domingo, 28 de agosto de 2016

A Saga de Arkhan - Livro 2 - Ischtfall - Capítulo 9





Tudo o que temos é aquilo que o corpo sabe,
com a mesma descartabilidade e efemeridade da pele,
 que nos veste a alma e se enxovalha com a idade... 

Inês Dunas: Ao que o corpo sabe


O forasteiro apresenta-se ....




A expressão heroísmo tinha-se esvaziado por completo na mente do forasteiro que em passos curtos acompanhava a criança, mudo e perdido nos seus tenebrosos  pensamentos.
Rasmen não era agora um homem tranquilo, nem tão pouco de pensamentos leves. Se se pudesse desenhar uma cor dos seus pensamentos seria certamente a carvão bem negro. Fugira rapidamente da sua cidade natal quando esta tremeu sob a fúria do ataque de Orgutt e ao invés de fugir para norte, como refugiado de guerra, como um mero civil cometera a loucura, segundo a sua crença de rumar a Ischtfall e pior ainda de se apresentar como membro do exército de Borren.
Como resultado, o rei daquele reino,  Leopoldo II havia-o recrutado, em nome da boa e respeitosa aliança que Ischtfall assinara com Borren e agora só tinha uma solução possível. Uma nova fuga, desta feita mais bem pensada ou arquitectada pela calada da noite antes que as coisas se complicassem ainda mais para si e para o jovem que corria em passos de pardal à sua frente.
Mas a sua fuga revestia-se de dificuldades acrescidas, uma vez que durante o dia, não poderia passar despercebido pelos guardas nos portões , teria de ser à noite o que acrescia ainda mais a missão de ser bem sucedido dado não saber os horários das rondas dos patrulheiros, nem quando há o render dos guardas nos portões não poderia arriscar. Teria forçosamente de arranjar um modo de escalar as muralhas, silenciosamente e em segurança o que com uma criança se tornava cada vez mais complicado. Claro que ele não era prisioneiro em Ischtfall e poderia voltar as costas e simplesmente abandonar o reino sem dar cavaco a ninguém, mas certamente por essa altura todos os soldados do reino estariam informados do seu novo posto e correriam a avisar Leopoldo II que no mínimo o perseguiria e o prenderia por traição ou espionagem ou se tivesse mesmo azar pelas duas cosias juntas.
Rasmen passou a dedicar então especial atenção ao que ia presenciando, procurando um ponto fraco na vigilância do reino, mas depressa se apercebia que era de facto uma tarefa impossível.. 
Com efeito,Dentro das muralhas que circundavam o reino era difícil para um forasteiro ficar indiferente a Ischtfall. As suas ruas estreitas, de terra batida, as rústicas habitações germinadas  de madeira da parte baixa do reino, logo a seguir ao portão principal, construídas todas da mesma maneira e em fila obrigatória guiavam um estranho por labirínticos corredores , em que todas as casas eram absolutamente iguais e o cheiro nauseabundo das latrinas despejadas nas traseiras, incomodavam o oficial solenemente, habituado que estava ao fosso dos dejectos construído propositadamente fora da cidade de Borren. Era melhor pagar aos latrineiros para que recolhessem a porcaria e a despejassem no fosso, do que atirar para as traseiras de casa. Até então o reino não estava a oferecer ao ex-militar de Borren qualquer tentativa de sedução. O cheiro perseguiu o homem e a criança que o acompanhava até ambos desembocarem no centro do reino e começarem a surgir as casas de pedra refinada, com brasões e de grandes dimensões, suficientemente longe dos casebres de madeira, mas igualmente perto de todo o comércio que amíude se ia fazendo. Na parte baixa, vendia-se um pouco de tudo e com alguma naturalidade as moedas circulavam, embora o prato forte do negócio residisse nas duas tabernas evitadas pelos Nobres e frequentadas por todo o tipo de gente, sendo sempre o ponto de encontro para a má-língua ou para um divertido jogo de cartas depois do trabalho.
Para ele contudo a taberna que lhe haviam indicado parecia-lhe a pior de Arkhan, talvez por na sua cidade natal não existirem tabernas e a custo entrou evitando os olhares inquisidores dos que lá estavam. Mensull, o miúdo aguardava impaciente à porta, desconfiado enquanto se acercava do taberneiro:
-Saudações. Contaram-me que existe um quarto para alugar e que era consigo que trataria. - Principiou a explicar o forasteiro.
-Pode até ser. Mas não é de graça. - Avisou o sujo taberneiro enquanto estudava o visitante pelo canto do olho.
-Compreendo. Realmente irei necessitar de um quarto!
