quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Lápide- Capítulo 12








A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida."

  Vinicius de Morais



Lambe-me o sal do suor inglório
Chupa-me as lágrimas de derrotas vertidas
E ergue-me ao colo, em promessas sentidas
Carpe Diem no resto dos nossos dias

Loucura de risos suspeitos
e beijos a despeito...
em tapetes de jasmim cuspido.

E de tudo o mais

Que ao corpo faça bom proveito!





O CONFRONTO




Sabes Maria gosto do cheiro com que me brindas todas as manhã. Gosto de te sentir ao meu lado, o te corpo quente, a tua pele macia mas com as marcas de idade, as imperfeições na tua barriga de pneuzinho a surgir. Gosto do teu respirar ao meu ouvido, como melodia de Led Zepellin e amo as tuas mãos na minha cara, no meu pescoço, no meu peito. Derreto-me sobretudo quando as metes por baixo da camisa de pijama e sinto os teus dedos a brincarem com os pelos do meu peito. Maria doce Maria. Sabes Maria gosto do cheiro com que me brindas todas as manhã.  Enquanto passo as costas das mãos na tua face sempre tão serena, sempre tão brilhante e fico a ver-te caminhar pelo chão do quarto, coo uma deusa, a minha deusa Maria doce Maria! 
Uma amiga minha disse uma vez que o amor era um relógio de cuco cansado e de certa forma ri ante a analogia deliciosa de algo tão efémero que nos pula cá dentro, como o brinde preferido numa caixa de cereais, ou o super brinquedo num Kinder surpresa. Se o coração é a máquina do corpo humano, então a nível sentimental o meu deixou de ser Ferrari, para ser um amontoado de peças de lata velha agrupado, como atraído por um íman do desastre, do caos e do desespero. Achamos na nossa soberania empírica de donos das coisas que a felicidade é um direito adquirido à nascença, que é naturalmente nossa por direito e que tolo é aquele que se recusa a ser feliz. Temos mesmo o direito de sermos felizes ou será antes um dever que nos é delegado à nascença por uma entidade cósmica e maliciosa crente que vai surgir despiste a qualquer momento?
No fundo tratamos o amor como uma pastilha elástica de mentol que cuspimos no chão do desprezo assim que o açúcar e o paladar acaba e o nosso palato fica farto daquilo. 
Na  verdade nunca estamos satisfeitos, porque para nós homens a satisfação conseguida e atingida traz o fim das conquistas e dos prazeres surdos e secretos. Com o passar dos tempos, trocamos a paixão, essa loucura de viver,  por regras de convivência perdendo a genialidade de sermos capazes de surpreender, de sermos o rei no nosso quintal e o bobo da corte nos momentos intensos. 
A Terra deixa então de ser aquela bola colorida que gira e gira, cheia de seres mágicos e quase mitológicos para passar a ser plana, um visor de GPS 3D na rotina da vida.
Cada vez me convenço mais que os homens Lusos são efectivamente Apostólicos Romanos, pois tal como os Romanos  na antiguidade acreditam em várias deusas e ocupam a mente com bacanais romanos, enquanto aguardam com algum receio o surgimento do mesias e seus apóstolos para voltarem a colocar os elmos e lutarem por aquilo que os apóstolos lhes dizem que vale a pena lutar...Até que o enfado regresse.
E depois temos o sacana do Destino sempre disposto a aprontar das suas. No momento em que já declamava mentalmente o meu amor por Maria, eis que me volta a mente ainda a tua presença estúpida Laura.
Quis o acaso tonta ex-esposa que a minha heroína de trazer por casa e aconchegada nos lençóis que já foram nossos me recordou, na eminência da aventura que iria começar, que necessitaria de uma mala, uma pequena mala que senhora que se preze não viaja sem bolsa, mala e mochila, nem que fosse só até à localidade mais próxima e assim fui para a chuva, saltimbanco de poças de chuva, sapateando como Fred Astaire sem Ginger Rogers por entre as calçadas molhadas, esperançado em não me espalhar ao comprido. Agora mais do que nunca, nada me poderia suceder mas tinha que correr e correr. Enerva-me estes últimos pormenores que têm de ser resolvidos quando tudo o que queria era estar a arrepiar caminho.
Lembrei-me da loja ao fundo da avenida onde tu estúpida criatura compraste as malas para o Erasmos do puto e aqui estava eu de carteira em punho, a sacrificar mais alguns euros em coisa desnecessária, que por mim se atirava a roupa para a mala do carro e ala que se faz tarde.
