terça-feira, 5 de novembro de 2019

Para Ti ComDor! - capítulo 1





Há quem me esqueça todos os dias, sabias?
o mundo é esta porta que se fecha
e não me deixa respirar,
cansei-me de ficar para trás...

Septicemia...
http://librisscriptaest.blogspot.com/2019/08/clororohexidina.html



PORQUE CAEM AS FOLHAS?


Dizem que a chegada do Outono carrega em si o simbolismo da queda de folhas, que se desprendem das árvores num adeus curto e caiem num canto qualquer ,calcadas, pisadas, cuspidas e gastas por pares de pés apresados e indiferentes. Outras, iludidas, são levadas temporariamente  pelo vento, num bailado inquietante, até terem o mesmo fim. Hoje sou folha, em transição entre o calcamento e o vento que me leva para uma nova saga. Mas ao invés das folhas, já não me iludo, embora queira acreditar que tudo será diferente.
Amadurecimento, dizem entre dentes. Crescer para aprender, crescer para ser grande, crescer para ser livre, crescer para ser adulta, responsável, trabalhar, constituir família, ter filhos, montes deles, um marido, uma casa, um lar...para quê?
Fui tudo isso e não raras vezes, mais do que isso. Fui namorada, esposa, mulher, mãe, confidente, dona-de-casa. Fui colchão, mesa e recreio de escola. Fui o que nunca deveria ter sido e agora sou o que jamais me perdoarei ser. Fui principio, fui meio e sou fim...de um casamento.
Sim, fui casada vinte e três anos de oscilações, zangas, amuos mas também de momentos felizes, de momentos de esperança, de desilusões e de novas sensações.
Tecnicamente ainda sou casada, ou por outra, hoje após redigir a minha alma em duas folhas A4 , já não me considero casada. Tenho as malas prontas e o fim, esse chegou bem cedo, pela madrugada. Não aguento mais. Como poderia?
O Miguel está a fazer Erasmus, ele irá compreender um dia esta minha atitude. Afinal embora continue a ser mãe já não sou " a mãe". Já não necessita da minha supervisão, dos meus conselhos, da minha calma, da minha cumplicidade. Apenas necessita aqui e ali da minha conta bancária e isso posso continuar a ceder. A Marta sendo um ano mais nova, acompanhou este novo processo e de certa forma me incentivou, mas sem nunca imaginar que eu já tinha o plano delineado, precisava apenas de uma aprovação.
Incrível como fica vazia toda uma casa sem filhos. Quando eles partem é como se de certa forma, o nosso papel de progenitores ficasse reduzido a uma mera personagem secundária, quase sem falas no teatro da vida. E esse vazio da casa, ainda com o marido por perto, se torna insuportável.
A solidão é um bicho estranho, um verme que se instala sem supervisão e vai crescendo, ficando mais forte e vai conspurcando tudo e o meu ex-marido ( lá estou eu a falar em Ex e ele ainda não sabe) foi o seu cúmplice, nas palavras que não disse, nos afectos que não mostrou e nas cavalgadas desenfreadas com que me brindava sem autorização. Mas isso talvez tenha sido culpa minha, que nunca o afastei, nunca o repeli ou o censurei. De manhã seria outro dia e eu sabia que monstro alimentado não me traía.
 Conheci o Mário quando ainda estudávamos. Achava piada aqueles olhos castanhos carregados de sonhos e ao jeito tosco de revolucionário que ele achava ser. Tinha na escola a alcunha de " Condor", pois imitava na perfeição o pio da ave. Sendo eu filha de um dos donos do maior banco do país, aquilo me divertia e de certa forma me seduzia. Quando somos jovens, queremos chocar o sistema e o pior sistema é o de casa. Achava que a loucura jovial de Mário iria chocar o poder instituído lá em casa. O meu pai, imperador mor das quatro paredes, iria ficar fulo da vida e a minha mãe, com sorte, iria ficar pasmada com o bad-boy que me comia às escondidas.
Pois sim...Essa parte aconteceu. O meu pai realmente espumava e à minha mãe mostrava distraidamente as marcas de dentes no pescoço e alguns arranhões nas costas,embora hoje saiba que não era tanto pelo intuito de chocar, mas sim para espicaçar os ciúmes da pobre coitada e fazer-lhe ver que eu jovem pita, tinha mais sexo num dia que ela num mês. 
Não deveria ter sido assim e isso é um facto. Não deveria nunca deixar um adeus atirado em duas folhas A4, mas o monstro da desilusão de não o poder encarar. Como poderia eu confirmar algo que até então ele não via?
Eu o esperava no regresso do trabalho, a empregada deixava o jantar já pronto. Esperava-o na sala como uma obrigação e não como um prazer e Mário chegava carrancudo, pensativo, absorto nas coisas dele. Pousava a mala de couro que sempre carregava com ele como se fosse um empresário de sucesso e não um mero agente de seguros. Tirava o sobretudo, o cachecol atirando-os para o sofá, o que me fazia invariavelmente me levantar e os ir arrumar. Tecia considerações sobre o seu dia, ( como se isso fosse de certa forma interessante para mim), íamos para a mesa, aguardávamos que a empregada nos servisse  e ele servia-se de um copo generoso de vinho, continuando a falar de tudo e mais alguma coisa, perante o meu sorriso plastificado.
Aqui e ali durante a conversa, permitia-me que concordasse ou discordasse de uma observação sua. Bem, pelo menos a empregada o devia ouvir. 
Abandonava-mos a mesa depois do café e ficávamos sentados a ver TV...( por vezes os filhos ligavam) e depois eu ia-me deitar..O silêncio, sempre o silêncio.
Um dia, esta folha que ainda não tinha caído abriu os olhos e foi despertada por um raio de sol outonal. Um raio de sol tão quente e atraente e sedutor...Que me senti folha verde e viçosa de novo.
As folhas não deveriam nunca cair para serem pisadas.


