terça-feira, 16 de outubro de 2018

Lápide - Capítulo 15



O Amor é o profundo
e o profano unidos sem engano,
ou dúvida!
É a certeza de que somos maiores
e melhores do que acreditamos ser.

Inês Dunas


THIS IS NOT HOLLYWOOD!



Há um cheiro que nunca apagamos totalmente da nossa mente. O cheiro de casa, o cheiro que nos acompanhou em várias fases da vida até ganharmos assas e voarmos e armados em pinto calçudos virar costas a tudo, com a teoria ingénua que poderíamos um dia ser felizes noutro lado. Memórias, sons e riso isso pode ficar ou não na nossa memória mas o cheiro a tudo e a quase nada fica grudado como pastilha elástica no nosso sapato em dias quentes de verão. Não sai nunca. Penso mesmo que os cheiros são a arma secreta deste Universo. Um cego cheira, um paralítico cheira, um mudo cheira e por sinal um surdo também.
Quando recordo a minha casa de infância, a única até ao momento em que posso realmente chamar de casa a primeira ideia que sempre me vêm à cabeça são os cheiros...a peru no Natal, a rabanadas, a leite creme, a bolas de naftalina das camisolas guardadas com amor nas pesadas gavetas, do cobertor da cama, do Pronto de limpar o pó, da lixívia em dias de frenética limpeza pela pascoa,( não fosse o compasso ficar com ideia que a senhora minha mãe não sabia nada de limpezas), em suma o cheiro a nós, a nosso, ao passado. E depois temos também  o cheiro da relva molhada no jardim das traseiras em correrias desenfreadas. O cheiro da fruta, no cesto de vime, os alperces e os pêssegos reluzentes entre as uvas à espreita e o inesquecível cheiro da primeira vez com a Ritinha, afundada no colchão na ausência dos meus pais...Dono e senhor do momento a provar à atrapalhada menina que não era só namorado do liceu mas igualmente homem, deixando a derivação dos meus dedos em sustenido fazerem a introdução do meu desejo, como tocador de Harpa sensível aos caprichos de uma volúpia teen que quer sentir, que quer apalpar, mas sobretudo ver para crer como São Tomé apregoava. Lá no meio das pernas dela, no começo da afirmação da masculinidade, perturbação feroz que ganhava gradualmente o devido volume nas minhas calças e eu maestro dos meus dedos, da minha própria orquestra, um Quinteto em Si e depois de tudo acalmar, de tudo acabar fica aquele cheiro, aquele odor a pecado no quarto, pior do que o do cigarro que por mais janelas abertas que se abram não conseguimos disfarçar. Aquele cheiro único que se entranha na pele, na alma e nos acompanha nas nossas recordações durante a vida. A Ritinha tomada no meu quarto, no meu centro do império, dono e senhor desta parta da casa, nesta louca instituição a que chamam de família.
Família...Somos lobos não solitários, gostamos de viver na nossa alcateia e no entanto dificilmente a escolhemos. Os elementos da alcateia são-nos dados, impingidos, adquiridos por convivência ou conveniência através da nossa existência, mas na verdade são poucos os que se juntam a nós numa caçada. Constatamos tempos depois que apesar de viver numa suposta alcateia cada elemento tem a sua própria agenda, o seu motivo pessoal, a sua razão de viver e ficam connosco porque lhes convêm, por estratégia ou porque nunca equacionaram sequer a estranheza de pertencer a um grupo e no fundo não ser desse grupo e vão seguindo supostamente ao nosso lado, fingindo que concordam com o que pensamos, que se preocupam com o que realmente sentimos e indiferentes às nossas metas pessoais. Não que esperasse o um por todos e todos por um no verdadeiro entendimento da frase, mas pelo menos um certo comprometimento...O mesmo que fazemos a nós mesmos mal um filho nasce. Juramos a pés juntos sempre estar ali, a proteger os nossos rebentos, a guiá-los pelo Mundo, livrando-os dos perigos, das perturbações...Mas creio que a hipocrisia dura pouco, o tempo de um sopro, de um bocejo alargado. Aquilo que no fundo fazemos é passarmos directa ou indirecta a nossa maneira de pensar, de reagir e de sentir. Transmitimos aos pobres coitados as nossas próprias aspirações, escondemos os nossos medos em força, para que os pobres dos petizes não enveredem nesses mesmos medos e ensinamos o certo e o errado, consoante as nossas vontades ou aprendizagens. Depois quando já pouco temos a ensinar ou a dizer ou até mesmo a lutar, deixamos os pobres coitados irem mundo fora conscientes de tudo saberem, quando na verdade estão tão vazios do que realmente é o mundo, como no dia em que nasceram. Mas nós cumprimos a nossa parte e dizemos para nós mesmos que os lobinhos já são ferozes, já podem procurar a sua alcateia, como orgulho de um superior que forma e formata um aprendiz.
São porém diferentes as relações entre pai e filhos e mãe e filhos e Óscar Wilde  sabia disso; " no início os filhos amam os seus pais.Depois de um certo tempo passam a julgá-los. Raramente ou quase nunca os perdoam" como é velho o retrato de Dorian Gray e simultaneamente tão actual nos nossos dias.
