar que tudo será diferente.
Amadurecimento, dizem entre dentes. Crescer para aprender, crescer para ser grande, crescer para ser livre, crescer para ser adulta, responsável, trabalhar, constituir família, ter filhos, montes deles, um marido, uma casa, um lar...para quê?
Fui tudo isso e não raras vezes, mais do que isso. Fui namorada, esposa, mulher, mãe, confidente, dona-de-casa. Fui colchão, mesa e recreio de escola. Fui o que nunca deveria ter sido e agora sou o que jamais me perdoarei ser. Fui principio, fui meio e sou fim...de um casamento.
Sim, fui casada vinte e três anos de oscilações, zangas, amuos mas também de momentos felizes, de momentos de esperança, de desilusões e de novas sensações.
Tecnicamente ainda sou casada, ou por outra, hoje após redigir a minha alma em duas folhas A4 , já não me considero casada. Tenho as malas prontas e o fim, esse chegou bem cedo, pela madrugada. Não aguento mais. Como poderia?
O Miguel está a fazer Erasmus, ele irá compreender um dia esta minha atitude. Afinal embora continue a ser mãe já não sou " a mãe". Já não necessita da minha supervisão, dos meus conselhos, da minha calma, da minha cumplicidade. Apenas necessita aqui e ali da minha conta bancária e isso posso continuar a ceder. A Marta sendo um ano mais nova, acompanhou este novo processo e de certa forma me incentivou, mas sem nunca imaginar que eu já tinha o plano delineado, precisava apenas de uma aprovação.
Incrível como fica vazia toda uma casa sem filhos. Quando eles partem é como se de certa forma, o nosso papel de progenitores ficasse reduzido a uma mera personagem secundária, quase sem falas no teatro da vida. E esse vazio da casa, ainda com o marido por perto, se torna insuportável.
A solidão é um bicho estranho, um verme que se instala sem supervisão e vai crescendo, ficando mais forte e vai conspurcando tudo e o meu ex-marido ( lá estou eu a falar em Ex e ele ainda não sabe) foi o seu cúmplice, nas palavras que não disse, nos afectos que não mostrou e nas cavalgadas desenfreadas com que me brindava sem autorização. Mas isso talvez tenha sido culpa minha, que nunca o afastei, nunca o repeli ou o censurei. De manhã seria outro dia e eu sabia que monstro alimentado não me traía.
 Conheci o Mário quando ainda estudávamos. Achava piada aqueles olhos castanhos carregados de sonhos e ao jeito tosco de revolucionário que ele achava ser. Tinha na escola a alcunha de " Condor", pois imitava na perfeição o pio da ave. Sendo eu filha de um dos donos do maior banco do país, aquilo me divertia e de certa forma me seduzia. Quando somos jovens, queremos chocar o sistema e o pior sistema é o de casa. Achava que a loucura jovial de Mário iria chocar o poder instituído lá em casa. O meu pai, imperador mor das quatro paredes, iria ficar fulo da vida e a minha mãe, com sorte, iria ficar pasmada com o bad-boy que me comia às escondidas.
Pois sim...Essa parte aconteceu. O meu pai realmente espumava e à minha mãe mostrava distraidamente as marcas de dentes no pescoço e alguns arranhões nas costas,embora hoje saiba que não era tanto pelo intuito de chocar, mas sim para espicaçar os ciúmes da pobre coitada e fazer-lhe ver que eu jovem pita, tinha mais sexo num dia que ela num mês. 
Não deveria ter sido assim e isso é um facto. Não deveria nunca deixar um adeus atirado em duas folhas A4, mas o monstro da desilusão de não o poder encarar. Como poderia eu confirmar algo que até então ele não via?
Eu o esperava no regresso do trabalho, a empregada deixava o jantar já pronto. Esperava-o na sala como uma obrigação e não como um prazer e Mário chegava carrancudo, pensativo, absorto nas coisas dele. Pousava a mala de couro que sempre carregava com ele como se fosse um empresário de sucesso e não um mero agente de seguros. Tirava o sobretudo, o cachecol atirando-os para o sofá, o que me fazia invariavelmente me levantar e os ir arrumar. Tecia considerações sobre o seu dia, ( como se isso fosse de certa forma interessante para mim), íamos para a mesa, aguardávamos que a empregada nos servisse  e ele servia-se de um copo generoso de vinho, continuando a falar de tudo e mais alguma coisa, perante o meu sorriso plastificado.
Aqui e ali durante a conversa, permitia-me que concordasse ou discordasse de uma observação sua. Bem, pelo menos a empregada o devia ouvir. 
Abandonava-mos a mesa depois do café e ficávamos sentados a ver TV...( por vezes os filhos ligavam) e depois eu ia-me deitar..O silêncio, sempre o silêncio.
Um dia, esta folha que ainda não tinha caído abriu os olhos e foi despertada por um raio de sol outonal. Um raio de sol tão quente e atraente e sedutor...Que me senti folha verde e viçosa de novo.
As folhas não deveriam nunca cair para serem pisadas.


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