Foi quando te vi no centro da loja, caminhavas serena e de sorriso rasgado, de calças de ganga e camisola de gola alta e aquelas botas de cano alto imensas que sempre fazias questão de usar, mastelando o nosso soalho como uma festarola de trovões, ias de braço dado com ele, o infeliz canalha que te levou, que te arrancou dos meus braços e da nossa casa. Tremi, não sei se da raiva de te ver a sorrir ou se foi do ar de feliz do canalha, qual pescador regressado do mar com o maior caviar do mundo nos braços. Temi, naqueles segundos seguintes fazer uma cena, erguer as minhas penas de pavão e cantar de galo guerreiro ou investir de cabeça como um touro, agora que tu estúpida ex-esposa me adornaste a testa, sobre a pobre criatura, mas ao invés disso contemplei o meu rosto no vidro da porta da loja e notei que sorria. Não se pode enganar a alma.
Dei por mim a rodar os calcanhares e caminhar serenamente na tua presença, lançar-te o meu mais sincero e feliz sorriso e tu que tremias e hesitavas, como se buscasses as palavras que a tua boca escondia na língua que te travava. Este é o Jean Paul, não sei se conheces, chefe de cozinha, como? Ah sim, conheci-o no workshop de culinária vegetariana. Lembras-te? Sim, aquele mesmo em que fiz questão que tu viesses e tu disseste que eras carnívoro...Sussurraste tu com medo não sei de quê! E pois sim, que cumprimentei o encolhido Paul de mão flácida ante o meu vigor e a súbita vontade de lhe dar um beijo na face, não só por me ter permitido descobrir a Maria e um novo recomeço ou por ao estilo mafioso Chicago anos 30, ser o beijo de despedida do padrinho, uma espécie de prenúncio de morte. Na verdade, pensei eu meio divertido, não o queria marcar de morte ou a fazer qualquer ameaça velada pois já me bastava o sossego de saber que após a primavera da relação deles e quando as andorinhas retornarem para outro calor, o inverno virá e ele verá a companheira com o mesmo enfado que eu a vi. Ou será que o Jean Paul chefe de cuizine vegetariano se apaixonará por outra febra?
Perdi vinte minutos a falar com o cada vez mais encolhido mestre das beringelas e afins, enquanto observava deliciado o teu ar de estupefacção. Saboreei cada minuto do nosso encontro que ainda perdido no éter do teu desconforto, vos arrastei para um café rápido e fiz todo o meu circo de prazer e risos e sorrisos, mas desta vez genuínos que me saiam sem esforço. Observei durante a conversa, as coisas que deixaste no WC esquecidas e confidenciei-te ter usado a tua camisa de dormir para limpar as manchas de whiskey que havia entornado nos primeiros dias. Pedi desculpa por ter deitado ao lixo a tua escova de dentes. Tu espantada não falavas, rias num misto de receio que tivesse enlouquecido ou só a ser cínico sem te dares conta que estava apenas a expurgar o que restava de ti no meu ser. Sim, defunta Leonor, menti ao afirmar que mudara a fechadura mas que daí a dois dias te deixaria a chave debaixo do tapete pois iria viajar e voltaria dentro de poucos meses. E os anos do nosso filho? Perguntas-te tu ainda atarantada. Ele que os festejasse numa party de arromba com stripers e tudo, mas infelizmente não iria estar contactável. Aliás já não estaria mais disponível, avancei eu de pronto enquanto fazia questão de pagar aqueles dois míseros cafés e o teu descafeinado. Assim que saísse da porta do café, que ela me desculpasse mas deixaria de estar contactável. Como? Não já não usava o mesmo número de telemóvel, nem tão pouco usava telemóvel, mas com certeza o destino se encarregaria de promover tão doce encontro nos próximos anos. Em despedida , mesmo segundos antes de te voltar as costas para sempre te falei da Maria, a Maria convertida ao meu catolicismo na igreja dos meus últimos dias.
E regressei a um lar que já foi nosso, sem mala para amostra, mas com uma vontade enorme de ser feliz.

















sábado, 3 de fevereiro de 2018

Lápide- Capítulo 11






Sabes-me ao sal de todas as lágrimas,
porque afinal,
só o coração que ama sofre o suficiente para viver intensamente
um amor de cada vez...

http://librisscriptaest.blogspot.pt/2013/08/




PARA TI MARIA!