quarta-feira, 1 de maio de 2019

Lápide - Capítulo 20 - FINAL-



Os meus dias monótonos de névoas secas
esperam, sem surpresa,  a morte anunciada…
Nunca fiz falta ao mundo, 
mas o mundo dela faz-me falta…

Inês Dunas 




LÁPIDE

Os beijos que constantemente te roubava eram dobrões de ouro dos tempos dos piratas. Aqueles tesouros guardados secretamente em sacos de linho reforçados num baú de madeira, perdido na imensidão do tempo, enterrado no fundo da minha alma sofrida  e no entanto cada novo beijo era diferente do anterior, numa colecção de pequenos recuerdos que amiúde me vinham à boca, como suspiros incontroláveis na força de te amar.
Sabes amor, aprendi muito desde que renasci nos teus braços e mais aprendo agora nesta nova realidade de mim. O tempo, esse vil canalha, passa agora devagar, segundo a segundo e os dias são mortalhas enfermas de dor e solidão em que carrego esta minha alma solitária.
Não me interpretes mal, Cara Mia não são choros ou amuos de infortúnio, apenas constatação da peregrinação dos meus dias.
é certo que durante uns tempos, logo após te perder naquele momento infeliz, que me castiguei, auto-flagelei e berrei como um pobre desalmado. Mentiria, doce criatura dos meus sonhos agora recentes, se dissesse não ter sentido remorsos de te ter largado, de não ter sido capaz, de...Perdão, mas ainda me custa falar disto. No entanto jurei que te poria a par de tudo, que falaria sempre contigo e jamais te esconderia algo, mas que queres? Dói ao recordar esse fatídico dia...
Se bem te recordas, aquela clausura horrível a que chamavas apartamento, algo que pessoalmente e como bem sabes nunca tive em boa conta e nunca gostei dele, seria o teu destino final, o teu sepulcro , o teu e nosso fim. Foi uma boa história...A mim me ensinaste as coisas simples da vida, me mostras-te como é possível amar incondicionalmente alguém e como é possível continuar a amar a memória desse alguém. Contigo, Ma chére me senti de novo útil, amado, querido e sobretudo homem, parceiro e companheiro.
Mas como podia esquecer, arrancar da mente esse dia em que tu, tendo uma consulta agendada no Hospital me pediste que te acompanhasse, ( como se precisasses de o fazer...) pois apesar de ser consulta rotina querias saborear o teu gelado favorito, no miradouro, contemplando o mar, antes de nos fazermos à estrada de regresso ao interior. Gostavas de ver o mar e adoravas colocar a cabeça no meu ombro enquanto te perdias em silêncio em contemplações solitárias, como se eu não estivesse ali, como se de certa forma aquele momento fosse só vosso...O mar e tu, numa partilha de silêncios e onde eu via ondas, tu vias grandeza e onde eu via espuma branca no morrer da onda, tu vias saliva de um beijo que o mar nunca te deu e ali ficávamos, horas em silêncio a repôr a bateria da tua alma e eu não me importava nem um pouco, entretido a fazer cornucópias com o teu cabelo, ou a invadir o teu decote com a mão marota ávida da tua carne.
Para ti a vida sempre foi uma dança, uma Valsa, um Bolero, bolas até mesmo um Tango, e os teus pés tão majestosos e perfeitos, desenhavam no solo os círculos perfeitos. Ah, como devias ter sido bailarina , de saltinhos na ponta dos pés, de movimentos correctos e sincronizados...E nesse dia tudo falhou.