-Por quanto tempo e para quantos?
-Por alguns dias, não posso precisar quantos ao certo. Um adulto e uma criança.
O taberneiro permaneceu uns segundos calado e absorto na figura do forasteiro:
-Porque carga de água viajais com uma criança?
-Eu não viajo! Eu vim servir o rei Leopoldo II e o exército de Ischtfall. - Confidenciou Rasmen á laia de aviso.
Uma gargalhada irrompeu instantaneamente nos presentes, cuidando que o forasteiro fosse cómico. depois de alguns risos soltos, o taberneiro voltou à carga:
-Agora a sério, queira fazer o favor de responder. Porque viaja com uma criança neste Mundo tão violento?
O forasteiro sentiu os olhares inquisidores de todos os presentes sobre si, como flechas ardentes a espetarem-lhe no dorso e conhecedor da arrogância das gentes de Ischtfall, sentiu que deveria forçar a barra e espicaçar o orgulho patriótico daquela gente:
-É como vos digo,,- Principiou ele pausadamente- Parece que neste reino não têm pessoal competente. Não falo como é lógico de gente vulgar e de mesteres, que carpinteiros e ferreiros os há em toda a parte, mas de gente que tenha dois dedos de testa e um intelecto para comandar homens.
As gargalhadas cessaram como por magia e os sorrisos de troça desapareceram do rosto de todos os presentes. Rasmen estava a principiar a ficar deliciado com a sua própria actuação:
-Mas parece, ó nobre gente deste reino, que tereis um rei à altura, ciente das vossas parcas competências e sem receio de solicitar socorro a Borren.
A menção ao nome da cidade-fortificada outrora bem rival, aqueceu ainda mais o espírito dos ouvintes:
-Mas nada temeis! Eu, Jorgen Rasmen vosso novo general e agora servidor de Leopoldo II, cá estou para defender as vossas casas primitivas e os vossos parcos recursos, em nome de um bem maior.
As mãos dos presentes, num gesto autónomo e parecendo ensaiado subiam até à cintura ou até ás botas, buscando o punho da espada ou navalha, mas o taberneiro assobiou baixinho em jeito de troça e numa voz arrastada inquiriu:
-Dizei-me ó grande general, sois vós que ensaiais o vosso discurso de vento e ar estragado, ou pedis ao pirralho que vos dite?
De súbito novo coro de gargalhadas e o ar ameaçador voltou a desanuviar da face dos presentes:
Rasmen retirou uma caneca de um líquido doirado da mão do homem mais próximo, beberricou dois goles mal bebidos e retomou, indiferente:
-Não sei se sabeis mas todos os exércitos de Orgutt dirigem-se a Ischtfall, embora eu acredite que igualmente o senhor da Guerra possa aparecer aqui na mesma altura e então nessa altura não haverá tempo algum para discursos.
Os sorrisos desapareciam de novo e o silêncio sepulcral voltava, tendo um sujeito magro e com ar de ensonado, lançando a questão:
-Mas então, com tantos inimigos a vir até cá e escolhem logo este palito para nos defender? Decerto que foi equívoco! Dizei-me, o rei realmente o conhece ou requisitou a sua presença por procuração?
- Perdão cavalheiro, mas quem sois vós para avaliar um vosso oficial com essa leviandade?
-Sou apenas um homem de Ischtfall, ciente do que é uma espada e indiferente a títulos ou nomes.
-Falais bem, acaso lutais da mesma forma?- Respondeu irritado Rasmen.
Dois homens entravam na taberna envergando mantos com capuz, quando o sujeito com ar ensonado ergueu-se e aproximou-se disposto a enfrentar o forasteiro. Mas o taberneiro foi bem mais rápido, colocando-se rápidamente entre os dois homens:
-Aqui não! Já tive problemas com os guardas do rei.
-Os guardas do rei nada farão! - Respondeu um dos homens recentemente entrado.
Num olhar rápido o taberneiro destingiu as divisas de nobreza mostradas por descuido:
-Mesmo assim, rogo-vos Timmur que não vos desgraceis. Se este homem é efectivamente general...
-General? Posso vos garantir que esse homem é um refugiado de Borren. Não sei se estais ao corrente, mas Borren foi conquistada por Orgutt.
-Pois então mentis! - Gritou o sujeito antes ensonado
Rasmen recuar dois passos e antes que qualquer um dos presentes reagisse, agarrou a caneca de estanho mal trabalhado, do seu parceiro do balcão, aplicando uma sucessão de três golpes na cabeça, nariz e mão do taberneiro, atirando após isso, prontamente a caneca na direcção do sujeito que o confrontara e de seguida como um felino, saltou o balcão para o interior, desembainhando a espada.