És carne, és osso, és sangue, és vida! A minha vida e eu sou o teu Dexter amador, sem grande espalhafato e sem técnicas de cinema. Sou o  bisturi encantado, amador, improvisado, dissecando o teu corpo, morto de prazer e de amor, cortando cada pedaço de ti, às fatias finas, abrindo pequenos cortes milimétricos, embebedando-me no teu sangue, sorvendo-o como parte de mim, separando as vísceras, afastando os órgãos, não sem antes os beijar e lamber e provar, como alimento vital e coloco-os a meu lado, para que os possa olhar, admirar, venerar...Altar de tudo e de nada.

Depois mergulho no que resta de ti, num mergulho olímpico de prancha imaginária, de braços bem juntos e hirtos com as palmas das mãos bem unidas, para poder aprisionar nelas a tua alma, impedi-la de a fugir, de a perder.
Porque tu, doce Maria dos meus mais secretos desejos, mulher de tentação e perversão despertas isto em mim, colocas nas minhas mãos o teu/nosso futuro, que o presente escorre em sangue nas minhas mãos e o passado, esse período visceral será para o balde dos desperdícios, do esquecimento, do intemporal, do vazio mental. Já não o uso e já não o quero, nem como memórias. Para ti e para mim a partir de hoje sofro de Alzheimer, só me recordo de ti, de nós , do teu corpo quente, das covinhas na tua face quando te ris, do teu arquear de sobrancelha quando te surpreendo...ó como eu nunca tinha visto isso e do meu sexo quente, como chicote nos teus seios, na tua boca, em todos os destinos que a carne e a tesão consentem.
Sou para ti apenas uma foda? Gemeste tu na noite passada, encharcada em meu sémen, com aparência de violentada na nossa cama sagrada. Não, doce corpo de pecado, luz ao fundo do túnel de minha vida, chama da minha glória terrena. Não és foda, és um conjunto de fodas eternas que daremos em suaves prestações diárias, como pagamento ou cumplicidade das prestações ao minuto deste nosso acordo sagrado. Creio, deusa de seios fartos e de mamilos pontiagudos que és mais carne que razão, a minha que foi perdida. que foi fodida por um passado certinho. És a alegria do meu ser animal, que se banqueteia como lobo solitário de dentes curtos e afiados, que te rasga e te devora, até mesmo com o olhar.
Mas também és a estátua de fecundidade, de cabeça de golfe com buracos, seios fartos e pneuzinho que agarro e mordo, minha Vénus de Willendorf, ou imagem de Virgem imaculada de alma serena e luz angelical. És tudo e não sou nada, seremos apenas e se fores uma foda e eu o martelo da arrogância que te toma à noite só porque este meu lado de lobo te chama, antes sejas meu alimento que virgem em desespero de não me ter. Sei lá, somos e seremos...
Não me respondeste à pergunta! Remataste tu, de lábios desenhados no meu peito e se calhar até te respondi, não sei. O que importa é o agora e ambos estamos precisando disto. Menti-te à laia de esconder dos teus ouvidos o meu plano maior, o meu fim de nada e principio de tudo, que guardei para nós.Porque cara paixão eterna,o amor é agora, é já e não se fala mais nisso nem se perde tempo. O amor é um pássaro livre, que aprendeu a fugir do seu cativeiro pelos seus próprios meios, batendo as asas de anjo num piar sonoro de triunfo sob a melancolia do desespero do silêncio dos anos passados em pó de candelabro velho e móveis rangentes.
A paixão é uma esponja de banho, molhada e esponjosa que percorrerá com a devida espuma todas as curvas do teu corpo, adivinhando-lhe as zonas sensíveis, limpando as feridas da minha brutalidade fogosa, removendo as minhas, nossas acções mais impiedosas talvez abrindo caminho para outras mais, num creme hidratante que durará a eternidade e eu serei ou pretendo ser a brisa de vento de verão que te secará e te prepará para a eternidade que nos espera.
Doce e querida Maria, flor de meu desejo, carne de minha tentação e semente do meu mais recente e  promíscuo desespero, contigo tal como o amor, não tenho idade, não tenho passado, não tenho ilusões, não tenho sermões só doces e lânguidas tentações.
És a razão da batida célere do coração no meu peito, do pulsar quente e frenético do sangue nas minhas veias, razão do meu desembaraço tão embaraçado que estava.
Gosto quando te encosto á parede, quando te apanho de surpresa e de meter a minha mão dentro do teu vestido, apalpando-te, brincando com teu mamilo, preferencialmente o esquerdo e deslizá-lo pelos meus três dedos da mão esquerda, num escorregar e dedilhar de improviso, assim como os beijos que os descarrego no teu pescoço, forçando-te a olhares para o outro lado, na secreta esperança de ainda te surpreender, como se houvesse carícia ou provocação minha que ainda não conhecesses.