Saímos à pressa, o teu braço no meu, falavas com calma, pausadamente de um sonho horrível que tiveras nessa noite  e eu no meu jeito desengonçado de ser, à procura das chaves do carro, aflito por não as encontrar...Perdoa-me se não estava atento ao que dizias , mas sou homem e como tal sou incapaz de fazer duas ou três coisas ao mesmo tempo e então, não sei muito bem como explicar, estaquei e olhei para a porta de casa. Foram segundos, talvez uns dois minutos, juro-te que não mais que isso. Senti o teu braço a soltar-se do meu, ou teria sido eu a largá-lo, nervoso, levando a mão ao meu bolso, tacteando com a ponta dos dedos o interior à procura das malditas chaves ( onde as teria posto?) e ia dizer-te que esperasses um pouco, levantei os olhos, descias o primeiro degrau...Talvez tenha dito algo, talvez tenha murmurado alguma coisa que te fez rodopiar e girar sobre os calcanhares para me olhares ( bolas, porque sempre prestavas atenção ao que eu dizia?) e de repente a tua mão esticada, o teu grito...Ainda tentei alcançar a tua mão, juro que sim...isso recordo-me bem, estiquei-me todo, desejando prolongar o meu braço, contrariar as leis da física e a forma da anatomia humana ( como nos desenhos que fazia quando era petiz em, que o tamanho dos braços era directamente proporcional ao corpo todo) e segurar-te, puxar-te para mim, mas ao invés disso, permaneci estático a ver o teu corpo  a cair pelas escadas de madeira ( porque eu não reagi? Porque eu não saltei ou corri?), nesses minutos de terror e subitamente tudo parou. O teu corpo, os teus gritos, os meus gritos...silêncio. Um pesado e abafado silêncio mortal a ecoar fortemente audível para todos os anjos e os meus primeiros passos, incrédulo a descer degrau a degrau, muito devagar, como que aguardando que a qualquer momento tu te levantasses, ou te sentasses e ririas de ti, de mim e de nós e dirias alguma piada sobre as minhas mãos de manteiga, gozando com o meu ar de terror...Sei lá, qualquer coisa.
Mas não...Os vizinhos, as pessoas, cabeças e mais cabeças, vozes que cortavam o espaço, o nosso espaço e eu não as ouvia. Não conseguia processar. Todo o meu foco era para ti, as lágrimas a inundarem-me o rosto , a falta de ar, o desespero da tua não-reacção, a poça de sangue e o grito, o meu grito....Perdi-te nesse dia!
 Tudo o resto que se passou, lamento dizer-te Cara Mia não me recordo, alguém falou algo, outros disseram muitas coisas e eu sentado ali ao teu lado a segurar-te na mão. Depois veio mais alguém...Eu acho...que me quis me afastar de ti, como se fosse uma criança mimalha a quem afastam da mãe, mas recusei-me e barafustei e talvez tenha dito um ou outro termo mais rude...Pelo menos eu acho que disse...Até mesmo ao senhor de uniforme azul . Eu sei lá. Sei que te levaram e me arrastaram lá para fora, depois para uma ambulância e perguntavam...Merda, como faziam muitas perguntas e eu encolhia os ombros e tentava te procurar. Volta e meia sacudiam o meu corpo, senhoras de luvas médicas brancas " Está bem?" .Sei lá se estava bem, sei lá se estava tudo bem, sei lá onde estava o teu corpo, o meu amado corpo que aprendera a amar, a beijar e a sentir...Sei lá onde tu estavas.
Não te escondo Cara Mia que se seguiram tempos tenebrosos e para minha surpresa não tratei de nada. Foi o meu filho que fez questão de tratar do teu funeral, das tuas cosias, da burocracia ...Eu já não consegui ir. Não fui te ver, despedir-me de ti, porque na verdade para mim e no meu coração tu nunca partis-te. Ver-te ali deitada serena e de olhos fechados não serias tu, a minha Pitareca, o meu bálsamo de vida. Só lamento, efectivamente só lamento mesmo que a última imagem que tenha de ti, seja a expressão da tua queda, para o abismo das escadas e essa imagem nunca me larga, como castigo da minha impotência, como medalha do meu descuido.