Mensull que se apercebera da algazarra entrava a toda a velocidade para a taberna, aplicando pontapés e estalos aos presentes à medida que avançava também ele para o interior do balcão.
Timmur, o sujeito ensonado que provocara toda esta discórdia e guarda de honra do rei, desembainhou também ele a espada e saltou para o balcão, gritando:
.-Por Leopoldo II, não vos permitirei que insultais os meus amigos e a boa gente deste reino. Haveis passado das marcas ao mentires. 
-Pareceis muito ofendido para quem passa os dias na Taberna!
-Não vos admito! - O timbre da voz já não era de irritação, mas de fúria.
Rasmen evitou o primeiro ataque vertical da lâmina de Timmur  e recuperando o equilíbrio contra-atacou com a mão livre, aplicando um golpe no calcanhar de Timmur fazendo-o desequilibrar sobre o balcão e baixar a guarda, para então Mensull atirar uma garrafa de estanho à cara do sujeito atirando-o para o chão.
Com o taberneiro e com Timmur fora da luta , Rasmen encolhia-se a evitar os golpes de dois dos presentes que já se juntavam à contenda e antes da entrada na luta de mais dois, o forasteiro saiu do balcão, usando o tampo de uma pequena mesa como escudo, enquanto o miudo mordia e arranhava quem visse pela frente. Contudo, dado o pouco espaço para lutar, Rasmen abandonara a espada concentrando-se na defesa dos golpes de navalha que caíam de várias direcções. Ele havia treinado vezes sem conta combates corpo- a - corpo, mas em outros espaços e com maior margem de manobra e ali, quase encostado à parede, começavam a faltar-lhe opções de fuga ou de desvio, até que uma voz de trovão se fez ouvir:
-Mas por todos os Deuses de Arkhan, que se passa aqui?
Todos os olhares se voltaram para a figura imponente estacada diante da entrada da Taberna.
Timmur pareceu ter sido o primeiro a reconhecer e apressou-se a prestar a devida vénia, intercedendo a favor dos presentes:
-Meu rei, majestade.Lamento toda esta confusão, mas não é o que pensais!
-Ai não?
-Não meu rei. Não se trata de uma escaramuça sem sentido, mas com um propósito firme de castigar um mentiroso.
-Explicai! - Ordenou o rei, conhecedor das muitas escaramuças provocadas por Timmur quando bebia demais.
-Este cavalheiro, apresentou-se como general de Ischtfall - Elucidou sem disfarçar um sorriso sarcástico-E é apenas um exilado de uma cidade.
-Ai sim? - Por alguma razão estranha a Timmur o rei parecia igualmente divertido.
-Verdade meu senhor. - Apressou-se a comprovar o taberneiro, receoso que o rei mandasse fechar a taberna.
O rei entrou, sozinho, para grande admiração dos presentes, sem qualquer guarda de honra e avançou obstinado com as esporas a bater arduamente no pavimento, sem reparar nos dois encarapuçados encolhidos a um canto:
-E vós, que dizeis de tudo isto? - Inquiriu Leopoldo II dirigindo-se ao forasteiro.
-Não foi nada de especial alteza. Apenas algum exagero nas festividades destes meus amigos pela minha nomeação a general.- Brincou Rasmen.
-Muito bem. Agora que já confraternizaram, solicito a vossa presença no palácio imediatamente.
-Mas majestade, preciso de por a pobre criança a descansar.
Nisto o rei contemplou a figura despenteada e desesperada de Mensull e sorrindo rematou:
-Não tem muito aspecto de escudeiro, nem tão pouco de vosso filho. Dizei-me, que planos tendes para esta criatura?
-Planos majestade?
-Claro. Se o trazeis para Ischtfall, certamente que esperais que se torne membro do nosso reino.
-Não tinha pensado nisso...- Respondeu Rasmen desesperado por encontrar uma fuga.
-Meus caros, peço desculpa de interromper a vossa festa, mas eu e o vosso novo general temos de conversar.
Sem apresentarem qualquer objecção, os presentes viram os dois homens e a criança retirarem-se e já algo longe dali, o rei adiantou:
-Soube que poderia passar por problemas quando me informaram que vos foi dado o endereço desta taberna.
-Realmente...- Respondeu o oficial contrariado por o rei ter trazido mais um cavalo.
-Mas realmente preciso de vós. Deixai a criança no palácio, ela ficará bem entregue e venha aqui ter junto desta árvore dentro de uma hora.
-Mas onde iremos Majestade?
-Às montanhas! Mas cuidai que é segredo.
Rasmen contemplou o vulto da montanha encoberto por raios de sol e por momentos sentiu uns arrepios estranhos na nuca. Já tinha ouvido falar da Montanha e das suas gentes e o que tinha ouvido não era de todo agradável.
Num suspiro o oficial rumou ao palácio pensando em como podia o dia piorar ainda mais.