Amo-te, porra como te amo! Amar, minha deusa de colo sagrado  amar intensamente cada palavra que sai e sairá dos teus lábios,  cada olhar transviado e carregado de desejo que me darás, pão nosso de sustento de mim e da minha alma empedernida que estava num passado de meias frases e ausência de beijos. E ó como são doces os teus lábios, carregados de esperança e tesão, de língua sibilante e tortuosa que me encharca a boca, a mente e  que se enrosca na minha língua como jovens apaixonados num banco do jardim, que me explora em lambidelas quentes o meu pescoço, o meu peito, a minha carne em suspenso, pedaço de mim hirto que tão bem o trata e o colhe na boca num vai e vem de ternura e capricho.
Agora a nossa vida é essa estrada linda, larga e límpida de quilómetros de prazer, sem curvas ou sinais de perigo. De bermas floridas, com árvores de frutos proibidos e jasmins perfumados que se curvariam ante a nossa passagem. És minha, sou teu somos nós, os dois e apenas os dois de mãos dadas num raio de sol chamado de eternidade, minha sinfonia esquecida de Mozart, dedilhada em finas teclas brancas de marfim, tão brancas como os lençóis dos meus, nossos sonhos mais molhados.
Eu não soube viver, não tive arte ou engenho para crescer, não evitei o amadurecer.Outrora era um sujeito inútil, zombie sem vida,
 enfiado num fato pardo como a minha vida, sempre a correr para o trabalho ( e para quê, se ele não fugia? Se ele continuaria ali pelo menos o dia todo) e de volta a casa em passo acelerado e de novo pergunto para quê? Sem filhos à espera, sem fogo na cama que me movesse, sem picante à hora da refeição....Para quê?
Todos os humanos são assim creio. Sempre cheios de pressa, sempre cheios de vontade de ir para qualquer lado. Aquela mãe que sai do trabalho para ir buscar os filhos à escola e vai a voar para casa, para lhes fazer o jantar ( sim, não vai brincar com eles, nem perguntar-lhes como foi o dia, nem se eram felizes) e depois do jantar o banho a correr ( modalidade maternal quase olímpica), o pijama em contra-relógio e cama antes que o petiz se lembre da birrinha. E então estafada que está, olha a loiça suja amontoada e chora por dentro, um choro invisível, que se vai amontoando até transbordar e nessa altura o petiz está na faculdade e já não tem tempo...E nós homens de barba rija o que fazemos? Um olhar de relance ao rabo da colega do escritório, a corrida desenfreada para o carro, o trânsito, as filas, os cigarros, o tamborilar dos dedos no volante, o irresistível sorrisinho à condutora do carro ao lado, ou a pesca dos macacos do nariz(igualmente modalidade masculina quase olímpica, seguida preferencialmente pelas quatrocentos e vinte e sete coçadelas às partes baixas, sob as calças) e para quê? Para chegar em casa, ver a criatura a aclamar as criaturinhas, ligar a TV, descalçar os sapatos e contar mentalmente os minutos até ao jantar, onde será dito algo entre amuos e muitos acenos de cabeça, sempre de olho nos petizes com medo de uma birra de circunstância.
Mas é pior os que não têm carro, que se oferecem como cobaias para serem colocadas num comboio apinhado de gente igual a nós, com o mesmo desejo de sobreviver e que vai ali a pensar na vidinha (como se de facto a tivessem ou a controlassem). Homens como eu rezando para que à sua frente fosse uma miúda, já que provavelmente seria o único encosto que teriam com  o sexo feminino nessa semana.
Agora eu sei que errei, que estava errado que fui apunhalado pela minha cúmplice deste crime de sobreviver. Paz à sua alma!  Agora eu vivo, estou vivo e respiro felicidade e energia em cada poro do meu corpo. Agora estou livre, já quase não tenho amarras e isso mesmo te tento explicar doce Maria, enquanto os meus passos desenham círculos imperfeitos no tapete da sala. De dedo no ar como professor de antigamente, eu o senhor sabichão, eu o verdadeiro profeta da nossa salvação, da nossa luz, renascido do fundo do mar negro do meu passado. Agora que te tenho ao meu lado, agora que realmente sou teu de devoção e coração volto a ter uma razão para tudo, para ser tudo, para fazer tudo.
Expliquei-te talvez um pouco nervosamente os meus planos com uma minúcia que até a mim me surpreendeu e adivinhava a surpresa na tua cara. Não te contei tudo obviamente, mas a parte de tudo que também era tua.
Tu rias e dizias que não, que por favor tivesse juízo, mas sabias tão bem quanto eu que juízo era coisa que recusava ter. Afinal o plano era perfeito e só o era perfeito porque era para ti. Abandonaríamos tudo, aquilo tudo excepto o carro. Mudaria de nome no cartão de cidadão se preciso for para que nos deixassem em paz e assim passaria a ser" Servo de Maria" ou "Para Ti Maria"!
Seguiríamos à aventura, sem remorsos, medos ou hesitações. Logo se veria, menti eu que tinha uma nobre intenção escondida, para onde e por quanto tempo.
Seriamos como dois adolescentes num inter-raill do destino sem bilhete de volta, dois adolescentes em corpos quebrados pela idade a aprender de uma vez por todas que todos os segundos que respiramos são uma benesse divina e acredita paixão da minha alma, já perdemos muitos segundos cuspidos de enfado.
Partiríamos pois e não se falou mais disso, a luz apagou-se, as minhas calças abriram-se e a tua mão o procurou entre risos.




terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Lápide- Capítulo 10


A esperança é a extinção para que a vida prevaleça,
talvez cresça melhor desta vez,
talvez aprenda a pertencer em vez de reinar,
talvez aprenda a Amar em vez de vencer,
talvez aprenda a viver, em vez de matar...

http://librisscriptaest.blogspot.pt




NATAL É QUANDO O HOMEM QUER...
( SE ELA O PERMITIR!)



Como se recomeça uma vida quase aos cinquenta anos? Simples... Acreditando em coisas boas que já temos e traçando planos para tudo aquilo que queremos realmente fazer ou melhor ainda que queríamos ter feito. É um arrepiar caminho, um ala -que-se -faz-tarde, antes que qualquer coisa de impeditivo suceda.
Nunca soube fazer um nó de gravata, por mais tutoriais que tenha visto no Youtube, essa era a única tarefa que tu. prezada minha defunta  ex-esposa, (que o palhaço dela o tenha em santo cativeiro), que ma deixava pronta a usar na noite anterior. Dessa armadilha estou livre, do after-shave que tu tanto gostavas também e do armário tiro a roupa de fim de semana. Melhor, talvez use fato de treino só para mostrar ao mundo que ainda sou moço para umas corridas ou golpes de ginástica.
Os recomeços deveriam ser sempre assim, confusos e precipitados como a primeira relação sexual, mas o importante é ter um plano, ou um esboço, ter um novo querer, um forte acreditar que é possível mudar. Mudar tudo, ou deixar ficar o que não é relevante ou interessante, o que já não me serve ou não me motiva, o que já não tem conserto ou intento.
Dormi apenas umas horas, poucas dado que a garrafa de vinho me motivou a novas conquistas e apesar da doce Maria estar a dormir, compreendeu o que aí vinha. Sou tudo o que me motiva, a adrenalina do momento, o doce tormento de fazer só por fazer, pelo prazer, pelo embaraço dela, pelo gemer rouco que me trespassa os ouvidos quando a penetro forte, pela voracidade com que a invado e pela satisfação que ela me demonstra no seu olhar límpido, talvez por me ver maravilhado por poder praticar o sexo anal sem constrangimento, sem me preocupar se é pecado ou o diabo a quatro. Creio ter lido algures que o sexo anal é desejo ou pelo menos fetishe da maior parte dos homens e lembro-me de me ter rido com essa parvoíce. Sou religioso e essa história do anal...Bom não me parecia correcto na altura e a última coisa que queria era melindrar a minha jovem e recente esposa com tal despropósito ou que me considerasse um perfeito tarado, um senhor do corpo dela só porque casamos. Não. Havia certas coisas, pensava eu nessa altura que nunca devemos fazer ou experimentar, que devem permanecer no limbo do desejo ou fetishe e apenas lá e não devem ser concretizadas. Como se o fulano que escreveu o Kamasutra tivesse de facto feito todas aquelas posições. Obviamente que não, até porque se o fizéssemos, acreditava eu nessa altura, provavelmente o faríamos mal, (lembras-te do nosso primeiro oral Leonor...que vergonha!) e passava a ser constrangimento e dor e nada de prazer.
Mas Maria fazia o convite, mostrava-me o caminho e incentivava-me a ser nas palavras dela o seu homem , a ser o seu tudo em brasa, o mastro vivo que a castigaria de dor e prazer, em movimentos regulares, a estocada seguinte mais forte que a anterior, os dedos dela nervosos, esfregando o clitóris preparando mentalmente a segunda vaga, abrindo o trilho para um novo caminho, numa alternância de uso de locais, numa rotatividade louca e frenética, vários "sim, não pares...assim...vai!" que me galvanizavam e me tresloucavam a cada segundo numa fúria incontida de prazer.