E ali estava eu, expectante e firme espectador do reencontro da Pitareca com o seu progenitor ou a sombra do que ele deve ter sido.
Observo atentamente o vulto arqueado ao peso dos anos, das desilusões, do desespero e talvez da impotência. Acomodado ao seu novo desígnio, ao infortúnio do tempo presente e na incerteza do futuro. As suas mãos, grossas e ainda peludas estão no entanto fundidas nos braços da cadeira, como uma simbiose perfeita e o seu olhar...Oh o seu olhar era tudo menos clarão de luz. Vago, perdido, resignado, observava sem qualquer ponta de emoção os passos cada vez mais inseguros da filha na sua direcção. Perdidos e reencontrados na inconstância do tempo, esse vil castrador de inocência e pureza emocional, esse arrasador de sorrisos e cruel contentor de emoções, recordações e sonhos desfeitos. Pitareca, a sua Pitareca, a sua menina prendada enquanto subserviente à vontade dele e posteriormente a traidora, a sem-juízo, a rebelde, a insana que o ousou abandonar e abandonar a sua alcateia, como se já fosse loba e dona de si. Agora, no passar do tempo que tudo diluiu e no vagar do tempo que lhe resta, ela voltava como ovelhinha perdida. Se ele pudesse observar tão atentamente quanto eu, veria que já não havia chama de irreverência no olhar dela,nem tão pouco observaria arrependimento mas apenas compaixão. Se olhasse atentamente e fosse dono de todas as suas competências mentais o pesado e arqueado sujeito perceberia que jamais ela iria lhe pedir perdão, nem tão pouco se desculpar. Num gesto digno do melhor filme de Hollywood ela arqueou-se na direcção do seu rosto mal barbeado e deu-lhe um beijo na face. Um beijo sentido, demorado mas ainda assim um beijo frio de certa forma prepotente e altivo, como a compaixão o pede e no entanto dos cantos da boca seca de lábios gretados do progenitor, surgiu um ténue esgar que poderia bem ser apelidado de ténue sorriso na circunstância do momento e da parca saúde dele.
Se fosse realizador,soltaria o som de harpas ou violinos em acordes melódicos, colocaria talvez umas cortinas brancas mas a fazer transparecer não a imagem mas as sombras projectadas em fino linho e por fim gritaria aos saltos Corta! E era uma cena memorável, mas isto não é Hollywood. Isto é a vida real, tão desprezível, fria e calculista como sempre a conheci. Aqui não há guião ou falsas lágrimas. Aqui há tão só o regresso de uma loba madura, que ousou vaguear nas estepes frias e incertas da vida real  e depois de quimeras mil, quis o destino ou a final ironia da vida, que voltasse a encarar o seu líder da anterior alcateia com uma tranquilidade que certamente na mente dele soará a regresso por arrependimento, mas que no fundo só volta ao sítio onde era lobinha e a vida cheirava a rosas.
Aspirei o redor como quem absorve a mais ínfima partícula de um quadro vivo, com as suas nuances, as suas derivações, os sons e os cheiros do que importa. Desejava de certa maneira gravar tudo aquilo que o meu cérebro o permitisse talvez para mais tarde, no sossego da minha calmaria dissecar cada momento na árdua tarefa de quem não sabe ao certo  que procura.
Via-a a segredar-lhe ao ouvido as inconfidências de quem tudo lhe escondeu ou omitiu nestes anos, quase adivinhava as suas interjeições, quase sentia à distância de trinta passos o respirar pesado do progenitor e via a sua mão a balouçar no ar, sem grande entusiasmo, sem grande vigor como que se o que pudesse lhe dizer ou o que sentia pudesse ser traduzido em movimentos balouçantes tão imprecisos quanto o voo de uma mosca.
Segundos que se transformaram em minutos e minutos que geraramhoras de tédio insuportável. Na verdade, após os primeiros dez minutos tudo me pareceu enfadonho, caótico e pouco inspirador. Apercebi-me de repente que aquele sujeito, gasto, arqueado, dorido e abandonado poderia ter sido eu se ela não tivesse surgido na minha vida, ou pior ainda poderia ser eu daqui a uns anos. Reagiria ela  assim?  Ou pior, talvez nem aparecesse. Talvez me deixasse ali, numa cadeira, rodeado de olhares piedosos e idosos senis, babando-me pelos cantos da boca e incerto sobre o dia e a estação do ano que atravessava. Perdeu então o interesse e de certa forma me senti salvo, quando ela regressou e me segurou no braço:
-Importas-te se eu não te apresentar ao pai hoje?
-Claro que não. - Respondi o mais sinceramente que pude, tentando esconder o alívio.
-Creio que iremos precisar de mais tempo...Nem assim ele verga!
-Nem tudo é fácil nesta vida, Pitareca.
Ela olhou-me friamente, deu-me um beijo na testa e segurando os nervos, advertiu:
-Não me voltes a chamar isso!
Incapaz como sou de proferir o termo desculpa abracei-a e pensei que seria sempre forte e jamais a deixaria fugir.







quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Lápide - Capítulo 14






Um dia tive asas e escolhi morar aqui
entre os homens que não sonham,
entre os dementes que não amam,
entre os indiferentes que não vivem...

Inês Dunas




THERE`S NO PLACE LIKE HOME!!


Não há maior verdade universal, nesta bola redonda onde vivemos, respiramos e morremos que o regresso ao lar. Não confundir com o regresso a casa diário. Falo do regresso àquele lugar mágico, que nos viu crescer, rir,chorar saltar e pular. Aquele sítio, único local onde regra geral nós fomos verdadeiramente felizes como Dorothy tão bem sabia no feiticeiro de OZ. Como se de certo modo nos fosse possível voltar a entrar no útero e sentir aquela mágica protecção própria de quando éramos crianças e o Mundo não era mais que o quintal de nossa casa ou a janela embaciada em dias de frio Inverno. Ah, o regresso inigualável aos cheiros de cozinha, à naftalina nas camisolas proveniente das quinhentas bolas que a mãe ou a avó atirava para a gaveta. Ah, a casa materna, o invólucro de protecção, o abraço invisível, o porto de abrigo. Nunca devia ser permitido ao humano crescer. Devíamos parar automaticamente todos nos dezasseis anos  e este mundo era gerido como as nossas brincadeiras, como o nosso quarto. Havia obviamente malícia, mas escondida no desespero de não saber o que fazer com ela. Havia obviamente maldade , mas o arrependimento era sempre mais verídico e cem vezes maior e haveria a liberdade própria de deitar a língua de fora ou bater nervosamente o pé no chão em lágrimas de crocodilo.
Eu não posso regressar a casa, sobretudo porque ela já não é pertença da família, que já quase não existe e  o mais perto que tenho do regresso à minha infância são flashes de Tom & Jerry, mesclados com o diabo do coiote...BIP..BIP.
Mas ao meu lado e assim que entramos na localidade ela sorriu. Não conseguiu disfarçar a alegria de voltar a ver os sobreiros de troncos fortes, os campos lavrados e a erva que tomava aqui e ali de assalto o campo visual.
A minha menina, de saia rodada como uma colegial a chegar à terra natal, num acordo de paz com as suas raízes, com os seus sonhos e com o desejo de remissão de pecados e pecadilhos que uma vida de adulta lhe proporcionara. A minha menina, que me caiu no colo e verdade seja dita no corpo todo, quando eu havia perdido o chão que me sustentava...Agora era a minha vez de devolver tão fina borboleta ao seu habitat.
Imaginei momentaneamente, enquanto o cigarro me queimava nos dedos, a minha menina a sair do carro num Jeté Bailarino, em saltinhos com a saia a esvoaçar e as suas pernas maduras a voltarem aos passos de criança. No entanto, nunca percebera porque insistira em vestir a saia na estação de serviço, mas depois de ter visto o resultado final nem reclamei. Percebi que mentalmente ela queria mostrar a quem de direito que ainda era a mesma menina sonhadora, tímida, cristalina e ingénua embora agora num corpo de mulher. Cada um reúne as armas mais convenientes para uma batalha e eu de certo modo tinha a certeza que seria uma batalha ou quando muito uma guerrita tácita de colocar os pontos nos is. Na verdade nenhum de nós sabia como a família reagiria. Mas este era o passo a ser dado, o último passo para ela na redenção da alma e o primeiro passo para mim, no iniciar nova vida, nova vivência. 
Sabia. pelo que ela me havia contado que o pai era uma pessoa difícil e apesar de ela ainda lhe guardar algum receio eu esperava que pelo menos da minha parte houvesse da parte dele alguma consideração por devolver a sua filha ao seu habitat natural, não obstante na mente dele poder ser o dono do corpo da filha. O  homem que usa e abusa do corpo que ele no leito concebeu ou ajudou a conceber. Pensaria ele isso, ou fingiria nem se ter apercebido de ter tal pensamento? Ignoraria ele na mente dele as vezes que ela gemeu no meu colo? As vezes que me beijou, arranhou e se lambuzou?
