3-Carnevale
Os sábios dizem que ao fazer a escolha do seu parceiro(a) deve levar em consideração o diálogo que vocês tem, pois quando chegar a terceira idade é o que vai restar.
Paulo Barbosa: " Assim se criou o mito"
Nunca entendi esse fenómeno a que chamam de amor ou então, talvez tenha sido ele que nunca permitiu que eu entendesse. Para certas pessoas o termo amor é como a existência de vida em Marte, já ouviram falar disso, já leram sobre isso, mas ainda não estão certos que exista.
Directa é a linha que une dois pontos, num traçado límpido, puro e verossímil
Pudéssemos nós ser assim nas nossas relações, no nosso dia-a-dia, sem máscaras,sem desculpas, sem ilusões.
Bom,na crta que levariamos o espólio para o Além.
O prazer da entrega e do recebimento, o saltar do coração, o pulsar das veias, o estar vivo em todo o seu esplendor.
Maldito seja o sexo que tudo desvirtua...
Como morri, posso me dar ao luxo de saborear nesta Eternidade todas as tentações, todas as tramas, todas as devoções, algumas camas e taradices do que não fiz e devia ter feito.
No fundo, vive-se muito pouco e raramente o damos conta. Construímos um Império de minutos, sob uma parede de segundos, amarramos tudo num bonito laço e transformamos em vivência.
Fico recordado do primeiro momento em que a vi, creio que essa é a imagem mais duradoira, o que só por si é estranho, pois regra geral é usual que venham à memória palavras, frases, discussões, várias tentações, um pensamento...Não, apenas me assalta o espírito o seu sorriso, tenro, macio, inocente da primeira vez que trocamos olhares.
É incrível para quem sentiu, a capacidade louca do ser humano de amar, de se entregar, de viver uma paixão, porque no fundo é disso que falo. Entregar-se de sobremaneira a um alguém, deixar-se estar junto dele, fazer desse momento uma falsa eternidade. Não, não sei se alguma vez amei, não sei se alguma vez perdi o sono, o descanso ou um minuto a pensar em alguém dessa forma. Mas o que realmente sei é da existência do outro poder: O de ser amado.
São umas cápsulas virtuais de energia que recebemos, são um olhar atencioso, numa face que rejubila apenas e só com a nossa presença, são os minutos e as horas de uma vida expressas apenas no prazer de partilhar.
É sobre este ponto de vista que escrevo agora, neste purgatório infernal em que examino o que tive e o que vivi no geral, ( não caro leitor, tal purgatório não é castigos dos deuses ou outras entidades, é apenas e só para passar tempo que o chato de se estar morto, é não ter nada para fazer).
O tempo, sempre o tempo, aquilo que nos acompanha a vida fora e como nós o soubemos aproveitar. As nossas entregas, em vastos lânguidos desejos, em beijos carnais, numa altura em que torcíamos os gastos segundos, mordíamos os incontáveis minutos e atirávamos fora algumas horas. E depois? O que sobrava do tempo que não usamos? Canalha, é o tempo na sensação de falsa grandeza.
A suavidade com que certas lembranças afloram ao nosso espírito, naqueles momentos em que uma simples palavra pode provocar o maior dos ruídos, em que um olhar pode despertar os maiores fogos internos, são coisas que nem a morte apaga, embora em breve e estou consciente desse facto, tudo desaparecerá da minha mente, como se alguém pura e simplesmente fizesse um DELETE e é precisamente isso que me assusta.
Senão vejamos, andei uma vida inteira a coleccionar memórias, tristezas, interrogações, devoções e demais afinidades mortais, para justo no momento em que disponho de tempo para as analisar elas vão desaparecer. Injustiça de uma vida, diria.
Na verdade já sinto de certa forma o cérebro a fragmentar-se em espasmos de pouca eloquência e alguma demência, (tento o truque certo de homem casado enquanto a esposa fala, agarrar-me a uma ideia agradável e a manter viva na mente para não ser traído pela minha cara de enfado) e apenas me surgem imagens desfocadas.
Sim caro leitor, mesmo neste purgatório se pode sofrer e viver na dor. É até incrível a quantidade de palavras, frases e algo mais que deixamos por dizer ou fazer e agora que aqui estou não tenho como enviar um mail ou um SMS. Acredite-me caro leitor há sempre algo que fica por dizer, sobretudo a quem nos amou, a quem de tudo abdicou por nós. Nestes específicos casos, um mero obrigado não chega, nada há que pague isso.
Viram? Agora que morri é que me deu para estar com estas coisas sentimentais, como se soasse a arrependimento ou frustração da minha parte, mas no fundo trata-se tão somente de mais uma divagação.
Ah, mas garanto que nada tem de fraco o elogio da loucura nas minhas divagações carnais.
Pudesse eu colocar em tela os devaneios de corpos nus sobre um imenso vazio a meia sombra, pudesse eu perpetuar em aguarelas únicas as imensas orgias, os calafrios, as tentações que saltitam minha mente.
Ou no fundo tentar elucidar o caro leitor sobre o calor das contendas nos seios gastos de uma filosofia.
Mas por momentos, inexplicado que está o conceito de amor, viremos agora a nossa atenção para o sexo, tido por muitos como o veículo essencial desse amor e para outros, receio bem, fruto de perfeita perversidade.
Na verdade a grande questão do fascínio por um corpo nu, pela suavidade num toque de carícia, pelo encantamento de um sorriso de malícia. Ah, o sexo!Isso de certa forma me fará falta aqui no Além. Creio mesmo que será uma das poucas razões para estar vivo!
Sinto uma força estranha, algo que me expele e que simultaneamente me puxa. Algo...como se fossem mil braços em meu redos, me prendendo, me largando, me torturando. Inexplicável este misto de sensações, dor e alegria, coragem e hesitação...Não, não posso ficar por aqui, tenho de narrar tudo ao meu leitor.
Sinto-me agora a encher de garra, de jubilo, parece que ouço o coração. Mas como é possível se estou morto... Não estou?
O silêncio é timidamente afastado,a visão quer recuperar as suas qualidades e atarantado ouço então como se fosse a primeira vez que ouvia a voz humana:
-Ok, já tenho os sinais...
-Recupera?
-Difícil dizer enfermeiro, esperemos que se torne estável.
-Confirma-se, foi um AVC.
-Dos fortes, este pode-se safar...
Então estou vivo? Então não morri?
A não, como posso ter o azar de poder retornar, reencarnar noutro corpo e ter que ficar com o mesmo?
É preciso ter sorte!
