quarta-feira, 11 de outubro de 2017

A Saga de Arkhan - Livro 2 - Ischtfall - Capítulo 14




Sempre vivi no limbo, entre os Homens e os deuses humildes,
num equilíbrio frágil que anoitece com as sombras do mundo,
que adormece sempre com esperança , a sonhar utopias de dias melhores…

Inês Dunas
http://librisscriptaest.blogspot.pt/2013/11/sem-titulo-4.html



SAEMON



O vento acossava de sobremaneira a parca vegetação no primeiro pico da Montanha e Saemon, aguardando pacientemente que o soberano de Ischtfal e o seu general principiassem a descida e deixassem Citadell, encolheu os ombros, para de seguida chamar  para perto de si, o seu braço direito Arnacles.
O silêncio que reinara no centro da parca habitação foi quebrado lentamente, como se os seus ocupantes estivessem a acordar de um sono prolongado. Vendo que tinha a atenção de Arnacles, o líder da Tribo retomou o seu ar confiante e num tom de voz calmo e pausado, articulou:
-Todos nós ouvimos as novidades e Arkhan e uma vez mais percebemos que o que quer que possa suceder na planície, dificilmente nos afectará.
-Contudo, jovem líder vivemos numa montanha, não numa ilha!- Interrompeu o ancião que mascava umas folhas castanhas.
-Grande Miorr, não cuideis que pela simplicidade da minha argumentação eu esteja a desvalorizar o bem- estar do nosso povo. Mas, quer queira quer não, esta Montanha é o nosso isolamento de Arkhan. Não temos água a rodear-nos, mas temos ar e declives acentuados. Por outro lado, bem sabeis que nos invadirem seria uma tolice.
O ancião tirou mais algumas folhas da bolsa a tiracolo, mascando-as avidamente, de mão erguida em sinal de paragem e após cuspir ruidosamente o conteúdo da boca para o chão , retorquiu:
-Esta comunidade é apenas uma pequena gota de chuva, no "mar" de Arkhan. Não temos meios de subsistência própria, excepto alguns animais em cativeiro e a parca agricultura que o gelo ou inverno rígido não destruir. Temos regularmente de ir à floresta de Arkhan. Somos caçadores-recolectores e por mais queira esconder a Tribo, chegará o momento em que os nossos valentes guerreiros terão de descer a montanha e caçar o mais que puderem para nos abastecermos para o inverno.
-Sim, mas...
-Escutai ... Se hoje mesmo descermos a encosta e formos caçar à Floresta Negra sabemos com o que contamos e que não seremos atacados por Ischtfall, mas e se não houver Ischtfall amanhã? 
Saemon não respondeu, confiante que seria apenas uma pergunta de retórica e olhava impacientemente para Arnacles:
-Não. Não creio que a vossa decisão de ignorar o apelo de Leopoldo II tenha qualquer cabimento.
-Mas ele ainda nos toma por escravos!
-Mais uma razão para granjeares simpatia e respeito junto de quem desdenha de vós.
Arnacles tocando ao de leve no ombro do seu superior anuiu:
-Tem algum fundamento.
-Não. Ele sabe. O rei sabe! - Saemon esfregava a cabeça pensativamente.
Miorr centrou toda a sua atenção nos lábios do líder da tribo e como se temesse o pior aguardou:
-Estais certo disso?
-Todos vós aqui presentes o ouviram falar. Puderam se aperceber do conhecimento que ele já tinha sobre nós, nossos costumes e ainda proferiu a magia.
-Estais equivocado. Ele não pode ter sabido desse aspecto.
-"Para certos membros deste Povo", creio terem sido as suas palavras - Acrescentou Arnacles desconfiadamente.
-Meus caros, - Cortou Miorr voltando a tirar folhas da bolsa- São ainda poucos os de nós que dominam a arte de Matuka e nenhum domina na perfeição a invisibilidade. Tanto quanto o rei pode saber, se é que o sabe, é que certos elementos da nossa Tribo são de facto acima da média e podem ser valorosos em combate. Mas não creio ser a isso que o rei se referia.
