quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Lápide- Capítulo 8

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Tomei o amor como garantido e imortal
e afinal, mal o conhecia…
Nunca o olhei nos olhos, nunca lhe aqueci as mãos,
nunca ouvi o que dizia.
Atirava-lhe  miséria e esperava que estivesse presente,
para sempre…

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LA DOLCE VITA


Eu tinha caído do céu, como se fosse uma lágrima de anjo e de repente  era uma bola de água, do tamanho de um pequeno berlinde e motivo de uso e de gozo para um campo de futebol imaginário. Era uma pequena bola que apesar de ser indestrutível, mudava por segundos de forma, mediante cada pontapé que apanhava, até voltar à minha forma natural de bola e de novo era pontapeado. Era uma bola de água criada, feita e pensada para ser usada pelos presentes nesse jogo que se deliciavam com a minha tortura,até se fartarem e me pontapearem para o próximo. Tinha olhos e não boca e via os presentes alinhados nesse campo imaginário. Lá estavam todos felizes: Os meus filhos, a ex-esposa, o meu chefe, o outro cabrão que conseguiu a promoção no escritório que devia ter sido minha e eu mudava de forma depois de chutado, tentando me adaptar ao momento e quando recuperava era novamente chutado. E em cada chuto, surgiam risos de escárnio nos presentes que batiam palmas e motivavam o próximo jogador a desferir o seu melhor pontapé e de repente, quando já estava a perder qualquer esperança de poder descansar, de poder usufruir da minha forma original, surge as mãos calmas e tranquilas da Maria, a doce Maria a salvar-me e a recolher-me nos seus braços, num abraço cerimonioso mas ao mesmo tempo quente e protector. Recordo que lançou um olhar recriminador e virou de costas, levando-me para fora dali, permitindo a que no fim, eu recuperasse a minha forma original e a conseguisse manter e depois beijou-me, baixou-se e largou-me deixando-me rolar livremente à procura do meu caminho. Não se despediu, não me seguiu, nem me reprimiu, apenas ficou a me ver rolar, como se de certa forma, o simples motivo de me ver feliz fosse o seu último objectivo.
Havia sol, uma luz poderosa nesse momento. Algo de inesquecível e inexplicavelmente belo. Um quadro pintado a aguarelas de ponta de pincel bem grosso e majestoso. Um quadro perfeito do que poderia ser a felicidade na forma de uma bola colorida pelas imagens de uma vida vivida, mas subitamente durante esse sonho ocorreu-me que uma tal bola perfeita poderia se partir, ser pisada, rebentada, esmagada e triturada sob os pés de uma tirana, ou furada na ponta de um egoísmo alheio à minha vontade e ao meu desejo de correr e então, desobedecendo às leis da física e porque de um sonho se tratava 
E depois acordei, gostaria de dizer que tinham sido os risos e o rádio bem alto que me despertaram do meu sonho de ressaca nesse inicio de tarde, ou o barulho de panelas e talheres na cozinha, mas na verdade acordei sobressaltado pelo sonho. 
Não sei que dia da semana é, já não me lembro bem do mês em que estamos e muito menos sei porque o diabo do rádio berra uma voz esganiçada de um qualquer cantor norte-americano. Desde que me entendo como gente, mais ou menos a partir do segundo mês no útero, que odeio acordar ou que me acordem repentinamente. Se normalmente já sinto dificuldade em ter um raciocínio clean, quando estou cem por cento acordado, dificilmente o consigo quando acordo estremunhado como que pontapeado por biqueiras de aço de uma realidade atroz que não nos abraça nos sonhos, nem nos dá colo de esperança.