Dizem-me que fiz questão, que na tua ultima morada fosses calçada com os teus sapatos...Talvez tivesse dito efectivamente algo assim, não sei... Mas parece algo que muito acertadamente eu diria e voltava-me para o outro lado da cama do nosso primeiro quarto que partilhamos quando aqui chegamos e voltava a chorar. Sim, preciosa companheira de vida, não mais consegui voltar ao apartamento, mandei vender tudo, varrer tudo da minha vida. Por mim deitava-lhe fogo e deixava arder, mas as obras da petit maison que mandei construir no pomar, no que era o meu pomar (perdoa-me Salvador) estão quase prontas e em breve voltarei a sorrir, ainda que timidamente, mas voltarei a sorrir.
Bem sei que me pedis-te que nunca chorasse por ti ou para ti, mas também sabes que nunca fui de cumprir promessas. Lembras-te quantas vezes tentei deixar de fumar? Amanhã é que era dizia-te eu de ar confiante....Talvez estes dias eu me deixe disso ( Lá estou eu a prometer...).
Passaram-se meses em que vivi literalmente na cama . É duro o período de luto e nessa altura ecos das nossas conversas, das minhas lembranças e o teu rosto a rir ocupavam todo o meu intelecto. Era talvez a forma mais verossímil de acreditar que ainda te tinha, que ainda estavas perto, que ainda te poderia beijar. Mas depois despertava desse estado e via que estava sozinho, perdido, se reacção e que tu não estavas mais comigo e chorava de novo.
Um dia, sei que era quase fim de tarde, o meu puto...Agora já homem entrou no meu quarto sentou-se na cama, acendeu um cigarro e sem qualquer palavra estendeu-me uma caneca de café forte e fumegante. Depois começou lentamente a contar uma história qualquer de um escritor que perdendo o filho mais novo, se enfiara num mundo de autocomiseração e de sofrimento tamanho que quando um irmão deu por ele, tinha perdido não sei quantos quilos, já quase não conseguia nadar de tão atrofiados que os músculos das pernas estavam e que praticamente era um morto-vivo à espera de deixar de respirar. Não sei se era verdade, mas aquilo de repente começou a fazer algum sentido na minha cabeça, mas confiante na minha atenção ele continuou a sua história, pausadamente como que me dando tempo para absorver tudo na sua plenitude ( quantas vezes teria ele ensaiado isto, ou seria improviso?). Falou de como um dia, segundo o próprio escritor, o filho lhe apareceu em sonhos e lhe disse que tudo estava bem , que o pai seguisse a sua vida e que todos os passos que desse fosse em memória dele. Que de certa forma, experimentasse e vivesse o que ele não viveu e quem sabe até poderia partilhar com o mundo isso mesmo.
Devolvi a caneca, virei-me para o lado mas sem saber explicar muito bem porquê, tudo aquilo que ele falou continuou a ser demasiadamente inteligível para mim e demasiadamente real:
-E que ele fez? - Perguntei curioso
-Tornou-se escritor. Escreveu apenas e só para os olhos do filho...Caso ele ainda estivesse vivo e não contente, todos os dias lia em voz alta o que tinha escrito, para que o filho o ouvisse, estivesse onde estivesse.
Não emiti qualquer opinião, não fiz qualquer comentário jocoso, não proferi a mais fina palavra. Mas assim que ele saiu, ergui-me da cama, tomei banho, fiz a barba e fui comprar cadernos e canetas e voltei a correr para o quarto projectando isto, este meu pequeno livro a que chamei de Lápide, este meu projecto de te sentir e tal como o escritor, todos os dias caminho até à tua campa e leio-te em voz alta tudo aquilo que escrevi no dia anterior e sabes porquê? Porque ainda te amo e muito mesmo e agora que te li o último capítulo, agora que fiz as pazes comigo mesmo percebi mesmo nestas ultimas linhas que tu és a minha luz, o meu sol e única razão do meu viver e que tal como o meu filho disse eu devo perpetuar o teu nome e o nosso amor.
Não te preocupes amor, falarei contigo todos os dias, sobretudo agora que eu e Salvador criamos a marca Pitareca,...Sumo de maçã natural, acreditas? E será distribuída em todo o País. Será algo que me manterá igualmente ocupado, nestes meus dias negros sem ti

