terça-feira, 23 de agosto de 2016

ADEUS....





COLD AS STONE


estou uma lástima,
uma destroço de vida
nada que me segure
ou sonho em que pendure

estou agora destroçado
do sonho feito pecado
coração em banho-maria
outro seria se te teria

psicadélica sensação
psicadélica devoção
psicadélica emoção
viver é obrigação.

Imortal no teu querer
pedaço insano do meu viver
agora que a linha acabou
já nada me resta para me entreter

rasga-me a lamina nas veias
em rio de sangue contado
em face sorridente recordado
castelo sem defesas ou ameias

essa treta de ser forte por fora
quando por dentro sou vácuo
essa léria de ser onde o riso mora
a verdade é que tudo é asco

psicadélica sensação
psicadélica devoção
psicadélica emoção
viver é obrigação.

obrigado a sentir
a cada minuto o Eu partir
de joelhos pouco devoto
eu que já não sei sorrir.

Adeus agora que parto
sem grande embaraço,
golpe dado num braço
até que a mente torne tudo baço

psicadélica sensação
psicadélica devoção
psicadélica emoção
viver é obrigação.


ADEUS....


sexta-feira, 12 de agosto de 2016

A Saga de Arkhan - Livro 2 - Ischtfall - Capítulo 8





Quero ter o mesmo sorriso, mas marcado pela vida que vivi,
pela sabedoria que o tempo me trouxe,
pela tatuagem de cada dia!
Porque estar viva é mudar sempre
e eu nunca ouvi o riso das pedras…

Inês Dunas: EnvelheSer

http://librisscriptaest.blogspot.pt/2012/11/envelheser.html



POR MATUKA É HORA DE AGIR!