-Que outra interpretação dareis então? - Inquiriu o Líder já nervoso.
-Ninguém em Arkhan conhece tão bem a Floresta Negra como os nossos guerreiros e se a questão é usara cobertura das suas árvores para um ataque dissimulado, então certos elementos da nossa Tribo o farão na perfeição.
-Sois então da opinião que deveríamos participar nesta batalha?
-Matuka nos ensinou a respeitar todas as formas de vida e a não interferir no destino delas, excepto para sobrevivência. Assim sendo e uma vez que não iremos para combate directo, que não alinharemos ao lado de Leopoldo II, mas antes faremos uma emboscada, não vejo nada que fira os mandamentos da nossa Deusa.
-Respeito os vossos argumentos, mas não voltarei com a palavra.
-Palavra dada de cabeça quente pode ser retirada.
-Não irei a Ischtfall!
-Mandai Arnacles!
Saemon não gostava do ancião, pois sabia do afecto que ele ainda guardava a Ischtfall e temia que esse mesmo afecto toldasse o seu raciocínio e uma vez mais intercedesse, embora de forma inconsciente pelo reino vizinho.
Tinha sido assim nos últimos tempos e sobretudo após a morte do rei Leopoldo I. Por duas vezes Saemon propôs ao Concílio deslocar-se a Ischtfall a fim de negociar a liberdade oficial do seu povo mas sempre foi travado por Miorr com vários argumentos que apesar de serem pouco consistentes receberam o apoio dos demais.
Inequivocamente a história de vida de Saemon está intimamente ligada com a Montanha. Não era um dos seus filhos nascidos no seio da Tribo, nem tão pouco de Ischtfall. Saemon era natural de Samerti, rumando à Montanha na louca corrida do ouro, mas após o primeiro inverno no pico mais gelado do aglomerado montanhoso, ele percebeu que dificilmente o seu espírito livre o deixaria sair. Apaixonou-se pela doutrina dos Ocultos, sempre se considerou diferente dos demais em Samerti e foi no seio das gentes da Montanha que descobriu que seria ali o teu local.
Ganhou o gosto pela caça, das emboscadas, o gosto indescritível de se perder na Floresta Negra horas e dias a fio, esperando a caça. Ganhou prazer de contacto e de olhar pelos outros. Ganhou a consciência social e sentiu que juntos, unidos atravessavam as dificuldades.
Não foi a Tribo que nasceu e cresceu com ele, mas sim ele que renasceu e cresceu com a Tribo.
Saemon lembrava-se de como tudo começou, cumprindo a vontade e o desejo de Leopoldo I na altura rei de Ischtfall, da construção de uma muralha imponente e grandiosa que servisse de defesa aos bárbaros do Povo do Gelo e simultaneamente exultasse o orgulho das suas gentes, homens livres rumavam à Montanha para dela extraírem a pedra necessária, cortando-a, preparando-a e descendo-a pela encosta da Montanha, onde na base operários e servos a colocassem na muralha.
Durante uns tempos iam e vinham diariamente, partindo do reino de madrugada e chegando exaustos ao fim do dia às suas habitações. Com o passar do tempo já pernoitavam na Montanha semanas e semanas. Passaram depois a ficar meses e meses isolados e habituaram-se ao seu micro-clima, até que deixaram de voltar e as mulheres casadas fartas da solidão abandonavam o reino para se juntarem aos seus pares na Montanha.
Com a descoberta acidental de ouro numa das suas encostas , homens e mulheres rumaram de toda a Arkhan dispostas a enriquecerem, esquecendo o rigor invernal da Montanha, largaram tudo e partiram para a Montanha, fundando uma pequena colónia a que deram o nome de Citadell e dedicaram-se então a outras actividades relacionadas com o trabalho do ferro e outros materiais , regressando a Ischtfall para venderem ou trocarem o que a Montanha lhes dava.