terça-feira, 23 de agosto de 2016

ADEUS....





COLD AS STONE


estou uma lástima,
uma destroço de vida
nada que me segure
ou sonho em que pendure

estou agora destroçado
do sonho feito pecado
coração em banho-maria
outro seria se te teria

psicadélica sensação
psicadélica devoção
psicadélica emoção
viver é obrigação.

Imortal no teu querer
pedaço insano do meu viver
agora que a linha acabou
já nada me resta para me entreter

rasga-me a lamina nas veias
em rio de sangue contado
em face sorridente recordado
castelo sem defesas ou ameias

essa treta de ser forte por fora
quando por dentro sou vácuo
essa léria de ser onde o riso mora
a verdade é que tudo é asco

psicadélica sensação
psicadélica devoção
psicadélica emoção
viver é obrigação.

obrigado a sentir
a cada minuto o Eu partir
de joelhos pouco devoto
eu que já não sei sorrir.

Adeus agora que parto
sem grande embaraço,
golpe dado num braço
até que a mente torne tudo baço

psicadélica sensação
psicadélica devoção
psicadélica emoção
viver é obrigação.


ADEUS....


sexta-feira, 12 de agosto de 2016

A Saga de Arkhan - Livro 2 - Ischtfall - Capítulo 8





Quero ter o mesmo sorriso, mas marcado pela vida que vivi,
pela sabedoria que o tempo me trouxe,
pela tatuagem de cada dia!
Porque estar viva é mudar sempre
e eu nunca ouvi o riso das pedras…

Inês Dunas: EnvelheSer

http://librisscriptaest.blogspot.pt/2012/11/envelheser.html



POR MATUKA É HORA DE AGIR!