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Lápide - Capítulo 19






a vida é uma louca passagem
que só nos traz bagagem...
Gemido engolido pela racionalidade.
Não podemos ter tudo o que queremos...

Inês Dunas: Bife Tártaro



E AGORA PÁ?



O tempo arrastava-se devagar, como uma marcha fúnebre ensaiada para propositadamente dar o ambiente pesado à comoção dos meus dias.
Aprendera neste curto estado de tempo a gerir as dores dela e o nosso infortúnio com uma destreza física digna de qualquer ginasta e o dia-a-dia era o meu arame, que percorria de braços esticados e guarda-chuva aberto, para que o equilíbrio de quem fomos e seremos se mantivesse.
Às vezes, só às vezes, procurava no meu silêncio novas palavras que nunca lhe dissera e acercava-me de mansinho, com medo que tal procedimento a assustasse e proferia ao seu ouvido a jóia que acabara de descobrir e ela claro, louca das minhas loucuras e àvida dos meus devaneios ria e sorria consoante o esgar de dores lhe permitisse e escondia dos meus olhos, a crispação das marcas que noites e noites acordada lhe deixavam não só no rosto, mas sobretudo no olhar perdido e vago que ostentava sempre que ficava só.
Por esses dias resguardava-me sempre que podia no meu “pomar” assim dito como se fosse uma extensa área de árvores de fruto, quando mais não eram que quatro formosas árvores, duas delas ( os meus orgulhos) com excertos de fazer inveja a muito bom agricultor. Mas fugia para ali, não propriamente para cuidar das ditas, que nisso o Salvador com a sua destreza de mãos e conhecimento vivo da arte o fazia, mas para tão-somente organizar ideias, recuperar forças e ocupar o meu espírito com longas conversas com Salvador. Ah, Cara Mia se soubesses as longas dissertações que tal criatura proferia sobre a vila e seus habitantes, acharias que daria pois por bem empregue essa minha fuga e esse meu tempo gasto à socapa da tua presença.
E foi então, nessa fria tarde que o vi. Corriam os primeiros raios de sol do início da primavera , mas era ainda um sol de abril, fraco e distante como o tempo antes de entrares na minha vida. Vi o seu rosto pela janela do carro e não precisei de segunda confirmação para o identificar. Um pai conhece sempre os seus filhos e a tesoura da poda quedou-se estática e inerte na minha mão. Creio, mulher da minha vida, que nunca te cheguei a contar pormenorizadamente este nosso reencontro, até porque não te pretendia maçar o teu tempo com imensos detalhes, mas aproveito para te contar agora.
Álvaro estava crescido, era já homem de barba áspera sobre o rosto, que lhe cobria as imperfeições do Acne que outrora lhe marcaram a adolescência e de início não percebia como diabo ele me encontrou ali. Exactamente ali, ali…O sítio que eu escolhera para refúgio de tudo, para longe da tua dor, da minha impotência no aliviar dos teus sintomas. Ali, o sítio que comprara para fugir aos teus esgares de dor e às correrias dos ponteiros do relógio, em que imóvel ao teu lado te via definhar, mesmo durante as curtas pausas em que dormias. Não! Ali não era nem o momento nem o local para tal reencontro. Pousei o utensílio de corte, sacudi as mãos, como para me certificar que nada levava daquele quadrado sagrado e sem proferir qualquer palavra a Salvador dirigi-me a ele e de mãos nos bolsos expus-me aos seus critérios, ao seu juízo de valor e ouvi da sua boca os disparates sobre os ter abandonado, sobre o meu falso amor, a minha falsa paixão. Que diabo, como podia explicar ao miúdo que só se sabe o que é o amor, depois de ser pai. Até esse momento o amor é coisa vaga, algo lírico, uma mentira de S Valentim, uma cuspidela arrogante do capitalismo…E vendem-se livros e fazem-se filmes e inventam-se baladas para nada