Mercadores ambulantes passaram a incluir Ischtfall como rota de comércio e a cunhagem de moeda real com a éfige de Leopoldo I
Cerca de dez anos depois, quando a construção da muralha acabou, o rei de Ischtfall ordenou que se aprofundasse a exploração mineira e que se fosse construída no cimo, instalações militares e outros órgãos de soberania régia.
O Povo da Montanha que até aí tinha sido deixado ao abandono pelo reino, que tinha sofrido com a peste animal, transmitida por roedores, não acatou a decisão do rei, uniram-se num primitivo Clã e elegeram os seus representantes. Três homens fortes, valorosos e com cultura foram os nomeados  pelo povo para formarem o Concílio da Tribo, tendo na pessoa de Miorr o seu representante máximo.
Seguiu-se uma corrida ao armamento! Deixaram apenas de fabricar as pequenas adagas, úteis para a caça e para o corte da carne animal, para fabricarem espadas com o melhor ferro e protecção para escudos, coletes e cotas de malha de ferro.
De estrangeiros, entretanto chegados à Montanha aprenderam técnicas de combate corpo-a-corpo e a caça desenvolvera a técnica do arco e flecha e reforçaram armadilhas naturais contra prováveis invasões.
Porém  a revolta foi inicialmente desvalorizada por Leopoldo I, que mal aconselhado por quem nunca tinha ido à Montanha achou que era um capricho e que em duas penadas ou invasões dos seus Nobres resolveriam a contenda até ao dia em que fartos de serem ignorados, os homens da Tribo mandaram um seu representante declarar guerra.
Um jovem orgulhoso, mal vestido e sem qualquer cuidado formal no uso das palavras foi recebido em chacota pelo palácio e pelo próprio que não só escarneceu de tal declaração, como mandou os guardas expulsarem o jovem, ordenando ainda que por piedade lhe dessem fruta para ele poder levar aos esfomeados da Montanha.
No dia seguinte  cerca de cem homens e mulheres surgiam diante dos portões de Ischtfall, bem armados e dispostos a morrerem ali mesmo se tivesse de ser.
Temendo uma guerra sem sentido, ou pior ainda uma humilhação real em caso de derrota Leopoldo I acabou aceitar tréguas, cedendo à pretensão do povo da Montanha sem contudo decretar por escrito a independência da Tribo e Saemon o jovem que fora ridicularizado pelo rei jurou que tal sucederia um dia.
Desde então foi subindo gradualmente na hierarquia da Tribo, chegando ao topo fruto dos treinos intensivos de combate, de caça 
Pousando violentamente ambas as mãos sobre os joelhos, Saemon advertiu:
-Muito bem, se essa é vossa vontade seguirei as pisadas do rei de Ischtfall e recuarei na minha palavra. Mas irei me apresentar como Senhor da Montanha. Não abdicarei da minha coroa.
O ancião sorriu ao de leve, voltando a cuspir os restos de folhas mastigadas para o chão, limpou a boca à manga do sujo manto e concluiu:
-Saemon, sois jovem, sois valente, sois um líder mas o orgulho é um manto pesado que carregais em vossos ombros. Afastai decepções passadas, como o sol afasta a noite todos os dias e negociai com o rei como um seu semelhante, mas sem que tentais impor a vossa vontade. Mesmo o sol, de tão presunçoso que é ao nos iluminar é tapado pela leveza das nuvens de vez em quando. Brilhai mas não provoqueis a cegueira nos outros e em vós!
Mordendo nervosamente o lábio inferior, Saemon agarrou o braço de Arnacles, tirando-o quase à força para o exterior e contemplando por momentos o sol, ordenou:
-Andemos que ainda chegaremos antes do rei a Ischtfall!