Os finos e ténues raios de luz solar irrompiam a medo pela curta abertura do postigo, numa penumbra sinistra aumentando ainda mais a sensação que ela tinha de clausura.
Contudo de costas voltadas para o postigo Latvéria permanecia imóvel, sentada na borda da cama, parecendo aguardar algo ou alguém que nunca viria. As feições do rosto eram de pedra e o cabelo desleixado e maltratado ofereciam a tal senhora um aspecto grotesco e insano.
Quisera ela ser cadáver, pedia ela em segredo às sombras que com ela permaneciam no quarto que o coração deixasse de bater, que cessasse a sua actividade e que a deixasse petrificada, como estátua, para que todos assistissem à sua queda final. Mas o coração não parava, os dias não paravam de surgir a um ritmo certo e se havia vida lá fora, dentro daquele quarto tudo morria a cada segundo que passava.
A enfermidade de Latvéria era ainda desconhecida de todos, inclusivé dela mesma. Não se poderia tratar o que nãos e via, avisava o médico do reino. Talvez seja do ar gélido da Montanha que se abate no Inverno sobre a Montanha e que por qualquer razão afectara a rainha, sugeriu um especialista de Borren. Mas a rainha sabia que não era nada disso. Ela morrera, vítima de abandono dos seus irmãos nobres, do seu marido e sobretudo de si mesma. Era um pássaro enjaulado sem poder voar. Podiam-lhe mostrar o sol e o mundo, mas não a deixavam sair e cheirar e correr e saltar...Nada. Rainha no seu palácio e no entanto cativa na sua própria solidão.  Até as rondas das serviçais reduziam de dia para dia, como se não houvesse naquele quarto nada mais de interessante para ver. Latvéria sabia que era motivo de falatório pelo reino e aprendera a viver com esse desconforto, no fundo uma ferida não exposta, escondida mas que não doendo, mói ao pensar nela e prática como ela sempre tinha sido até casar, optou por ignorar a dor, convivendo com ela, serenando-a e adormecendo-a no seu íntimo, mas evitando voltar a esse assunto para não a despertar.
No início, aquando da mudança para aquele quarto, a rainha sentia-se grata por a deixarem em paz, por a "esconderem" de todos, mas depois vieram os médicos, curandeiros e toda uma estirpe de sujeitos que julgavam ter resposta para tudo e nada entendiam de um corpo sem alma, vazada ao limite pelas correntes de um casamento com quem não amava e acima de tudo, humilhada pela decisão do harém de jovens que Leopoldo II resolvera instituir.
Tinha sido demais e sem reagir começou a ver a sua família a afastar-se. As visitas do pai e mãe tornaram-se cada vez mais raras, não obstante ela saber que Leopoldo II tinha mantido a parte do seu acordo nupcial, ao permitir que os Nobres e em especial a sua família tivesse acesso ao palácio, bem como uma sala onde os nobres pudessem conviver. Mas a ela nunca a vieram ver, pensou ela sintetizando a ideia com um esgar de desprezo nos lábios.
Foi pois quase sem reacção ou sobressalto quando sentiu a porta do quarto abrir e ouviu distraidamente os passos inseguros e receosos da visitante. Sem se voltar ou encarar a visita, Latvéria proferiu num tom monocórdico:
-Não vos chamei e não preciso de nada.
-Perdão majestade. Entrei sem me haver chamado!
Latvéria não reconheceu a voz, voltando-se então um pouco surpresa e tentando descortinar na penumbra do quarto quem ousava entrar sem autorização:
-Quem sois?
-Miriam, senhora!
-Quem?
-Uma das novas serviçais do palácio.
-Como disse, não preciso de nada. - A rainha tentava fixar o seu olhar no rosto da visitante.
-Eu sei majestade. Mas Ischtfall precisa de vós!
-Que dizeis? - A rainha ergueu-se prontamente, escandalizada.
-Majestade não me julgueis mal, nem chamais os guardas. Tive tanto trabalho para entrar aqui sem ser vista...
A voz que lhe chegava aos ouvidos era de uma jovem, demasiado jovem para uma serviçal e isso de certa forma sossegou Latvéria, disposta a perceber o que a serviçal pretendia:
-Aproximai-vos. Quero ver a vossa face!
-Certamente minha rainha.
Miriam no seu cabelo castanho apanhado por um tosco rabo de cavalo mal feito, caminhou lentamente até se acercar da rainha e então fez a vénia real:
-Pelos Deuses das chamas da morte, sois uma criança. Que idade tendes?
-Dezassete anos senhora.
-Sois de Ischtfall?
-Sim minha senhora. Filha de Rorin e Magdath. Nascida e criada em Ishtfall.
-Magdath ? - repetiu a rainha secamente.
-Sim majestade.
-A retornada da montanha?
-Essa mesmo majestade. - A jovem parecia agora ainda mais nervosa.
Latvéria aproximou-se colocando a mão sobre a cabeça da jovem, desatando-lhe o tosco nó do rabo de cavalo, erguendo-lhe o queixo com a palma da mão e num tom ríspido inquiriu:
-Acaso sabeis a pena por invadires os meus aposentos sem autorização?
-Doze vergastadas, minha senhora.
Pela primeira vez em muitos anos a rainha sorriu:
-Explicai-vos então!