Contrariamente ao que esperaria, o acordar não foi violento. Pelo contrário foi galvanizante, eléctrico apesar das horas de pecado, enrolado, metido, gozado...acordado.
Sabes cabra coisa ex-esposa, não era para te contar mais nada, mas por ser para ti abro uma excepção. Vou-te relatar o meu dia de hoje, como habitualmente te contava ao fim do dia, não porque mereças, mas porque me dará uma certa alegria imaginar as tuas expressões faciais à medida que te relato.
Ficas já a saber que o meu dínamo da vida estava cheio, o duche acompanhou a vitalidade e em minutos sentado na mesa de cozinha tracei o plano. Curioso como essa mesma mesa mudou e sentenciou o destino, pelo menos o imediato. Curioso como serviu de catapulta para um recomeço "clean". Sorri maliciosamente para a parede branca da cozinha, perspectivando o golpe final, A estocada mortal em tudo o que já não queria, que já não me satisfazia....Pois que morram, porra!
Subi, desviando-me de Maria que descia devagar a escadaria. Deixei-lhe um beijo na testa como prova de cumplicidade, fechei-me no quarto e escolhi o meu melhor fato para um velório. Procurei a gravata mais sóbria, aquela que sempre usava no aniversário do teu pai, desci as escadas e pela primeira vez desde que chegara a casa no fatídico dia em que me abandonaste, abri a minha maleta de couro, separei papeis, bebi mais dois goles de café, lancei novo sorriso, desta vez na direcção de Maria e sem uma palavra abalei para o exterior. Fundi-me num mar de gente, mas não era um deles. Não, já não o era. Ali sentado naquele lugar do comboio já não ia o mesmo homem de dias atrás. Já não me resignava à banalidade. Ali sentado naquele lugar de comboio seguia um homem com uma nova missão e um novo começo de vida.
Tão calmamente quanto a ansiedade me permitiu, entrei na pastelaria mais perto sentei-me à mesa mais distante e isolada que encontrei e fiz três operações breves. Informei o meu patrão que ia a caminho dali, liguei para o teu advogado a informar sua excelência que fosse para o inferno, mandei-te uma linda mensagem de dez linhas, ( sempre mais eficiente que uma folha de papel manuscrita) e saí em direcção à loja de telemóveis onde  comprei um novo cartão Vodafone, atirando o velho para um caixote de lixo, algo bem representativo do que eu pensava do meu passado. Os filhos que ligassem à mãe, que lhe chagassem a cabeça. A partir deste dia já não tenho filhos. Eles já são grandinhos, já têm a sua família e nesta idade já não sou pai, sou apêndice, sou estorvo, sou as duas chamadas por ano ( natal e meu dia de anos). Nunca vi os meus netos, nunca os peguei ao colo. Estavam longe e eu demasiado ocupado na rotina da morte. A avó deles sim, volta e meia pimba lá ia ela com o meu visa a Londres, à Bélgica..." sabem como é o vosso pai, as grandes viagens incomodam-no e ele tem aquele problema de saúde". Ah mas não tenho, graças a Deus diabetes e colesterol nunca tiveram nada de anormal e prezada ex-esposa a minha úlcera que só me doía e me levava à cama nas vésperas das vésperas dessas horríveis viagens, nunca existiu. Sim estúpida Leonor eu inventei essa coisa como defesa. Não pela viagem, mas eu lá queria fazer quilómetros para estar enfiado numa casa qualquer, a ouvir os imensos nadas que saiam dessa tua boca parva sobre o modo como estávamos muito bem, na nossa vidinha, muitos felizes e a ser inundado das imensas diferenças entre