domingo, 1 de outubro de 2017

A Saga de Arkhan - Livro 2 - Ischtfall - Capítulo 13


Um dia morreremos porque desaprendemos a vida,
seremos a espécie extinta pelo desinteresse...
A evolução é apenas uma jaula maior e com menos ar,
que não nos permite pensar...

Inês Dunas : Symphony of Distruction



A REUNIÃO


As nuvens percorriam o manto azul celestial tapando-o ao de leve, como um lençol de linho suave e macio, deixando no entanto, como se de um acordo tácito se tratasse, aqui e ali, certos espaços para o sol poder espreitar e sorrir sobre a Cittadel.
Perto do cimo Este da Montanha a Tribo aproximava-se dos forasteiros numa desorganização casual, própria de quem não está habituada a receber visitas.
A situação não era para menos, pois tanto quanto Saemon, o líder da Tribo se poderia lembrar, nunca antes a Cittadel recebera a visita de um líder, muito menos um rei de Ischtfall e na mente formada do responsável máximo da Tribo, isso só poderia significar problemas.
Sem grandes movimentos formais ou de cortesia, Leopoldo II e o seu general foram conduzidos para uma espécie de tenda, embora não fosse de tecido, mas de barro tosco e madeira e parecia ao rei forasteiro que toda a Tribo queria entrar e partilhar ideias e receios com ele.
Saemon, na sua posse de guerreiro-líder orientou a guarda do espaço para que só os anciões e ele estivessem presentes com os forasteiros e carregando um cachimbo de espiga de milho com folhas verdes, aguardou pacientemente que a excitação abrandasse para dar a palavra ao soberano à sua frente:
-Como foi anunciado há momentos, Borren caiu e outras cidades-fortificadas tiveram o mesmo destino. Orgutt está em guerra, embora as informações que nos cheguem sejam contrárias e antagónicas, temos a dúvida se não será o príncipe a preparar o seu reino, talvez numa amostra de valentia  ou então o rei ficou doido.
-Seja como for, a paz morreu...- Sentenciou Saemon de olhos fixos no cachimbo
-Correcto. Tememos que a loucura de Orgutt chegue ao nosso reino e à vossa Montanha, pois não tenham dúvidas de que chegará.
-Para que queria Orgutt a Montanha ? - Sondou nervosamente o líder da conferência da Tribo
Leopoldo II estudou por momentos a cara enrugada e a tez pálida de Miorr , o ancião mais idoso da Tribo e assegurando-se de que não havia a mais fina ponta de sátira na sua afirmação retorquiu:
-Porque não haveria de querer? Qualquer réstia de liberdade, mesmo a do vosso povo seria uma ameaça à supremacia bélica que querem instituir.
Saemon percebeu que o rei sabia mais do que dissera e com cuidado, contornou a questão:
-A questão não é a sobrevivência da nossa Tribo, mas saber o que pretende Ischtfall  fazer quanto isso?
-Como assim? - Inquiriu Leopoldo II nervosamente.
-Até hoje, Ischtfall e mais concretamente o vosso pai só têm ignorado o nosso povo. Fomos escravos às vossas ordens, servos ocasionais explorados em condições precárias enquanto a vossa muralha crescia. Passamos fome, sofremos doenças, vimos partir muitos dos nossos para o reino sagrado da deusa Matuka por falta de cuidados enquanto no vosso reino os nobres caçavam a cavalo, matando por desporto e vaidade.
Leopoldo II ergueu-se ofendido, sacudindo a mão direita, num gesto repetitivo como se pretendesse que o líder da Tribo se calasse e por fim explodiu:
-Que injustiça! Cometeis a indecência de me julgares pelas atitudes de meu pai? Como podeis permitir que o vosso rancor por questões que não são já do nosso tempo ou responsabilidade se sobreponham ao que deve ser feito?
Arnacles que até aí se mostrara atento mas calado, escusando-se a um silêncio ensurdecedor, cruzou os braços numa altivez descuidada e batendo as palmas das mãos nas pernas, interpelou:
-Quem sois vós para falares de justiça? Dizei-me na cara, o que haveis feito pela nossa Tribo, desde que haveis te tornado rei.