Os finos e ténues raios de luz solar irrompiam a medo pela curta abertura do postigo, numa penumbra sinistra aumentando ainda mais a sensação que ela tinha de clausura.
Contudo de costas voltadas para o postigo Latvéria permanecia imóvel, sentada na borda da cama, parecendo aguardar algo ou alguém que nunca viria. As feições do rosto eram de pedra e o cabelo desleixado e maltratado ofereciam a tal senhora um aspecto grotesco e insano.
Quisera ela ser cadáver, pedia ela em segredo às sombras que com ela permaneciam no quarto que o coração deixasse de bater, que cessasse a sua actividade e que a deixasse petrificada, como estátua, para que todos assistissem à sua queda final. Mas o coração não parava, os dias não paravam de surgir a um ritmo certo e se havia vida lá fora, dentro daquele quarto tudo morria a cada segundo que passava.
A enfermidade de Latvéria era ainda desconhecida de todos, inclusivé dela mesma. Não se poderia tratar o que nãos e via, avisava o médico do reino. Talvez seja do ar gélido da Montanha que se abate no Inverno sobre a Montanha e que por qualquer razão afectara a rainha, sugeriu um especialista de Borren. Mas a rainha sabia que não era nada disso. Ela morrera, vítima de abandono dos seus irmãos nobres, do seu marido e sobretudo de si mesma. Era um pássaro enjaulado sem poder voar. Podiam-lhe mostrar o sol e o mundo, mas não a deixavam sair e cheirar e correr e saltar...Nada. Rainha no seu palácio e no entanto cativa na sua própria solidão.  Até as rondas das serviçais reduziam de dia para dia, como se não houvesse naquele quarto nada mais de interessante para ver. Latvéria sabia que era motivo de falatório pelo reino e aprendera a viver com esse desconforto, no fundo uma ferida não exposta, escondida mas que não doendo, mói ao pensar nela e prática como ela sempre tinha sido até casar, optou por ignorar a dor, convivendo com ela, serenando-a e adormecendo-a no seu íntimo, mas evitando voltar a esse assunto para não a despertar.
No início, aquando da mudança para aquele quarto, a rainha sentia-se grata por a deixarem em paz, por a "esconderem" de todos, mas depois vieram os médicos, curandeiros e toda uma estirpe de sujeitos que julgavam ter resposta para tudo e nada entendiam de um corpo sem alma, vazada ao limite pelas correntes de um casamento com quem não amava e acima de tudo, humilhada pela decisão do harém de jovens que Leopoldo II resolvera instituir.
Tinha sido demais e sem reagir começou a ver a sua família a afastar-se. As visitas do pai e mãe tornaram-se cada vez mais raras, não obstante ela saber que Leopoldo II tinha mantido a parte do seu acordo nupcial, ao permitir que os Nobres e em especial a sua família tivesse acesso ao palácio, bem como uma sala onde os nobres pudessem conviver. Mas a ela nunca a vieram ver, pensou ela sintetizando a ideia com um esgar de desprezo nos lábios.
Foi pois quase sem reacção ou sobressalto quando sentiu a porta do quarto abrir e ouviu distraidamente os passos inseguros e receosos da visitante. Sem se voltar ou encarar a visita, Latvéria proferiu num tom monocórdico:
-Não vos chamei e não preciso de nada.
-Perdão majestade. Entrei sem me haver chamado!
Latvéria não reconheceu a voz, voltando-se então um pouco surpresa e tentando descortinar na penumbra do quarto quem ousava entrar sem autorização:
-Quem sois?
-Miriam, senhora!
-Quem?
-Uma das novas serviçais do palácio.
-Como disse, não preciso de nada. - A rainha tentava fixar o seu olhar no rosto da visitante.
-Eu sei majestade. Mas Ischtfall precisa de vós!
-Que dizeis? - A rainha ergueu-se prontamente, escandalizada.
-Majestade não me julgueis mal, nem chamais os guardas. Tive tanto trabalho para entrar aqui sem ser vista...
A voz que lhe chegava aos ouvidos era de uma jovem, demasiado jovem para uma serviçal e isso de certa forma sossegou Latvéria, disposta a perceber o que a serviçal pretendia:
-Aproximai-vos. Quero ver a vossa face!
-Certamente minha rainha.
Miriam no seu cabelo castanho apanhado por um tosco rabo de cavalo mal feito, caminhou lentamente até se acercar da rainha e então fez a vénia real:
-Pelos Deuses das chamas da morte, sois uma criança. Que idade tendes?
-Dezassete anos senhora.
-Sois de Ischtfall?
-Sim minha senhora. Filha de Rorin e Magdath. Nascida e criada em Ishtfall.
-Magdath ? - repetiu a rainha secamente.
-Sim majestade.
-A retornada da montanha?
-Essa mesmo majestade. - A jovem parecia agora ainda mais nervosa.
Latvéria aproximou-se colocando a mão sobre a cabeça da jovem, desatando-lhe o tosco nó do rabo de cavalo, erguendo-lhe o queixo com a palma da mão e num tom ríspido inquiriu:
-Acaso sabeis a pena por invadires os meus aposentos sem autorização?
-Doze vergastadas, minha senhora.
Pela primeira vez em muitos anos a rainha sorriu:
-Explicai-vos então!