Sinto no quarto a fragrância da nossa entrega, o doce cheiro do sexo,  da indecência e das actividades nocturnas e isso me motiva a me levantar e fazer parte do mundo dos bem acordados. Preciso de uma caneca de café, preciso de um sorriso, preciso de um novo início, preciso no fundo que me sacudam vezes sem conta até todos os ossos se reunirem de novo e voltarem a erguer este edifício quase cinquentenário. Não tenho muita esperança no sucesso dessa missão e no entanto algo terá de ser feito...Um dia.
Desço as escadas de madeira como nunca desci em anos, descalço e de boxers. Já morreram os tempos do pijama bem engomado debaixo da almofada e dos chinelinhos que compravas em promoção todos os invernos  no Corte Inglês. Agora sou livre, agora sou defunto vivo, agora não quero saber. Repara que não sou radical, isso seria descer nu a escorregar pelo corrimão como uma criança rebelde, sou apenas contestatário do insucesso do matrimónio.
Na cozinha Maria arrancou-me um Oh de espanto. Panquecas e café fumegantes, ambos deliciosos e acabados de fazer, pousados na toalha de vermelho vivo, num aparato visual capaz de mover um paralítico escadas acima ao pé-coxinho. Maria, doce e suave Maria. Nome de bolacha, género de sustento, dona do meu advento, do primeiro tempo do meu ano litúrgico. Se Cristo tem os seus mistérios, tu minha desconhecida Maria és um terço de coisas boas que de bom grado rezarei no teu regaço. A pobre mulher recebeu-me com um beijo apaixonado, sentou-me à mesa, serviu-me a panqueca e encheu a minha chávena de café, enquanto cantarolava algo num inglês imperceptível e vendo-me ali, entregue à minha fome abriu-me o livro da sua vida e desfez-se em confidências como se realmente eu tivesse perguntado.
Lá explicou na sua voz sentida que também ela já sofrera muito na vida, que também ela havia sido largada, esquecida e deixada ao abandono por um crápula que a seduziu na sua santa terrinha ( creio ter mencionado ser lá do Norte) e a trouxe jovem e cheia de sonhos para a capital, seduzida por uma vida a dois de trabalho, respeito e amor. Prometeu-lhe um emprego, talvez num shoping , ou num dos muitos restaurantes famosos onde segundo o pulha, os seus amigos de infância eram os donos. Prometeu-lhe de mão dada com ela, uma vida boémia, cheia de aventuras e descobertas, onde um mais um, seria apenas um só. Dois juntos no mesmo caminho, sob o mesmo tecto. E nas maiores hesitações dela, porventura desesperado, jurou-lhe um vestido branco de véu e grinalda, numa festa de pompa e circunstância e prometeu-lhe que quando regressasse à sua terrinha seria como senhora dona tal, mulher de respeito e de posses e então teria o perdão ou quem sabe o respeito dos seus pais pelo abandono da casa a meio da noite.
Acenei a tudo o que dizia como se realmente me importasse, como se realmente partilhasse a sua dor, emborcando outra panqueca e assistindo ao fino desaparecer do açúcar, dissolvido no café matinal da minha inconsistência.