-Nada. - Anuiu o soberano mostrando pouco à vontade pela interpelação-Não posso ter feito nada porque não sou vosso soberano. Pergunto agora quantas vezes vós me haveis procurado para repor uma aliança perdida?
Os três homens permaneceram estáticos, com o general de Ischtfall sentado, sem saber muito bem o que fazer ou dizer. Rasmen sentia no seu intímo que a conversa havia feito cair qualquer propósito que o seu soberano tivesse esperançado levar daquela Montanha, mas com o olhar fincado no rosto do ancião mais idoso da Tribo, nada lhe ocorria, até que o idoso lançou um sonoro gargalhar que desarmou os ânimos quentes dos presentes:
- Curioso, - principiou ele a dizer, como se fosse um monólogo- Dois líderes se encontram para discutir a paz em momento de guerra e segundos depois eles próprios fazem a guerra. Como é esquiva e traiçoeira a paz, quando os homens que a podem defender trazem tanto ódio nos seus corações.
Leopoldo II recuperou a sua posse real e voltou ao seu lugar, como um miúdo a quem deram uma reprimenda e num encolher de ombros, desculpou-se:
-O meu perdão pela minha conduta, não era minha intenção faltar ao respeito nem a si, prezado Miorr nem ao vosso povo.
Saemon acusando o toque provocatório do soberano de ischtfall, fingiu ter sido para ele o pedido de desculpas, retorquindo entre dentes:
-Com efeito temos situações delicadas, ainda frescas no nosso passado comum que o tempo, quem sabe um dia curará. Rogo-vos que explicais o que realmente pretendeis da nossa Tribo.
Leopoldo II respirou fundo, cruzou as mãos sobre o colo e num tom fraterno, explicou:
-O exército de Orgutt chegará ao nosso reino, armará um cerco e provavelmente terá ao seu lado o exército do Senhor da Guerra. As últimas notícias que temos é que ambos estarão armados de catapultas e se tudo correr como expectável, será o 17º regimento a chegar primeiro ás nossas fronteiras.
-Continuai... - Convidou o ancião
-Acreditamos poder lidar com a defesa, até pela existência das nossas muralhas- o rosto do soberano de súbdito corou- e contamos, de acordo com a opinião do nosso general encarregue da defesa do nosso reino, provocar bastantes baixas.
-Mas precisam de lidar com as catapultas primeiro...- Observou Saemon.
-Correcto. 
-E não o poderão fazer de outra forma, senão abandonarem os vossos postos e abrirem o portão principal...
-Precisamente.... - Constatou Leopoldo II
-Então precisariam de uma unidade móvel, preparada para atacar a rectaguarda e inutilizar as catapultas. Preferencialmente sem serem vistas. - Concluiu o possante Arnacles.
Leopoldo II baixou a cabeça em tom de consentimento ante a perplexidade de Rasmen, que jamais tinha imaginado tal cenário.
-Em suma, - sintetizou o ancião- o que Ischtfall está a propor é bem pior que aquilo que inicialmente pensara. Estava a espera de um convite para que os nossos povos lutassem lado a lado. o que seria até irónico, para não dizer outros termos, mas o que nos propõe é duas vezes pior que o razoavelmente expectável.
-Para além de que, para podermos realizar essa tarefa, teríamos de passar por todo o exército inimigo, sem sermos vistos e inutilizar as catapultas, de novo sem sermos vistos ou ouvidos e regressarmos à Montanha como se nada fosse...
-Seria mais ou menos isso.... - Concordou o soberano de Ischtfall, enquanto retirava um documento enrolado do interior da sua capa.
-Mas pelos deuses isso é impossível! - Avisou o general ainda atónito.
-Para certos membros deste povo não! - Avisou Leopoldo II piscando o lho a Saemon.
Cerimoniosamente, o soberano abriu o documento, mostrando um mapa que ele mesmo desenhara. Um mapa de Ischtfall, onde se destacava a sua muralha e a previsão, segundo o soberano, das posições ocupadas pelo inimigo, bem como das posições das catapultas.