Lisboa e o resto e blá,blá,blá  lá é que era bom, lá é que se podia viver e tal e coisa. Como se eu os tivesse criado a migalhas de pão numa barraca qualquer. Como se o País não tivesse proporcionado aos pais daquelas bestas todas as condições para eles tirarem o curso superior e fazerem Erasmos e mestrados e formações. Não! Lá é que era bom, lá é que valorizavam o individuo...Pois claro. Mas até existir o lá, houve um homem que se esfarrapou, que deixou de ter vida própria e que se sacrificou para que estas criaturinhas ganhassem o direito a altos voos.
Sim, sei o que te está a passar nessa tua cabecinha oca, parva ex-esposa, não estou a assumir o papel de coitadinho, até porque o que fiz por eles e o que lutei por eles, foi feito de bom grado e faria tudo de novo sem qualquer hesitação. Mas agora, já fiz a minha parte, já lhes dei o melhor do Mundo e de mim, que arrepiem caminho e me permitam por fim, arrepiar o meu.
Levantei a minha metade, tudo o resto que me deixaste na conta, encerrei a conta, assumindo que não mais seria a "nossa" conta e subi ao escritório, enfrentando de peito aberto os olhares inquisidores e de piedade dos meus colegas. Assumi o meu lado mais dramático e criei um filme de autocomiseração, aqui sim assumindo um papel de coitadinho, explicando que esta nova condição de cornudo não me permitia um rápido regresso ao trabalho e por esse facto que apresentava as minhas desculpas, mas que não me levasse a mal, que o motivo da minha ida àquelas instalações se prendia com a necessidade de enquanto homem honrar os meus compromissos e que lamentava muito, mas não iria regressar mais. Que não! De forma alguma! bradou ele de braços abertos como Cristo saindo da cruz. Que eu tenho amigos ali, que me ajudariam, que...Bolas, será que o palhaço do homem ainda não percebeu que tudo o que eu quero não está, nem estará ali, naquele emprego. Permiti-me o excesso de uma lágrimazinha teatral, um abraço sentido e saí, como um ex-condenado sai... Em liberdade e de paz com o mundo.
Desci apressadamente  a escadaria, e fui ao Galvão Mello, sim estúpida ex-mulher da minha vida, esse mesmo, o meu advogado que tratou da papelada de reclamação para a Nós. Expus a minha situação, expus a tua pretensão, dei particular ênfase ao teu abandono e ao teu saque da tua metade, assinei alguns papeis, garantindo o carro e o resto que fosse queimado, vandalizado, ardido...
Despachados estes formalismos obrigatórios, passei numa loja de roupa, onde geralmente comprava os meus fatos escolhidos por ti, para adquirir umas calças jeans ( aos anos que não usava umas destas), uma camisa e uma camisola, que prontamente levei já vestidos. Entrei na primeira sapataria que vi e adquiri uns Puma lindos, embora algo excêntricos ( imaginas eu de sapatilhas?) e dirigi-me para a estação de comboios. Abandonei o fato que a menina da loja fez questão de guardar num daqueles sacos com fecho, tipo saco de cadáver que víamos à noite nas nossas séries americanas, no primeiro local do WC que vi e saí para o exterior, aguardei a chegada do comboio, entrei e sentei-me com o sorriso estampado no rosto, vendo a minha maleta de couro muito quieta no banco de madeira da paragem. Outro que fique com ele, pois ele já não serve.
E assim prezada coisa que nem quero lembrar o nome resta-me dizer que não mais te quero ver...
Hoje para mim é Natal e este menino Jesus montou num camelo dos reis magos e vai seguir a sua estrela.


(https://www.youtube.com/watch?v=NjKmCxyKmas)