Ela ia apontando pelo vidro os locais que se lembrava, as casas de amigos, de amigas e eu ia hipnotizado na sua abertura de pernas, no modo como a saia subia cada vez que ela dava um salto no banco. Propositadamente abri os vidros para permitir maior circulação de ar, para dar entrada a uma aragem ou sopro forte e de súbito, ela exclamou:
-Pá como está tudo mudado!
-Tanto assim?
-Sim. Mesmo muito...Repara, esta rotunda não existia...O que estou a dizer? Toda esta rua não existia! Era uma caminho estreito em terra batida...Sabes, às vezes quando ia para a escola eu...
E lá vinham os quilómetros de explicações e confidências pueris, lá vinha a descrição da sua melhor tarde num dia qualquer de chuva e eu que por ser homem, repartindo a minha atenção entre a condução e a abertura das pernas dela , não poderia de facto dar atenção a tão extensa narrativa. Nem queria. Bastava-me olhar de soslaio para o olhar nostálgico e reparar no tremor de voz para perceber que no fundo aquilo era um monólogo saído directamente da alma e o meu "sim...sim...entendo!" continuava activo e repetitivo. Por fim estacou o dedo em riste e quase num grito infantil soltou:
- É já ali! Ao cimo da rua...que caraças...ai meu Deus, ainda existe a casa da Dona Glória.
-Dona Glória? - Interroguei na esperança que o balançar da saia continuasse.
-A velhota dos rebuçados de fruta. Todos os dias lá vinha ela com os rebuçados. Sabes quais eram? Aqueles de papel branco.
Ao diabo com os rebuçados e os caramelos pensei eu entretido a disfarçar o volume das calças. Como poderia explicar a ela que fiquei assim com recordações da sua infância? Isto acabava antes de ter começado!
Subimos a maldita rua e começamos a descer. O já ali demorou pelo menos uns sete  minutos até que no fim da rua lá apareceu uma moradia de dois pisos, ladeada por campos de erva e ao lado um velho baloiço. A casa, toda de pedra granítica metia respeito e parecia ser fria, assim como as janelas pequenas sem varandas, sem cor.
-Será que o meu velho baloiço ainda funciona?
-Não creio. - Respondi aterrorizado ante a perspectiva de a ver de saias a esvoaçar...Não isso era tortura a mais.
Tocou à campainha e aguardamos em silêncio. Eu com cara de enterro, ela com  ar de Disneylândia, divertida e simultaneamente expectante com o que poderia encontrar.
Quando a porta se abriu o sorriso dela desapareceu. Uma senhora já de idade, de cabelo branco como a neve e ligeiramente arqueada estacou o olhar em nós, como se fossemos testemunhas de jeová ou vendedores e desdenhosamente soltou um:
-Que querem?
A minha companheira, ninfa destes meus dias de renascimento, permaneceu uns segundos calada e arriscou um palpite como se estivesse num daqueles concursos televisivos, em que não sabendo ao certo a resposta fica na esperança do Pivot a ajudar:
-Tia Clara?
A idosa sujeita olhou-a demoradamente e muito timidamente, quase sem voz, conferiu:
-Pitareca?
-Sim. - Retorquiu ela com ar de deliciada pela lembrança de apelido infantil
Numa explosão de risos as duas se abraçaram, como se de certa forma o passado ganhasse vida e existência corpórea e renascesse naquele abraço.
-O Pai? 
-Não está aqui Pitareca. Já não mora aqui há uns anos.
-Não?
A idosa encolheu os ombros e apontou para o lado Este da localidade:
-Está no lar. Sabes, eu já não podia tomar conta dele. Ele teve um AVC, exige cuidados e eu já não posso. Desde que a tua mãe partiu..
-Partiu?
-Sim, separaram-se há uns anos...Desde aí eu tenho tomado conta da casa. Afinal ele é meu irmão, mas agora já não posso.
Suavemente, muito suavemente como em câmera lenta os joelhos dela tocaram no chão, num mar de pranto de realidade crua, que as palmas das mãos coladas à face não davam sustento. Finos rios prateados escorriam pela abertura dos dedos como lágrimas de pecado.
-Calma baby eu estou aqui. Agora nós podemos compor tudo e não podendo reparar totalmente o passado, remediaremos o futuro, o nosso futuro e ele, o teu pai, te compreenderá um dia. Verás!
A idosa senhora sorriu após um esforço hercúleo para tentar ouvir o que saía disparado da minha boca, balbuciado em trejeitos de desespero na tentativa vã de conter o choro dela.