Saemon e Arnacles debruçaram-se sobre o mapa:
-Como podem ver, o único espaço para poderem manobrar as infernais catapultas será de frente para o portão principal. De seguida apontou para a proximidade da Floresta Negra. Pela Montanha, entrando na Floresta Negra saireis mais ou menos por aqui. Metade do exército encontrar-se-à concentrado no lado Norte, logo não terão dificuldade de alcançar as catapultas.
-Mas em terreno aberto- Observou o general de Ischtfall.
-Precisamente. - Concordou Leopoldo II enquanto voltava a piscar o olho a Saemon.
Foi então, ao virar o documento que o Líder da Montanha teve a certeza do quanto o soberano conhecia acerca do seu povo. Em caracteres perfeitos e a vermelho, escrito a pulso com pena de ganso, alguém relatava a façanha mágica e sobrenatural de certos elementos da Tribo, capazes segundo o mesmo documento de se tornarem invisíveis. O documento que havia sido escrito em Flurês, (mistura de dialecto Tribal com Arkhanês), só poderia ter sido escrito por um espião a mando do rei, estava endereçado a Leopoldo I e aconselhava o extermínio de tal povo, pela prática de bruxaria.
Atabalhoadamente Saemon forçou um sorriso, tentando relativizar o conteúdo e preparando-se para o negar, quando Miorr acrescentou:
-Somos um povo abençoado por Matuka. Um povo de paz e amante de todas as coisas boas da Natureza. Matuka nos dá certas....Habilidades e nós retribuímos cumprindo à risca aquilo que Ela nos pede. Claro que a nossa perícia na arte da caça, pois vivemos do que conseguimos caçar e da nossa astúcia em "desaparecermos" no meio da Floresta se deve mais a treino intensivo que a contos de fadas.
-Se o dizeis...- Leopoldo II parecia relutante em aceitar a explicação.
-Meu bom rei, se acaso fossemos capazes de tal proeza, já há muito tempo teríamos ocupado o vosso Trono.- Respondeu o ancião em tom de perfeita provocação.
-Muito bem. Posso acreditar na vossa presença diante de Orgutt?
O ancião limpou os lábios à manga do seu manto, como se tivesse acabado uma refeição e sem proferir qualquer abandonou o local, perante a estupefacção dos forasteiros e Saemon ocupou o lugar deixado vago por Miorr e sem rodeios concluiu:
-Haveis mencionado vezes sem conta o exército de Orgutt, haveis mencionado o exército do Senhor da Guerra e haveis habilmente transmitido o desespero pela integridade do vosso reino. Contudo, nem uma vez haveis mencionado o vosso receio por um ataque à Montanha ou o vosso medo pela integridade do nosso povo. Uma vez mais, o rei de Ischtfall procura escravos em vez de aliados.
-Mas eu vos mostrei o papel preponderante da vossa presença na defesa do nosso território...
-Do vosso território...
-Vos revelei o meu plano...
-Não. Haveis revelado uma loucura assente numa história infantil de magias inventadas.
-Mas, pelos Deuses, acaso não haveis percebido que caindo Isctfall , tudo em seu redor cairá?
-Talvez. Mas para isso o inimigo teria que subir a Montanha e duvido que as catapultas o façam.
Os dois homens ergueram-se parecendo dois galos prestes a lutarem até que por fim Leopoldo II voltou a guardar o documento, sacudiu o manto em tom de respeito e concluiu:
-Podeis acreditar que no dia da batalha vos esperarei. Até ao último raio de sol ou até que o nosso último homem caia, acreditarei na vossa presença no campo de batalha. Porque se isso não suceder, Arkhan desaparecerá.
-Não vos preocupeis!
Leopoldo II principiou a sorrir na eminência de um volte-face nas negociações:
-Arkhan poderá desaparecer, mas a Montanha ficará intacta!
O rei acusou a sentença como se de um murro no estomago se tratasse e enervado abandonou a habitação, esquecendo toda a regra de bons costumes, enquanto o general o seguia apressadamente.
-Pura perda de tempo!