Não há, nem existe no Mundo, ou mesmo neste Universo maior amor que segurar uma criatura recém-nascida nos braços e saber que de certa forma somos os responsáveis pela existência de tal Ser. O sorriso, o choro, o cheiro a recém-nascido e hipotéticas fraldas sujas, nada se sobrepõe ao amor incondicional enquanto Paeter desse Ser. Levei algum tempo a perceber isso mesmo, passei uma vida alheio das minhas responsabilidades e de certa forma, enquanto homem, vivia distanciado, direi mesmo, colocado à margem de todo este amor, de tal forma, que Cara Mia, chegava por vezes hipoteticamente e na distância que a minha ex obrigava a ser o gajo que ganhava para o sustento das criaturas e por incrível que agora pareça, no meu cérebro, na minha mente eu tinha consciencializado que seria apenas isso.
Mas não, contigo, paixão da minha alma eu percebi que o amor é aquele amor que nos obriga a sonhar acordados, ou a acordar a meio da noite e permanecer três dias com um sorriso parvo no rosto só porque sonhei connosco a ver estrelas ou algo assim. O Amor é saber que não obstante sermos mortais, temos a imortalidade dos momentos gravadas a dourado no pensamento e que jamais, mesmo que o corpo apodreça, mesmo que a carne desapareça, isso será apagado da minha alma.
E ele contava-me no seu tom de voz duro que eu reconhecia tão bem das suas birras na infância, a deliciosa história do abandono do lar de portas abertas que eu propositadamente deixara e de como o interior tinha sido alvo de larápios, das intempéries, em que a água da chuva tomara de assalto formando verdadeiras poças de água nos divinos, caros e pesados tapetes que a minha ex-mulher, senhora sua mãe tão orgulhosamente os gabava. E falou-me, do alto da sua sapiência, do cimo do seu metro e noventa, da minha indelicadeza em ter sumido do mapa, na viatura que ela tanto gostava, entregando a sua mãe de mão beijada, no desespero da minha partida, nas mãos de um crápula que lhe batia deixando-a com marcas visíveis na alma e no corpo e eu calhorda e cobarde, aparentemente sem remorsos de toda uma vida vivida e com filhos criados, perdido que estava por uma paixoneta fetiche, própria da crise da minha meia-idade,(como tão bem a sua mãe me diagnosticara, com base nos seus vastos conhecimentos adquiridos na revista Maria), ter abandonado tudo e todos, sem qualquer ponta de rancor. Só podia, na opinião da dita senhora, ser algum problema mental ou pior, qualquer evocação de uma poção mágica misteriosa que a bruxa da empregada me tenha dado a beber.
Tudo isto ouvia eu calado, sentado na mesa quadrada do café da aldeia, para onde o levara, bem em frente ao andar que ocupava com essa minha suposta paixoneta. Olhava-o volta e meia de soslaio, na ânsia que cada palavra por ele proferida fosse o final do seu monólogo, mas ele continuava e eu desesperava pela quantidade de oxigénio que a criatura gastava em vão.
Quando finalmente, após ter pousado a chávena de café no pires ele se calou e refastelando-se na cadeira aguardou o contraditório, provavelmente convencido que da minha boca sairiam mil e uma desculpas em catadupa, num arrependimento mortal próprios de uma mente confusa ou deturpada, sorri e brincando com a minha curta barba apenas lhe perguntei, sem qualquer ponta de maldade ou cinismo:
-És feliz?
-Que...Não estamos a falar de mim pai!
-Não. Estamos a falar de mim, mas para que me compreendas preciso que me respondas.
-Se sou feliz? Sei lá isso é relativo e nem penso muito nisso.
-É como a morte. Nunca pensamos muito nisso até ela chegar...
-Pai, não desconverses! A verdade...
-A tua verdade, aquela que te puseram nessa cabecinha é que eu olhei para o cu da nossa empregada e num acesso de loucura saltei-lhe em cima, depois meti-a no carro e trouxe-a para aqui para me servir dela até me fartar, certo?
O pequeno grande homem, (porque no fundo, apesar de toda a sua altura e idade não deixava nunca de ser o meu menino, a minha criança feita cada vez mais à imagem e semelhança da cruela sua mãe), olhou-me incerto sobre o meu aparente sarcasmo e porque já havia sido previamente formatado por ela, concordou num sorriso amarelo:
-Algo desse género.
E demoradamente, com todas as pausas do mundo para que ele pudesse assimilar na amplitude máxima da magia da minha descoberta numa nova realidade a dois, que talvez fosse alternativa mas nunca ficcional, lhe narrei o verdadeiro abandono. O da sua mãe, que me deixara perdido e desnorteado. Que me descartara, acabado, rasgado, comido e cuspido numa vida a dois, a três e a quatro sem sentido, num lar que não era um lar, mas uma ala psiquiátrica do mais denso nível e de uma vida presa a um emprego que nunca fora verdadeiramente o meu, mas a minha prisão física e mental. O abandono, a fuga para a frente que ela escolhera, junto de um novo prisioneiro, um novo canalha, sem uma conversa franca, sem uma justificação, sem um testamento de vontades, mas com telefonemas de advogados....E graças a Deus, aos santos e a todas aquelas divindades criadas na imaginação humana que tal sucedeu.
-Sabes, - Contava-lhe eu com o mesmo tom de voz que usava na sua infância para lhe explicar o mundo- Somos tão formatados por tudo o que nos rodeia e nos deprime, tão cegos pela falsa luz de uma razão qualquer que nos atiram para cima que raramente nos apercebemos  que a felicidade é um pequeno passo. Bem sei, pobre rapaz , que parece uma frase feita sacada de qualquer livro de auto-ajuda, mas nem sempre temos o dom da palavra que nos permita com exactidão descrever tudo aquilo que o coração debita à nossa mente.
Vi-o a ir ás cordas, a aproximar-se de um K.O. técnico e justo na nova realidade das coisas que foram assim e não como lhe contaram, mas este não era mais o meu ringue, as lutas do passado, as vivências do que foi e do que se sucedeu já não eram tema de debate na minha mente e sem laivos de misericórdia falei-lhe da doença que consumia a minha companheira, de como mesmo estando ela dependente de mim, eu continuava dependente dela, sempre sequioso dos seus beijos, dos seus afectos, da sua companhia. Falei-lhe do estado terminal da doença, do talvez seja breve, talvez ocorra numa noite destas que surgirão ameaçadoras, ou talvez ainda dure mais uns anos. Talvez o destino, esse senhor de todas as coisas, permita que eu a carregue o colo, areia dentro para saborearmos o mar uma última vez, ou talvez adormeça nos meus braços e Morfeu a leve de mim e era precisamente essa incerteza que me fazia amá-la em cada segundo da minha vida, que me trazia a certeza que quando essa hora chegasse eu não estaria obviamente preparado mas ficaria em mim a certeza de em todos os momentos em que estivemos juntos, sempre ter guardado os melhores momentos que ocupariam a minha mente nas noites em que solitariamente me deitasse já sem a sua companhia.
Contei-lhe ainda como em todos estes anos ela havia moldado o ser imperfeito que sempre seria, na perfeição dos seus olhos e no modo como me olhava, como se eu fosse a Torre Eiffel, ou qualquer monumento consagrado e que isso acarretava a certeza de finalmente saber o que é ser amado e que se ele estava ali, à minha frente era precisamente devido à arte e engenho de quem, temendo partir deste mundo a qualquer momento, possibilitar que de certa forma eu me pudesse reunir ao meu passado e abrir as portas do meu coração aos meus filhos, numas contas a ajustar não só comigo mesmo, mas com eles. 
Ele demorou o seu tempo, de rosto contorcido na incerteza dos sentimentos que lhe assombravam os vestígios remanescentes de raiva que rapidamente se dissipava do seu rosto e num tom de voz pesaroso indagou a medo:
-Então és feliz?
-Todos os dias e a cada segundo desde que a tomei nos meus braços.
- Desculpa pai...
-Devias a ter visto a dançar, nos seus dias de glória e loucura. - Desabafei orgulhoso da memória visual que me assaltava o espírito
O pequeno grande homem pousou a mão dele sob a minha mão enrugada, apertando-a ao de leve e olhando-me intensamente, perguntou por entre os finos lábios:
-Então e agora, pá?