-Majestade, eu cresci com a minha mãe a afirmar a pés juntos que vos poderia curar. Ela insiste que a vossa doença sois vós mesma e que o nosso rei sem a vossa presença ou reparo se tornará fraco, alvo fácil das invejas que reinam no palácio...
-Por Rarhh que imaginação fértil tendes...
-Minha rainha, só conto o que ouvi da boca dela  anos a fio e foi por isso que me ofereci para estar junto de vós. Mas eles puseram-me no apoio à cozinha... - Miriam falava de um modo muito rápido e quase sem respirar.
-Calai-vos... - Ordenou a rainha alertada por vozes no corredor.
As vozes aumentavam e os passos apressados eram agora mais audíveis:
-Rápido, escondei-vos. Não deixarei que vos vejam!
Com uma destreza sem igual a jovem mergulhou para baixo da cama da rainha, encolhendo as pernas e com uma energia que há muito a rainha não usava, Latvéria atirou-se para cima da cama, fingindo dormitar:
-Majestade, peço desculpa incomodar, mas é hora da ronda e desejava saber se precisais de algo. - perguntou uma idosa serviçal.
-Não necessito de nada. Deixai-me em paz..
-Muito bem, majestade.
-E suspendei as rondas por hoje...Tanto alarido que fazeis que me dão dores de cabeça. - Mentiu a rainha apercebendo-se de mais vultos à entrada da porta.
-Com certeza majestade.
Assim que o som dos passos se foi tornando cada vez mais longínquo, a rainha voltou a erguer-se e aguardou que a jovem saísse  do seu esconderijo:
-Menina Miriam o que irei eu fazer consigo?
-Majestade, peço-vos que me deixais falar tudo...
-Falai. Creio que não terei outro remédio. - Concluiu Latvéria de novo com sorriso no rosto.
-Como estava a dizer, precisava de vos ver. Não serei útil a Ischtfall na cozinha, mas ao vosso lado. Sobretudo depois do que ouvi.
-E que foi que ouvistes?
-No caminho para cá, uma vez que pretendia passar despercebida, passei por uma sala do palácio, com muitos homens, um deles todo bem vestido e galante, outro gordo e de voz de trovão...
-A Ala dos Nobres e creio que esse senhor que haveis descrevido é meu tio! - Ripostou a rainha cada vez mais divertida.
-Pois bem majestade, acontece que eles planeiam fazer alguma coisa a um forasteiro que pelo que percebi veio de Borren e vai ser general e enfrentar os maus .. - A jovem fez uma curta pausa para respirar.
-Quem derrotou? Que forasteiro?- A rainha estava demasiadamente confusa com o relato.
-E parece que o conselheiro está feito com eles.- Opinou a jovem ignorando as perguntas.
A rainha perdeu imediatamente o seu sorriso, a sua face tornou-se de pedra e a rigidez dos membros que tanto a apoquentava voltou em força:
-Que tenho a ver com isso? - Indagou como se se dirigisse a si própria.
-Tudo majestade. A minha mãe pode ter muitos defeitos, mas creio que ela tem razão. Só ela vos pode curar!
Latvéria olhou de novo para a menina  e  a custo dirigiu-se até à janela contemplando a Montanha, eterna e imóvel e no entanto cheia de vida.
A jovem de faces rosadas aproximou-se da rainha e perdendo de vez as formalidades, retirou uma espécie de amuleto do bolso e colocou-o na mão da rainha:
-Que fazeis?
-A minha mãe diz ser o olho de Matuka, a Deusa da Natureza e que vos dará forças.
A rainha contemplou a esmeralda:
-Tem ar de ser valioso pequena Miriam.
-É vosso majestade! Segundo a minha mãe ela brilhará consoante a vossa energia e vontade.
Latvéria contemplou com ternura os olhos castanhos vivos da jovem e sem hesitar, proferiu com uma segurança que há muito não usava:
-Gosto da vossa paixão pelo nosso reino e sobretudo por mim. Há tanto tempo que sou ignorada e esquecida que já não me lembrava da sensação do sangue a ferver nas veias ou dos olhos a transbordarem como o nosso bonito lago nas cheias de inverno.
-Majestade, se me permitis a afirmação, sois mais bela vista ao perto que quando vos via à varanda do palácio.
-Oh, como podeis dizer tal? - Afirmou a rainha enojada. - Estou um maltrapilho, velho e gasto....pareço um desses trajes do povo da Montanha!
A jovem fingiu que o comentário não a incomodou:
-Majestade, olhai a vossa mão!
A esmeralda brilhava com uma intensidade invulgar na palma da mão direita da rainha:
-Que bruxaria é esta?
-Não é bruxaria majestade. É Matuka a pedir que acordais desse estado e salvais Ischtfall!
Latvéria avançou até ao espelho encardido pelos anos de desleixo na limpeza, roçou a manga do seu vestido já roçado pelas longas horas que passava deitada no solo de pedra, nas suas crises de ansiedade e contemplou um novo olhar ao espelho.
Decidida e frenética abriu o postigo na sua totalidade, permitindo a total entrada de luz desse fim de tarde e num tom de voz bastante alto, anunciou:
-Por Matuka, que não sendo minha deusa me acordou, por Ischtfall e sobretudo por vós pequena Miriam é chegada a hora de ser a rainha! Acompanhai-me.
-Mas os guardas...
-Nada temas , o medo acabou de sair deste palácio
E sem demoras a rainha, abriu com violência a porta de saída do quarto, seguida muito de perto pela jovem,
Com um ar decidido e secretamente sorrindo o pássaro voltava a querer voar!







quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Poderosa Perversão - Capítulo 6



Deus porém nunca teve mãos,
só Amor e nunca o soube explicar
e deu cores aos Homens como deu cores aos pássaros,
mas os Homens não voam e magoam as aves…

Inês Dunas : ADeus
http://librisscriptaest.blogspot.pt/2015/11/adeus.html



PORQUE VOAM AS BORBOLETAS ?


Jorge era por natureza um homem de poucos escrúpulos e maldizente de tudo aquilo que não conseguia compreender ou alcançar. A vida segundo ele tinha-lhe sido madrasta, mas no entanto talvez o modo como a vida correra até aí se devesse à sua cabeça e às suas decisões. Se a vida é por natureza própria feita de escolhas, de caminhos e de desafios será sempre por nossa culpa que os mesmos não serão alcançados ou quando muito desviados.
O professor tinha no entanto tudo para ter uma vida diferente. Filho único de boas famílias, lá para os lados de Sintra, bem relacionado e aparentemente com margem de folga parental para usufruir da sua liberdade total em adolescente.
Curtiu a escola secundária, como quem curte um ambiente no bar mais badalado da cidade. Vivia para segundo ele aproveitar tudo o que de bom o Universo lhe dava e na cabeça dele a escola não fazia parte desse universo. Praia, surf, noitadas, bebedeiras, alguns charros, motas potentes, alguns acidentes não graves e algures por aqui ele se perdeu, ou então foi Deus quem desistiu dele, na opinião da sua avó paterna, também ela avessa a perder tempo com o plástico Jorge.
No seu cada vez mais curto círculo de amigos, era comentado, criticado e acima de tudo odiado, ainda que a posição social da família, compensasse as suas atitudes e os mais interessados ( ou direi interesseiros), já faziam o possível para o evitar.
Nunca foi Líder, (embora vezes sem conta o tentasse), nunca foi cativante, (embora sacudisse diante dos olhos dos presentes as notas de euros) e sobretudo nunca foi importante na vida de alguém, (embora ele afirmasse com todas as letras 
Porém se na cabeça de Jorge, desde a infância materializou que regras eram apenas um conjunto de dizeres obsoletos impostos aos outros, aos carneirinhos como ele gostava de os chamar, adquiriam no entanto importância quando era ele a ditar as suas leis, qual xerife numa localidade sitiada, sem contemplações ou segundas chances.
Assim que lentamente desde a juventude o continente de oportunidades em que ele se pudesse tornar, foi reduzindo de importância e valor intrínseco até se tornar uma pequena ilha, sozinho e isolado no seu mundo de fantasia, cercado de água inquinada que lhe toldavam os movimentos e a mente. Passou assim a ser refém dos outros, carente de atenção e ciente do falso respeito que impunha e passou então a ter os seus desejos negros. As mulheres tornavam-se cada vez mais descartáveis, dado que as que ainda se mantinham em seu redor apenas desejavam permanecer num mundo ilusório de charme e champanhe e isso fez com que na cabeça adolescente do insosso Jorge Ferreira as mulheres fossem na sua génese frágeis, interesseiras e sem vontade própria e prontamente começou a perder o interesse em conquistas que saberia à priori serem supérfluas.
Jorge gostava de poder, gostava de mandar, gostava de ditar as suas regras e como não se imaginava a trabalhar como empregado para outrem, optou pela carreira de professor, onde na cabeça dele poderia manter a sua ditadura, impor as suas vontades e acima de tudo sair daquela ilha de alma onde se tornara prisioneiro. E foi sensivelmente por esta altura que os problemas começaram a sério na vida do agora professor. Inexplicavelmente surgiu na sua mente que na faixa etária a que dava aulas, poderia moldar a cabeça dos seus alunos, torná-los de certa forma à sua imagem e semelhança ou quiçá imbuir-lhes o espírito dos seus ensinamentos ou ainda até quem sabe ser o mestre e formar os seus discípulos para a dura realidade da vida.
No entanto, uma vez mais, o destino mostrou ser cruel para com as suas aspirações, pois os seus alunos não só o tinham em baixa estima, como catalogavam entre eles as suas aulas de Português como uma valente seca, talvez facilmente explicável pela total ausência de paixão do professor sobre a matéria ou conteúdo leccionado. Ele  que na sua adolescência  satirizara o poder reinante na escola, faltara mais do que assistira, justificando esses contínuos actos com assinaturas do encarregado de educação na figura de seu pai, forjadas com bastante mestria e que criticava os outros que à escola e ao estudo se dedicassem, queria agora à viva força que todos sem excepção se mostrassem sequiosos de aprender e que nunca faltassem, pelo menos às suas aulas.
Assim que lentamente foi abandonando a frágil ideia de ser mestre e no entanto outro pensamento se acercou da sua mente: Ao contrário das mulheres adultas que sempre o rodeavam sedentas das melhores coisas que as posses materiais dele pudessem dar, as suas alunas de catorze, quinze e dezasseis anos assumiam-se agora à sua retorcida mente como ideais para o seu intento prazeroso.