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

A Saga de Arkhan - Livro 2 - Ischtfall - Capítulo 12





Somos tão pouco e tão arrogantes,
amantes intolerantes de passos indecisos
a trocar promessas falsas por esgares de sorrisos...

Inês Dunas: Cadunt altis de montibus umbrae



A TRIBO


Os dois homens seguiam penosamente a trote  pela encosta da montanha, com os cascos dos cavalos a em notória dificuldade diante do solo incerto, coberto de pequenas pedras e detritos naturais que o desaparecimento de neve deixou depositados no solo.
À medida que a inclinação natural do aglomerado montanhoso se tornava mais acentuado, as montadas resfolegavam e teimavam em abrandar cada vez mais o passo.
Rasmen não percebia o que o rei de Ischtfall poderia querer deste terreno ou de quem aqui vivia e muito menos percebia o que raio faziam os dois ali, em tal cavalgada, sujeitos a caírem da montada e partir o pescoço.Desde que chegara a Ischtfall que não tivera descanso. Havia fugido a sete pés da derrota de Borren, sua cidade natal, ciente de poder ser tratado como um refugiado de guerra e ter direito a um tecto seguro para ele e para a criança que o acompanhava. Pensava que sendo um dos raros sobreviventes da violência de Orgutt, seria tratado com a misericórdia própria de um doente em estado terminal, mas ao invés Leopoldo II na sua máxima loucura não só o tomou por bravo lutador, como o havia nomeado General  da defesa do reino, precisamente com o intuito de defrontar aqueles de quem ele fugira semanas dias atrás.
O vento acossava agora os dois cavaleiros e os cavalos deram o último sinal de que não iriam subir mais. Resignado, Leopoldo II desceu da sua montada aconselhando por gestos a que Rasmen se juntasse a ele:
-Meu rei, confesso ainda estar confuso quanto ao objectivo da nossa presença nesta maldita montanha. - Confessou o cavaleiro lutando com o estribo e a espora de forma a conseguir soltar com sucesso o pé direito.
Leopoldo II observou a luta do seu companheiro e o seu gesto atabalhoado para perceber imediatamente que o forasteiro não era um cavaleiro. A dúvida que permanecia no seu espírito era se ele de facto seria um homem  de armas, ou o rei se equivocara na sua avaliação:
-Entendo a vossa ressalva general, mas asseguro-lhe que a nossa presença aqui, neste mísero local não só é vital para a continuidade do reino como pessoalmente me poderá ajudar a resolver certas questões que ainda tenho para com este povo.
-Mas não se vê ninguém! Já andamos cerca de duas milhas e nada se passa nesta encosta. Acaso estaremos perdidos?
O rei sorriu olhando em volta demoradamente:
-Como poderemos nos perder no acesso a uma montanha? Não meu jovem general, asseguro-lhe porém que deveis manter os olhos bem abertos. O facto de não os vermos não significa que eles não nos vejam!
Rasmen sorriu fingindo ter entendido o que o seu soberano lhe confessava soltando-se finalmente da sela e amarrando o cavalo a um meio tronco cortado, talvez por qualquer raio:
-E agora senhor?
-Agora vamos a pé.
-Mas até onde?
-Até sermos parados....
Rasmen abanou a cabeça e principiou a seguir o seu soberano, consciente de que as botas que ambos calçavam em nada ajudaria a que a mesma subida fosse rápida e não dolorosa. Infelizmente, como ele constataria metros adiante a dor nos pés seria o mínimo dos seus receios.
Leopoldo II centrava o seu foco visual nos penedos a descoberto, atento a sombras ou vultos rápidos. Pelas suas contas e segundo o que sabia estavam quase a alcançar o limite livre da Montanha. Depois disso estariam oficialmente em território da Tribo e uma vez que a sua presença não tinha sido previamente anunciada nem tão pouco era esperada poderiam ser tomados por invasores e neste momento nada daria mais prazer ao líder da Tribo que ter Leopoldo II rei de Ischtfall preso e cativo à sua guarda.
Alguns passos mais e por fim surgiu o sinal. A caveira com uma flecha no crânio e o aviso em dialecto Tribal a anunciar a morte automática de quem ousasse atravessar esse limite.
Rasmen viu pela primeira vez o rosto apreensivo do seu soberano desde que iniciaram a subida da Montanha e com os pés extremamente doridos, calculando já estar perto do seu local de destino e temendo que o rei se assustasse e voltassem para trás, ergueu a espada, empunhando-a numa tentativa de inspirar o soberano.
Leopoldo II vendo a atitude do seu general, baixou automaticamente a mão de Rasmen esperando que a mesma atitude não tivesse repercussões nos anfitriões , contudo tinha sido tarde.
Segundos depois várias flechas cruzaram o ar, caindo a centímetros dos pés dos dois cavaleiros.
Nervoso o rei ergueu as mãos bradando a plenos pulmões, " sou vosso amigo, quero dialogar!" num dialecto montanhês perfeito, que surpreendeu por completo o seu atordoado parceiro:
-Larga a espada idiota. Queres que nos matem?
-Mas meu senhor...
-Larga e ajoelha-te!
Prontamente o general deixou cair a espada, apressando-se a ajoelhar-se de cabeça baixa, ciente de que colocara o seu soberano em perigo.
De pronto surgiram vários elementos da Tribo até aí escondidos entre as rochas, armados com flechas, inclusivamente alguns surgiram mesmo nas costas dos dois homens confirmando as suspeitas do rei de que eram seguidos mal iniciaram a escalada da Montanha.
-Somos de Ischtfall e pretendemos falar com o vosso líder. - Anunciou Leopoldo II ocultando propositadamente a sua identidade.