Claro, explicou-me ela já em volume mais alto, que o palhaço perdido de dívidas, queria e pretendia apenas que ela trabalhasse para ele, que limpasse escadas, casas, que usasse o seu sorriso ou o seu corpo para abrir a torneira do dinheiro necessário para saldar tudo e mais alguma coisa. Teria de ser ela, explicou-lhe ele de lágrima no canto do olho, porque ele tinha mais estudos, mais conhecimentos da capital que ela e logo ele seria candidato a melhor emprego. Até poderia ser pensou ela na altura , mas só aconteceria se o dito cujo entrasse no café onde ele passava as tardes e lhe pousasse no colo, substituindo outras inocentes como ela seduzidas em tardes de léria, enquanto ela o esperava, todas as tardes enfiada num quarto sem luz natural, ansiosa de que um dia ele encontraria um emprego, ou pelo menos uma forma de sustento.
Um belo dia, ao fim da tarde ele não voltou. Nunca mais voltou e seis meses depois de ter abandonado o seu lar, a sua terra encontrava-se sem dinheiro, sem sustento e com vergonha de voltar a encarar o rosto duro paterno.
Afinal a doce vida morreu gelada, de inércia num sonho moribundo, sem ajuda, sem pão, sem senão. E disse isto enquanto eu gemia por um pedaço de mel, apontando com o indicador, não ousando interromper com qualquer interjeição, com medo de provocar uma inundação de lágrimas no rosto da pobre Maria. Sentia o tremor e a dor na voz dela, via os seus olhos humedecerem e desisti de insistir no mel. Voltei a minha atenção para o café, com dois pingos de leite, aguardando que o relato acabasse rápido. Nunca prestei grande atenção à vida dos outros e não sou de me comover com passados, excepto o meu, esse sacana do meu passado merece ser ressuscitado todos os dias à luz das velas, qual culto satânico. E porquê? Porque me dói, porque me faz sofrer e a minha dor não é página sentimental é minha, somente minha e só eu é que sou o indicado para lidar ou morrer com ela.
Dos lábios esborratados e baton barato da ingénua Maria são cuspidas as boas-novas. Trinta anos depois, aos quarenta e oito anos ela sobreviveu ao seu triste fado. Arregaçou as mangas e fez-se à vida. Deixou de ser a Maria da Aparecida, a Maria saloia de uma aldeia que ninguém ouvira falar, para ser a Maria faz-tudo, a Maria empreendedora. A Maria dos cosméticos por catálogo, das confeitarias a part-time, das limpezas após horário laboral dos escritórios e então a primeira revelação. O soco disferido ao meu estômago. Sim, a primeira vez que me viu, que me conheceu, foi lá. No bolorento escritório. Confidenciou-me quase ao pé do meu ouvido esquerdo que foi paixão à primeira vista. O meu porte, a minha altivez, os meus gestos de cavalheiro e seguiu-me um dia até casa, onde me viu entrar. Casa essa que viria a visitar, oferecendo os seus serviços e tudo para quê? Para estar perto de mim. E a parva da minha ex-esposa, a julgar que tinha sido um anjo a guiá-la a nossa casa, "tão barata e prestável" catalogou ela no seu snobismo. Pois sim, faz como entenderes, respondi eu no meu "quer lá saber disso."
Perdi de repente a vontade de fingir que a ouvia, perdi o apetite e a vontade de beber café e ainda em choque a observei como um não crente assiste a um milagre, num misto de inquietação e espanto. Aquela mulher, aquela doce e ingénua mulher, aquele Ser espezinhado por mim diariamente, que me lavava as cuecas, que limpava a minha sanita, separava o meu lixo e se sujeitava há cinco anos aos caprichos da minha cabra Leonor, fazia-o porque queria estar perto de mim.
Olhei em devoção os seus olhos rasgados, como se fosse uma chinesa, o seu rosto perfeito. Puxei-a para mim, abrindo o meu robe que ela tão cerimoniosamente usava no seu corpo e expondo a sua nudez ao meu olhar lascivo, beijei-a como nunca beijara alguém na minha vida.
Entre panquecas e um bom café La dolce Vita  


quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Lápide- Capítulo 7



E eu ajudei-te, queria fugir dali,
mas fiquei a ver-te espaçar o respirar até ao silêncio ensurdecedor
levar-te de mim...
Assim num segundo em que (de)terminou tudo.

Porque Amar também é saber deixar partir...

http://librisscriptaest.blogspot.pt/2017/11/partir-e-morrer-um-pouco.html



IGNOBIL LEONOR


A vida é um crochet de memórias, fantasmas de um passado mastigado, ruminado na boca de uma vaca e expelidos com um peido, um sonoro peido em plena multidão.
Há cheiros. multidões, pessoas com ar de carneiro mal-morto que nos olham de soslaio, desaprovando este novo meio de estar em sociedade.
A fúria de um sonoro peido, largado como não sei o quê que me saiu e do qual não me arrependo, assemelha-se a um espirro em momentos de cólera ou gripe. Um breve e saudoso espirro, sem cotovelo a aparar. Sem sequer pensar em quem está ao lado. Pois que se danem, que morram!
Falo de boca cheia, após ter vindo do gelo exterior e de constatar que a minha conta bancária é apenas uma metade. Uma metade de nada e no entanto, uma metade que vale quatro mil e seiscentos euros. Ah, as loucuras que eu poderia ter feito com aproximadamente dezasseis mil euros na conta. Fosse eu outro tipo de homem e pouco me lixaria para a tua regra de estar prevenido que os filhos poderiam precisar , quem sabe até casarem e a figura que depois faríamos ao entregar um cheque chorudo aos noivos. Que diabo, quando casei contigo, quando assinei este pacto de auto-destruição o meu pai nada me deu, a não ser um conselho de como satisfazer uma virgem na cama. Por falar nisso será que eras mesmo virgem? Recordo-me agora que não sangraste ou será que sangraste? Não sei. Sei que abandonei o preservativo exactamente cinco minutos depois de o tentar colocar e de tu me assegurares que não iríamos precisar, que agora que já éramos casados já não era pecado. Compreendo....Agora que deus nosso senhor disse que já éramos casados já podemos tudo, até quem sabe anal selvagem. Viva deus nosso senhor!!!
E do alto da nossa pequena fortuna, amealhada com massa de frango semanas a fio, disseste do alto da tua sabedoria :"Ó homem, coloca tudo num PPR ou a prazo!", Mas não,  porca Leonor  de voz esganiçada, não o fiz e sabes o que te disse entre dentes sem tu ouvires? " Coloco o caralho!" Como se tu não soubesses da crise que percorre os mercados neste momento em que as taxas mais simpáticas de juro andam no um por cento bruto. Que podes saber tu, ignóbil Leonor de taxas de juro? Que podes saber tu da vida, sempre a retoque dos cheque que trazia para casa, ou da mesada do teu pai que te continuava a enviar secretamente. Sim, julgas que não sei dos envelopes que te entregava amiúde, como se eu fosse um traste de um empecilho que não te desse de comer ou que zelasse pelas vacinas dos putos e médicos e o catano... Ah, mas e se o o teu pai soubesse que abrias os envelopes na casa de banho, com a água quente a correr ( que era eu que a pagava!), para os espetares na tua Igreja de coração de Cristo, ou lá o que era que o pároco ( não, nessa seita do caraças eles têm outro nome...Bispo? Não sei, nunca prestei atenção) todas as sextas te visitava entre chá de menta e torradas ávido pela pequena contribuição para a causa comum.
Podes por favor, tonta Leonor avisar o teu paizinho que a merda dos cheques que te passava dos quais apenas via envelopes rasgados no balde do lixo por baixo do lavatório não foram utilizados na nossa causa comum, mas nos bolsos de um pároco qualquer! Por falar nisso, será que se eu abandonar a Igreja, por justa causa devido incumprimento dos teus votos matrimoniais no altar serei  ressarcido de metade de qualquer coisa?