-Majestade, eu cresci com a minha mãe a afirmar a pés juntos que vos poderia curar. Ela insiste que a vossa doença sois vós mesma e que o nosso rei sem a vossa presença ou reparo se tornará fraco, alvo fácil das invejas que reinam no palácio...
-Por Rarhh que imaginação fértil tendes...
-Minha rainha, só conto o que ouvi da boca dela  anos a fio e foi por isso que me ofereci para estar junto de vós. Mas eles puseram-me no apoio à cozinha... - Miriam falava de um modo muito rápido e quase sem respirar.
-Calai-vos... - Ordenou a rainha alertada por vozes no corredor.
As vozes aumentavam e os passos apressados eram agora mais audíveis:
-Rápido, escondei-vos. Não deixarei que vos vejam!
Com uma destreza sem igual a jovem mergulhou para baixo da cama da rainha, encolhendo as pernas e com uma energia que há muito a rainha não usava, Latvéria atirou-se para cima da cama, fingindo dormitar:
-Majestade, peço desculpa incomodar, mas é hora da ronda e desejava saber se precisais de algo. - perguntou uma idosa serviçal.
-Não necessito de nada. Deixai-me em paz..
-Muito bem, majestade.
-E suspendei as rondas por hoje...Tanto alarido que fazeis que me dão dores de cabeça. - Mentiu a rainha apercebendo-se de mais vultos à entrada da porta.
-Com certeza majestade.
Assim que o som dos passos se foi tornando cada vez mais longínquo, a rainha voltou a erguer-se e aguardou que a jovem saísse  do seu esconderijo:
-Menina Miriam o que irei eu fazer consigo?
-Majestade, peço-vos que me deixais falar tudo...
-Falai. Creio que não terei outro remédio. - Concluiu Latvéria de novo com sorriso no rosto.
-Como estava a dizer, precisava de vos ver. Não serei útil a Ischtfall na cozinha, mas ao vosso lado. Sobretudo depois do que ouvi.
-E que foi que ouvistes?
-No caminho para cá, uma vez que pretendia passar despercebida, passei por uma sala do palácio, com muitos homens, um deles todo bem vestido e galante, outro gordo e de voz de trovão...
-A Ala dos Nobres e creio que esse senhor que haveis descrevido é meu tio! - Ripostou a rainha cada vez mais divertida.
-Pois bem majestade, acontece que eles planeiam fazer alguma coisa a um forasteiro que pelo que percebi veio de Borren e vai ser general e enfrentar os maus .. - A jovem fez uma curta pausa para respirar.
-Quem derrotou? Que forasteiro?- A rainha estava demasiadamente confusa com o relato.
-E parece que o conselheiro está feito com eles.- Opinou a jovem ignorando as perguntas.
A rainha perdeu imediatamente o seu sorriso, a sua face tornou-se de pedra e a rigidez dos membros que tanto a apoquentava voltou em força:
-Que tenho a ver com isso? - Indagou como se se dirigisse a si própria.
-Tudo majestade. A minha mãe pode ter muitos defeitos, mas creio que ela tem razão. Só ela vos pode curar!
Latvéria olhou de novo para a menina  e  a custo dirigiu-se até à janela contemplando a Montanha, eterna e imóvel e no entanto cheia de vida.
A jovem de faces rosadas aproximou-se da rainha e perdendo de vez as formalidades, retirou uma espécie de amuleto do bolso e colocou-o na mão da rainha:
-Que fazeis?
-A minha mãe diz ser o olho de Matuka, a Deusa da Natureza e que vos dará forças.
A rainha contemplou a esmeralda:
-Tem ar de ser valioso pequena Miriam.
-É vosso majestade! Segundo a minha mãe ela brilhará consoante a vossa energia e vontade.
Latvéria contemplou com ternura os olhos castanhos vivos da jovem e sem hesitar, proferiu com uma segurança que há muito não usava:
-Gosto da vossa paixão pelo nosso reino e sobretudo por mim. Há tanto tempo que sou ignorada e esquecida que já não me lembrava da sensação do sangue a ferver nas veias ou dos olhos a transbordarem como o nosso bonito lago nas cheias de inverno.
-Majestade, se me permitis a afirmação, sois mais bela vista ao perto que quando vos via à varanda do palácio.
-Oh, como podeis dizer tal? - Afirmou a rainha enojada. - Estou um maltrapilho, velho e gasto....pareço um desses trajes do povo da Montanha!
A jovem fingiu que o comentário não a incomodou:
-Majestade, olhai a vossa mão!
A esmeralda brilhava com uma intensidade invulgar na palma da mão direita da rainha:
-Que bruxaria é esta?
-Não é bruxaria majestade. É Matuka a pedir que acordais desse estado e salvais Ischtfall!
Latvéria avançou até ao espelho encardido pelos anos de desleixo na limpeza, roçou a manga do seu vestido já roçado pelas longas horas que passava deitada no solo de pedra, nas suas crises de ansiedade e contemplou um novo olhar ao espelho.
Decidida e frenética abriu o postigo na sua totalidade, permitindo a total entrada de luz desse fim de tarde e num tom de voz bastante alto, anunciou:
-Por Matuka, que não sendo minha deusa me acordou, por Ischtfall e sobretudo por vós pequena Miriam é chegada a hora de ser a rainha! Acompanhai-me.
-Mas os guardas...
-Nada temas , o medo acabou de sair deste palácio
E sem demoras a rainha, abriu com violência a porta de saída do quarto, seguida muito de perto pela jovem,
Com um ar decidido e secretamente sorrindo o pássaro voltava a querer voar!