Uma vez mais Jorge se iludiu, trapaceado pela sua exagerada auto-estima e desmesurado ego. As jovens podiam de facto, sucumbir a prendas e melhorias inexplicáveis de notas, mas estavam longe de querer ou ter interesse em viver no mundo dele ou do que ele tivesse para lhes ensinar. Mas Jorge achara que tais jovens eram no fundo borboletas prontas a voar, a conhecer o mundo longe da alçada disciplinar dos pais, prontas, segundo o que avançara à dias ao seu barbeiro, a serem guiadas e protegidas pelo menos enquanto a cor das suas asas não perdesse o brilho. Eram no fundo, pequenas e inocentes borboletas a aprenderem a voar num turbilhão inocente sob a sua alçada e ele era o senhor das borboletas, talvez um feiticeiro de ilusões e magias inexplicáveis ao espírito das jovens borboletas.
Seguindo o seu plano, saiu apressadamente de casa dos pais, uma luxuosa vivenda situada na linha de Cascais, mudando-se para o centro de Lisboa, num T2 com bastante conforto pago a pronto com um dos cheques do papá, baralhado por tão repentina mudança.
Assegurou-se contudo que o apartamento não ficava muito distante das principais escolas ( para evitar os pais de trazerem e levarem os jovens), mas recatado o suficiente dos olhares dos outros mortais, da gentinha que jamais perceberia o que realmente ele queria fazer.
Prontamente continuou com o seu plano, avançando para a segunda fase do plano na qual se  dedicou a analisar as potenciais borboletas que pudessem integrar a sua colecção. Estudava-as secretamente nas aulas, tentando compreender o que as movia, os seus interesses e os seus pontos fracos. para além disso, na terceira fase do plano e uma vez que enquanto docente tinha acesso privilegiado a toda e qualquer informação sobre os seus alunos, estudava-as em função da zona onde residiam, podendo mesmo em certos casos conseguir o número de contacto dos pais. Posteriormente avançaria a terceira fase do plano, em que baixaria surpreendentemente as notas escolares dos seus alvos e ligaria preocupado aos pais, oferecendo a sua ajuda enquanto explicador para que a jovem voltasse a subir as notas e assim seria visto aos olhos paternais das adolescentes como o salvador, onde aumentaria as horas de explicação e a gratidão dos pais e quando a jovem se desse conta, estava literalmente presa na rede de borboletas de Jorge caído em boa conta perante os progenitores das jovens.
Para ser caçador de borboletas precisava  não só de tempo, de paciência, de mestria mas também de bastante cuidado, uma vez que fosse provável que no processo pudesse haver acidentes ou imprevistos que fossem necessários resolver. 
Havia contudo um denominador comum entre as suas vítimas; Todas elas teriam de ser financeiramente carentes, facilmente influenciáveis e terem a auto-estima baixa. Por outro lado era para ele vital elas tivessem igualmente preocupações escolares ou pelo menos a perseguição dos pais às boas notas.
Mas mesmo até no melhor plano, algo corre mal e foi precisamente isso que sucedeu ao professor. Após anos e anos de abusos e alguns sobressaltos, um dia deparou-se com um terrível erro de cálculo no processo. Avaliara mal a situação de uma das suas recentes borboletas  e não só ela lhe resistira aos avanços, como resolvera voar da sua alçada, disposta a contar o que sofrera, o que vira e o que gravara com o telemóvel. Pior, a jovem ousara mencionar a plenos pulmões, na sua própria casa que havia uma amiga pronta a colocar toda a informação ( que Jorge não sabia ao certo qual fosse) no Youtube caso o professor ( a agora atente-se bem no modo como a pequena borboleta queria voar), não se demitisse.
A fúria descontrolou-se dentro do professor que sem perceber ao certo como, se viu com a garganta da petiz na sua mão grossa  para posteriormente ficar a observar em silêncio o modo como o corpo sem vida escorregava lentamente pela parede.
O professor livrou-se peremptoriamente do corpo, apressou-se a apresentar uma baixa médica por tempo indeterminado e a tirar um ano sabático em Espanha, sempre atento ao youtube, notícias e facebook, até se convencer de que a jovem inventara a figura da amiga e retomar por fim à sua caça de borboletas.
E agora inexplicavelmente o texto que ajudara essa infeliz a escrever para uma prova intermédia surgia agora nas mãos de outra infeliz. Uma pobre criatura, uma lagarta que nunca ascendera a borboleta e que seria lentamente e angustiantemente espezinhada por ele, até ao último suspiro.
Jorge chegava agora ao seu remodelado apartamento, fingiu não ver o carro serenamente estacionado à sua porta, serviu-se de uma cerveja gelada e sentou-se nervosamente no cadeirão de madeira, forrado a veludo verde.
Tinha a polícia desconfiada dele, mas era vital que se livrasse daquela ameaça e que se certificasse de tudo o que de incriminatório ela pudesse ter a seu respeito e só o conseguiria fazer, tendo acesso à casa dela, ao quarto dela sem testemunhas.
Assobiando uma melodia dos Depeche Mode , o professor pegou no seu velho canivete suíço, assegurou-se que as persianas estavam fechadas, abriu o tampo falso da parede onde guardava as suas ferramentas e preparou-se para uma visita nocturna.
Ah, pensou ele atarefado, porque voam as borboletas da sua aura, quando ele as satisfaz e lhes proporciona tudo o que na teoria precisariam.