Tomei um duche quente, bem sabes o que eu faço no duche...Começo na cabeça, com o belo shampoo que a tua amiga farmacêutica recomendou para a minha calvice, desço para os ombros e peito com aquele gel de banho de fragrâncias do bosque ( seja lá isso o que for) que me solicitaste vezes sem conta que o comprasse, ensaboo bem em movimentos circulares e passo a água do chuveiro, repetindo a operação nas costas. para a cara, sovacos e partes baixas uso o sabonete Palmolive  ( já que sou o único em casa que o usa, recorro à combinação mais pacífica...Pénis, cú , sovacos  e cara) e presto atenção aos pés ( sabias que 98 por cento dos homens não lava os pés no duche? Provavelmente o orangotango que te levou não se lava assim...) e cheiroso, quente e lavado regresso à cama, ao corpo sonolento da Maria a quem castigarei por ter ido a correr ao multibanco. Parece que de facto a Maria é bálsamo para os meus pecados.
Maria doce Maria de mamilos empinados como a torre Eiffel, sobranceira dama que dorme na minha cama no teu ex-lugar de culto, prostração e devoção a anos de ócio a que alguém chamou matrimónio. Maria, nua Maria em meus braços acarinhada, em minha boca saciada e nos meus lençóis encharcada. Monto-te pela sexta vez esta noite, indiferente a qualquer queixume da tua parte. Despertaste o meu "animal" escondido, aprisionado anos a fio no bolor da circunstância, da indiferença, da falta de vontade da pouca tesão.
Quem me dera que tudo agora fosse diferente. Que tivesse menos dez anos para usufruir do teu corpo com a referência que tal calor me permite. Quem me dera não ter perdido uma vida aprisionado a um emprego enfadonho, a um matrimónio cada vez mais rotineiro e previsível e a uma só vagina que já não palpitava quando a tocava, nem chorava em lágrimas de mel quando te penetrava. Afinal aquilo seria coisa de minutos...
Os filhos, as cólicas desesperadas, as noites acordadas, o biberom noite após noite em pijama no frio da cozinha a altas horas da madrugada e tudo para quê? Para os ver partirem para a sua vidinha, perdidos nos seus sonhos de futuro? Para te ver melancólica a preparar um jantar de fim de semana só para nós dois. Uma refeição sem pimenta, sem sabor, sem aventura, sem paladar.
Mordo obstinadamente o mamilo esquerdo dela e constato querida ex-esposa que nada sei dela. Não sei se este mamilo deu de mamar a alguma criança, não sei se esta barriga carregou qualquer diabo durante nove meses e muito menos sei se esta vagina teve penetrações regulares, talvez secretas recheadas de aventuras ou se só dos dedos a visitaram em noites de tédio.
Quem és tu Maria que nem o teu apelido sei. Que anjo louco te atirou para a minha frente? Seria Destino esta loucura de usufruir de um corpo a meu belo prazer sem remorso, sem o constrangimento do dia seguinte? De que paraíso desconhecido vieste tu?
De repente tu abriste os dois olhos, apanhada de surpresa pela ejaculação suprema e instantânea de lava quente que te cobriu a barriga e num movimento redutor abriste um enorme sorriso, lançando os teus finos braços ao meu pescoço como se o que acabasse de fazer fosse de certa forma um tributo à tua pessoa, a nós e a esta noite. Como se secretamente visses nesta minha loucura actual o teu caminho, o nosso caminho, a estrada de metal que nos guiará doravante na nossa inquietude de  não nos ralarmos com nada.
E de repente fiquei a pensar isso mesmo. Não me ralarei doravante com absolutamente nada! A vida é curta demais para a usufruirmos na sua plenitude. A vida é curta demais para perdermos tempo com máscaras, empregos, a vida dos outros e outros torresmos que nos dão a mastigar na pausa robótica da monotonia perversa desta coisa intragável chamada sociedade.
Olho o rosto dela, uma última vez de relance, deleitada na cama que outrora deixava para ela fazer, sento-me no peito dela e dou-lhe a provar o meu "toco de vela", o pedaço que carne que se esvaiu no ventre abençoado por mim, numa prova de degustação instantânea antes de me quedar morto de cansaço e finalmente sentindo os olhos a rebentarem de sono.
Remeti a minha mente para um último suspiro, um último pensamento de forma a matar aquele estranho momento:
Porque nunca tive um cão? Merda, tenho mesmo de ter um cão...









terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Lápide- Capítulo 6






Um dia a morte vencerá pelo cansaço
e eu vou olha-la nos olhos, perdoá-la e abraça-la!
Dir-lhe-ei ao ouvido que o amor não guarda rancor de ninguém
e tornarei a sua missão mais fácil, dar-lhe-ei a mão
e respirarei uma ultima vez sabendo que não guardo remorsos de nada.

Inês Dunas : Lápide


A DURA METADE

O compasso do passo do tempo perdido nesses anos de vida a dois que agora quero esquecer ainda me assombra na alvorada de um novo dia como o sibilar de uma cobra atormentando-me alma e a mente.
Passei secretamente da vontade louca de profanar a tua lembrança, invadir os teus sítios de culto que tinhas como mais sagrados na nossa "santa"casa, só para puro deleite do que outrora a tua presença significava, para um desnorte de prazer lascivo, repetindo à exaustão algo que deixara e dizer : Eu!EU!EUUU!. Não há mais nós ou tu. Apenas eu, apenas as minhas coisas, os meus desejos e os meus prazeres.
Consequentemente, lamento informar vossa excelência dona oferecida, saltadora de colos de homem e usurpadora de dores alheias que hoje não irei de novo trabalhar, nem amanhã e talvez nem depois pois me encontro retido nesta vontade louca de nada de útil fazer. Os ponteiros do tempo pararam, sei que é noite ou dia, sei se chove ou está sol, olhando pela janela e isso me basta. Não me quero, não me proponho, nem me esforço para o que quer que seja. Talvez já seja espectro amaldiçoado, ou qualquer figura construída de fumo, a dissipar-se lentamente pelas brisas das nossas memórias, desfeitas num sopro de sonolência e inquietação.
Após a tua partida, parva Leonor este castelo ficou nas mãos do meu caos ou da minha inércia, ou do meu desalento ou deste meu louco intento de querer à força cega te esquecer. Sem a tua presença rígida prezada minha ex-rainha severa,  tudo acontece devagar, como um plano lento de Frederico Fellini, um plano de dor e esquecimento, a preto e branco como deveriam ser as minhas memórias. Aqui para nós, deixa-me te confidenciar que a casa reagiu melhor que eu. Ficou tal como a deixas-te à espera do teu regresso. Acaso pensarias tu que a minha atitude seria idêntica? Pensarias tu, na tua mente de galinha, que após a tua partida repentina com um lembrete atirado para cima da mesa, eu faria a minha vida normal, sempre a mesma rotina a que me habituaste, dia após dia, e mais outro dia, em facadas imaginárias consecutivas?Não. Aposto que agora, neste preciso momento estás deitada de costas na tua cama, com o lençol branco imaculado a tapar-te o peito, enquanto vomitas um chorrilho de mentiras e/ou desculpas ao nosso filho mais velho, solicitando compreensão. Acontece estranha Leonor que eu não sei ainda o que poderei fazer ou se valerá a pena fazer o que quer que seja. Sei que te aconselhas-te, que te muniste do parecer de um qualquer advogado e só te resta capitalizar lágrimas de crocodilo nos ombros de quem devias dar o exemplo. Já eu, fui ao tapete por K.O. técnico, perdi-me na solidão da casa e entre as pernas da Maria, sou peixe de aquário às voltas sem me recordar do que acabei de fazer.
E este inverno gelado que não me larga os ossos e este inferno tortuoso  de ser dispensado da qualidade de marido, companheiro e confidente. Há quanto tempo não nos falamos? Não, digo falar de nós, dos nossos medos, dos nossos anseios, das nossas crenças. Há quanto tempo não vamos sozinhos ao cinema, jantar fora, pagar uma noite num hotel ou uma tarde só para...Há já muitos anos!
Esqueci por completo o teu filme favorito...Já não me recorda o nome, sei que era um desses filmes românticos baseados num livro desses escritores que desbobinam sentimentos em páginas como quem corta a carne no talho. E o teu prato favorito? Já não tenho a certeza qual seria. Esqueci-me! 
Vês tu saudosa coisa que ocupava a minha cama, que me esqueci! Como posso eu ter conseguido me esquecer disso e não conseguir te esquecer agora? A dor de ter falhado é uma merda.
Sinto o corpo quente da Maria ao meu lado, enquanto estou sentado às escuras na cama. Sim, ela já ocupa o teu lado da cama. Sei o que estás agora a pensar...Rainha Morta cama disposta...Não, não é a mesma coisa. A tua presença nesta cama, ao meu lado foi abençoada por deus nosso senhor, na igreja no momento do sim. Esta Maria foi abençoada pela minha loucura em tudo diferente e no entanto em tudo igual. Descubro agora que sei tanto dela como sei de ti e isso aflige-me ainda mais.
Sei que ela geme, berra, morde e me bate. Sei que ela se escorre nos meus dedos e no meu sexo como uma adolescente endiabrada e sei que ela gosta de sexo bruto, forte e insano e agrada-me ter conseguido a energia apara tão louca dança, já tu do que gostas mesmo? Não sei, sempre o fizemos uma vez por semana no tédio do tem que ser ou do vamos lá ver se ele levanta todo. Não te ouvi ais ou uis, não te vi corar ou gemer perdidamente, nem tão pouco te vi o rosto após a "dança". O que vi foi a tua pressa em subir as calças de pijama, o puxar do lençol e o virar costas enquanto eu me esforçava por recuperar as minhas calças no fundo da cama.