Afinal, there`s no place like home even if its not the same anymore!













quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Lápide - Capítulo 13







O Amor não é um corpo que nos chama na cama,
não é ter compatibilidade ou a harmonia da empatia .
O Amor esventra-nos,
 dilacera-nos,
 morde-nos a alma,
não se acalma com nada.

Inês Dunas: O Amor não tira senha na Segurança Social...



"Antes isso que chegar lume e deixar arder"


Abro as  janelas de par em par, deixando entrar oxigénio,  pólen, poeira e tudo o mais que o tempo e o vento trouxerem. Anunciam períodos de chuva, o que não sendo propriamente raro neste país, é sempre uma condição chata e peculiar. Pois que entre a chuva também, que inunde, que encharque e que devore esta habitação, este mausoléu de dor, um santo sepulcro conspurcado por lágrimas de passado não muito remoto.
Tu olhas-me com esse ar de incredulidade, ainda às voltas com a falta da mala, que eu obviamente não comprei, mas também não te disse o porquê. Como poderia eu dizer que acabara de ver e falar com um fantasma, vulto já sem cor nem sabor de uma outra vida acabada há semanas atrás e oficializada hoje. Interrompi-te o discurso, as indagações e a perplexidade e dei aos teus lábios o bálsamo devido da minha boca, a língua que cantará odes em tua homenagem e que agora invade os recantos majestosos dessa tua boca que constrói as verdades mais Universais em tempos de incertezas.  Vá, vamos embora de vez. Abandonemos esta casa, sussurrei-te eu ao ouvido num suspiro mental, mas não sem antes nos despedirmos de tal vil sepulcro. Calemos a morte do tempo que passou e celebremos a vida pulsante dos minutos, horas e séculos que nos aguardam. Vamos celebrar  a subida à eternidade como os Romanos celebravam na glória da batalha vencedora. Arranco-te a folha de papel amarela por mim escrita, igual a tantas outras que espalhei pela freguesia a anunciar leilão de recheio, com a morada certinha e o dia marcado. Deixemos esta questão pois estes bens são meus ainda, bem literalmente metade deles serão e já não quero saber de metades, já sonho com o Uno, a mágica unidade de nós dois num só futuro.
Vem bela ninfa, pede-me que me venha no teu colo, em espasmos de prazer efervescente. Pede que manche, que te inunde, que te marque o senhor teu colo e se crie uma nova devoção, beatificação de meu sexo pulsante. Segura-o com a mesma firmeza com que abrias a minha porta de casa de manhã. E observa o contorcionismo próprio de um pedaço de carne quente enquanto extensão máxima do teu,meu ...nosso desejo. Beija-o e prova-o num beijo aspirante a sucção momentânea, deixa que o fruto da tesão, vertida em sémen de branco imaculado te percorra a boca, fecundando o palato e cobrir a língua. Duas voltas até o soltares, para que te marque o queixo e morra na descida para seios. O amor não é isto, isto é perversidade, imoralidade, trauma, desequilíbrio, emoção, momento...Mas talvez o amor não sendo isto, se manifeste neste prolongamento de meu corpo, de carne esvaída em desejo na boca que aprendi a amar e a desejar.