-Para quê? - Inquiriu o atlético guerreiro 
-Porque o rei de Ischtfall assim o deseja!
Uma gargalhada geral estalou bem audível nos presentes:
-E desde quando os desejos de tal criatura interessam à Tribo?
Rasmen ia pronunciar algo, quando a mão de Leopoldo II, agarrou o braço do intrépido general, fazendo-o recuar na sua intenção inicial:
-Desde que a paz e segurança da Montanha esteja em risco!
O guerreiro olhou demoradamente o céu, como que digerindo a informação dada para calmamente voltar a sua atenção para Leopoldo II, cuspindo para o solo enquanto retirava uma pequena adaga da bainha:
-Explica-te melhor forasteiro!
-Como disse, só falarei directamente com o vosso líder. - Sentenciou o rei de Ischtfall ignorando a lâmina brilhante da adaga.
-Não está em posição de exigir seja o que for e a minha adaga aqui está nervosa com a vossa voz... Que me dizem, corto-lhe a garganta?
Os guerreiros presentes manifestaram-se ruidosamente e Rasmen começou perceber que iria ser difícil saírem dali vivos a menos que o rei tivesse um plano:
-Na verdade- Interrompeu Leopoldo II - Até estou numa boa posição para exigir isso mesmo.
-Que dizeis? - Inquiriu o agora irado guerreiro
-Apenas constato o óbvio - A serenidade na voz do soberano desarmava completamente o medo que inundava o seu companheiro - Sois guerreiros da Tribo, logo crentes e tementes a Matuka o vosso deus de todas as coisas boas da natureza e Matuka proíbe ferozmente o uso de violência contra outras espécies, sobretudo quando as mesmas estão desarmadas e de joelhos.Por outro lado, segundo creio ainda não entramos oficialmente no terreno sagrado da Tribo. - Resumiu Leopoldo II apontando a  placa.
-Pareceis saber muitas coisas da nossa Tribo. Demasiadas coisas para um simples escudeiro! - Inquiriu um guerreiro empunhando uma lança.
-Nunca vos disse ser um simples escudeiro!
-Então apresentai-vos- Desafiou o guerreiro da lança.
-Não aqui e apenas ao vosso líder. 
O guerreiro da lança aproximou-se e fazendo um sinal para que se erguessem apresentou-se:
-O meu nome é Saemon, sou o Líder supremo da Tribo e este valente guerreiro de adaga na mão é Arnacles meu braço direito. Venha Majestade queira nos acompanhar até ao nosso acampamento.
-Sabeis quem eu sou. 
-Não seria um bom líder se não conhecesse os restantes líderes de Arkhan. Peço desculpa se os meus homens o desconhecem, mas foi a vontade de vosso pai que originou as nossas diferenças.
O soberano anuiu com um gesto de cabeça e principiou a acompanhar a comitiva sendo seguido pelo seu general quando este foi barrado por Saemon:
-Ele nós sabemos quem é, já quanto a vós não o sabemos.
-O nome dele é Rasmen e é meu general. Solicito que o deixeis tomar parte nesta reunião.
O líder aproximou-se do general de Ischtfall olhando-o demoradamente nos olhos, analisando friamente o aspecto do sujeito e proferiu secamente:
-Rasmen não é um nome de Ischtfall e este homem cheira a medo. Não vejo porque insiste na sua presença. A mim cheira a espião de Orgutt ou Borren.
O general franziu o sobrolho e manteve-se calado, permitindo ao soberano nova intercepção:
-Homens de caça e e de montanha com olfacto bem apurado. Estais certo quanto à naturalidade do sujeito, mas errado na sua função. Ele de facto é natural de Borren...
-Eu sabia. Um espião! Haveis mentido a Saemon. - Acusou Arnacles 
-Nunca disse que ele era de Ischtfall. Apresentei-o como meu general e é o que de facto ele é. Borren caiu aos pés de Orgutt!
Saemon acusou a gravidade da informação, estacando abruptamente diante do soberano:
-Borren caiu?
-Assim como Samerti e todas as cidades a Leste...
-Por Matuka, começo a entender a vossa preocupação. Segui-me!
Todos caminharam apressadamente em direcção à Citadell, tida como o coração da Montanha de onde outrora saíam os minerais que Ischtfall requisitava e onde hoje é o centro de maior densidade populacional da Montanha.
Rasmen observava incrédulo a precariedade das habitações, os rostos de fome que lhe surgiam e lhes seguiam os passos. A Citadell não era mais que um aglomerado de casebres de pedra emparelhadas, cujas frestas eram tapadas com barro tosco, com várias fogueiras apagadas ao redor e onde crianças e jovens sujos e aparentemente mal nutridos  brincavam ao redor de porcos pequenos, festejando a presença de poças de lama que o degelo provocara.
-Desculpai as nossas crianças, mas o fim da neve significa alimento para eles. - Explicou Arnacles adivinhando o esgar de nojo presente na face de Rasmen.
-E no entanto elas são felizes - Retorquiu o recém nomeado general de Ischtfall
-Claro, não têm mais nada. - Soltou Arnacles sorrindo.
Rasmen estava siderado no seu âmago por tais criaturas. Sempre ouvira a descrição deste povo como Bárbaro, sem qualquer interesse cultural e sem modo de vida civilizado e agora a plenos olhos, constatava isso mesmo. Como poderia o seu soberano recorrer a um povo assim, sobretudo contra o glorioso e invencível exército de Orgutt?
-Como podem viver assim? - Inquiriu abertamente Rasmen
-Matuka nos ensina a amar todas as coisas e todos os seres como se fossem nossa família. O respeito e o amor por todas as coisas vivas da Natureza é aquilo que te tornará aos seus olhos único, feliz e em paz para com o mundo.
-Pois, quem dera que Orgutt nos amasse assim também. - Concluiu um general cada vez mais incerto da importância da sua presença ali.