Será que se eu te tivesse violado na cozinha, se eu te tivesse aberto as pernas à força e tivesse penetrado a tua vagina com toda a minha fúria animal tu desistirias de me abandonar?
Não me lembro de ter feito contigo, metade da loucura que fiz com esta estranha Maria durante esta noite. Por fim ela adormeceu mas eu não consigo. Quando foi a última vez que fizemos anal? Sei lá, isto é tão digno de macho parvo, achar que tudo se resolveria com uma queca ou duas ou três. Pensar que poderias mudar de ideias apenas porque te violei, não só é parvo como demonstra o estado animal a que cheguei. Sabes Leonor, se me ouvisse agora acho que também eu me abandonaria. Retalhava-me aos bocados e quedava-me numa valeta qualquer esperando que cães ou ratos me comessem.
Oxalá fosse primavera e não inverno....Oh Leonor, lembras-te daquela tarde de primavera, a nossa primeira primavera enquanto casados em que regressávamos da casa dos Batistas, (Esses trastes armados em gente fina) e riamos da falta de cultura do Armandinho  ao confundir Moliére com a personagem do livro "o que diz molero" a obra magnífica de Dinis Machado logo após o 25 de Abril, transformado numa peça de teatro medíocre que tivemos o infortúnio de ver. " Pois têm de vir ver, afinal Moliére e o teatro tem tudo a ver. O que diz Moliére deve ser interessante!". Tu de vestido azul, no carro a meu lado sentada. O semáforo vermelho, a minha mão na tua perna e o teu convite, mostrando-me o que querias numa abertura de pernas em V convidando-me a explorar, a subir a mão e o semáforo ainda vermelho. Lembras-te da tua mão a apertar-me o sexo por cima das calças, os teus dedos a soltarem-no e a tua boca a usá-lo? Lembras-te da expressão da minha cara quando descobrimos no dia seguinte as manchas do crime no assento e tablier...Pois, o trabalho que aquilo deu para limpar.
Maria acorda por uns minutos, procura-me na cama com a mão esquerda, beija-me o peito nu e volta a adormecer. Ocorre-me fazer-lhe festas no cabelo, dizer algo baixinho ao ouvido dela. Talvez até lhe retribua os beijos, acompanhados de um sorriso franco e aberto mas não estou para isso. Sentir a tua falta numa cama já ocupada e ocupar a minha mente com estas palavras que  nunca lerás e que no entanto eu me esforço tanto para as dizer só significa que este luto não passa e se nem com sexo eu te esqueço então mais vale matar-te de vez!
Não literalmente que já estou velho para ser um psicopata assassino doido da cabeça ( e seria tão fácil alegar insanidade do momento, quem sabe em dois anos estava cá fora), mas matar este misto de raiva e dó de mim e só o consigo se fizer exactamente o oposto daquilo que esperavas que fizesse. Sei que esperas luta da minha parte, sei que tentas antever os meus passos e esperas que eu vá a correr ao teu advogado, (Qual era mesmo o nome do crápula? Eu sei lá, eles são todos iguais), ou esperas que vá todos os dias trabalhar, desabafar com colegas e patrão, pedindo opiniões, solicitando ajuda. Mas não, não vou fazer nada disso.
Saio da cama apressado e motivado com esta ideia. Esta nova ideia de ser eu, de me renovar. Claro, como poderia ter sido tão parvo?.
Visto-me a pressa ( não ligues à conjugação de cores ) e saio para a rua. Pela primeira vez desde que me deixaste que saio à rua. Desço apressadamente a rua e consulto mostrador digital do relógio da farmácia da esquina. São quatro da manhã, não chove mas faz um frio de morrer. Tiro atabalhoadamente a carteira do  bolso do meu casaco e coloco à pressa o cartão multibanco da nossa conta no ATM, demora imenso tempo até conseguir seleccionar no visor o pedido de saldo e solto uma risada histérica em pleno frio nocturno.
Tu minha cara cabra Leonor tiraste exactamente metade do dinheiro que tínhamos na conta, em três operações de ATM ( mas porque te dei eu o visa desta conta?), deixando-me o conforto da minha metade. A dura metade. A metade que já não te interessa, que já não te pertence. E agora vais serrar a casa e o carro ao meio também? E os filhos? Também os serrarás ao meio, enviando-me a outra metade pelos CTT? 
Pois então é exactamente isto que esperas de mim. Que seja uma metade gasta, uma metade parva e obsoleta de um todo que um dia deixou de ser suficiente para ti. Parva Leonor, eu não serei metade de nada, mas sim um monte de pequenas merdas que viverá cada dia diferente do até aqui. Não posso, como deves perceber continuar a viver naquela casa, nem tão pouco voltar aos sinistros corredores do escritório, sentar-me à minha secretária repleta de fotos nossas. Não!
Não sei o que vou fazer ou quem vou ser daqui para a frente, mas sei que aos poucos deixarás de estar presente e então eu me irei rir disto tudo e viverei o tempo que me resta feliz no meu canto.