Ouço os teus passos incertos em direcção ao carro. Estrategicamente nesse teu jeito único de ser, deixas-me a sós para qualquer despedida que eu pudesse fazer, para um último pensamento, talvez um último lamento. Mas eu sorrio de prazer. Abro as portadas das janelas de para em par, abro as gavetas dos móveis do quarto de par em par e parto para o carro, para a tua beira, sem fechar a porta. "Antes isso que chegar lume e deixar arder" era o chavão proferido pela minha Ex sempre que algo corria mal. 
Entro no carro, a estrada negra de alcatrão nos espera, tu sorris esperançada. Que se dane a mala, não levo nada, vou nu, sou rei da loucura e por decreto real posso ir nu, desfilar na passadeira invisível dos olhares que eu não verei, mouco dos comentários tinhosos de uma vizinhança que jamais verei e livre, livre para te ter enquanto tiver vigor, enquanto tiver ardor e enquanto tiver amor, esta coisa ardente que me explode no peito em tremores de vulcão renascido, este amor que me havia fugido, soterrado nas rotinas de passos e sorrisos perdidos....Como eu estive tantos anos sem sentir isto? Como eu estive tanto tempo alheado da felicidade transbordante de sentir falta de alguém a todo o momento, mesmo quando esse alguém dorme a meu lado. Tenho medo de ter perder e essa é a mais pura verdade. Tenho igualmente medo de te ver envelhecer, não por te estar a ver a definhar mas porque cada dia que passe é mais um dia que o tempo roubará os teus lábios do meu corpo e quando já não houver forças para um beijo, que me deite ao lado do teu olhar e reviva contigo todas as emoções que empolaram nestes novos dias.
O roncar do motor levava-nos assim para o nosso refúgio, o nosso canto idílico, a nossa nova vida, feita no embalo do teu regresso. Sim querida este é o meu grande plano. levar-te ao Norte, devolver-te às tuas raízes, deixar-te beber o vinho de sangue familiar, apaziguar os mal entendidos e por fim voltares a sorrir no sítio onde sempre deverias ter estado. No nosso lar, no meu colo, mas junto dos teus.
Foi sensivelmente a meio da viagem que tu percebeste as minhas reais intenções e uma vez mais os teus olhos brilharam, como um clarão de dois faróis em dias de nevoeiro cerrado. Como o tinha feito? Quando tinha eu congeminado tal plano? Porque não a consultara previamente? Perguntas que tu formulavas na tua mente mas não as dizias e contudo eu lia nos teus  olhos essas questões. Entrava na tua mente e saltava a corda com estas tuas questões e rebolava no chão do teu lóbulo parietal, estendendo-me ao comprido no lóbulo frontal, misturando as tuas emoções e o raciocínio e saía para assistir divertido  à tua sensação de perdida.
Simples, respondi eu como se tivesses realmente formulado as questões...Improvisei! Assim sendo cara preciosidade da minha nova vida, não há hotel marcado, não há qualquer contacto, não sei ao certo como vai ser, mas há apenas este maço de notas no bolso e uma vontade enorme de te aprisionar a uma cama e me perder em ti durante muitas e muitas horas.
No fundo, talvez esteja a ser parvo. Talvez tenha deixado a casa saqueada por qualquer vândalo que resolveu entrar, talvez tivesse agido com mais ponderação, talvez tivesse tido mais juízo, talvez tivesse te contado o meu plano, talvez te tivesse sugerido que ligasses a teus pais, talvez tivesse ficado....
Soltei uma gargalhada bem audível, acenei a cabeça e piscando-te o olho, confidenciei-te, enquanto a minha mão livre subia na tua perna:

" Antes isto que chegar lume e deixar arder"