quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Lápide - Capítulo 13







O Amor não é um corpo que nos chama na cama,
não é ter compatibilidade ou a harmonia da empatia .
O Amor esventra-nos,
 dilacera-nos,
 morde-nos a alma,
não se acalma com nada.

Inês Dunas: O Amor não tira senha na Segurança Social...



"Antes isso que chegar lume e deixar arder"


Abro as  janelas de par em par, deixando entrar oxigénio,  pólen, poeira e tudo o mais que o tempo e o vento trouxerem. Anunciam períodos de chuva, o que não sendo propriamente raro neste país, é sempre uma condição chata e peculiar. Pois que entre a chuva também, que inunde, que encharque e que devore esta habitação, este mausoléu de dor, um santo sepulcro conspurcado por lágrimas de passado não muito remoto.
Tu olhas-me com esse ar de incredulidade, ainda às voltas com a falta da mala, que eu obviamente não comprei, mas também não te disse o porquê. Como poderia eu dizer que acabara de ver e falar com um fantasma, vulto já sem cor nem sabor de uma outra vida acabada há semanas atrás e oficializada hoje. Interrompi-te o discurso, as indagações e a perplexidade e dei aos teus lábios o bálsamo devido da minha boca, a língua que cantará odes em tua homenagem e que agora invade os recantos majestosos dessa tua boca que constrói as verdades mais Universais em tempos de incertezas.  Vá, vamos embora de vez. Abandonemos esta casa, sussurrei-te eu ao ouvido num suspiro mental, mas não sem antes nos despedirmos de tal vil sepulcro. Calemos a morte do tempo que passou e celebremos a vida pulsante dos minutos, horas e séculos que nos aguardam. Vamos celebrar  a subida à eternidade como os Romanos celebravam na glória da batalha vencedora. Arranco-te a folha de papel amarela por mim escrita, igual a tantas outras que espalhei pela freguesia a anunciar leilão de recheio, com a morada certinha e o dia marcado. Deixemos esta questão pois estes bens são meus ainda, bem literalmente metade deles serão e já não quero saber de metades, já sonho com o Uno, a mágica unidade de nós dois num só futuro.
Vem bela ninfa, pede-me que me venha no teu colo, em espasmos de prazer efervescente. Pede que manche, que te inunde, que te marque o senhor teu colo e se crie uma nova devoção, beatificação de meu sexo pulsante. Segura-o com a mesma firmeza com que abrias a minha porta de casa de manhã. E observa o contorcionismo próprio de um pedaço de carne quente enquanto extensão máxima do teu,meu ...nosso desejo. Beija-o e prova-o num beijo aspirante a sucção momentânea, deixa que o fruto da tesão, vertida em sémen de branco imaculado te percorra a boca, fecundando o palato e cobrir a língua. Duas voltas até o soltares, para que te marque o queixo e morra na descida para seios. O amor não é isto, isto é perversidade, imoralidade, trauma, desequilíbrio, emoção, momento...Mas talvez o amor não sendo isto, se manifeste neste prolongamento de meu corpo, de carne esvaída em desejo na boca que aprendi a amar e a desejar.
Ouço os teus passos incertos em direcção ao carro. Estrategicamente nesse teu jeito único de ser, deixas-me a sós para qualquer despedida que eu pudesse fazer, para um último pensamento, talvez um último lamento. Mas eu sorrio de prazer. Abro as portadas das janelas de para em par, abro as gavetas dos móveis do quarto de par em par e parto para o carro, para a tua beira, sem fechar a porta. "Antes isso que chegar lume e deixar arder" era o chavão proferido pela minha Ex sempre que algo corria mal. 
Entro no carro, a estrada negra de alcatrão nos espera, tu sorris esperançada. Que se dane a mala, não levo nada, vou nu, sou rei da loucura e por decreto real posso ir nu, desfilar na passadeira invisível dos olhares que eu não verei, mouco dos comentários tinhosos de uma vizinhança que jamais verei e livre, livre para te ter enquanto tiver vigor, enquanto tiver ardor e enquanto tiver amor, esta coisa ardente que me explode no peito em tremores de vulcão renascido, este amor que me havia fugido, soterrado nas rotinas de passos e sorrisos perdidos....Como eu estive tantos anos sem sentir isto? Como eu estive tanto tempo alheado da felicidade transbordante de sentir falta de alguém a todo o momento, mesmo quando esse alguém dorme a meu lado. Tenho medo de ter perder e essa é a mais pura verdade. Tenho igualmente medo de te ver envelhecer, não por te estar a ver a definhar mas porque cada dia que passe é mais um dia que o tempo roubará os teus lábios do meu corpo e quando já não houver forças para um beijo, que me deite ao lado do teu olhar e reviva contigo todas as emoções que empolaram nestes novos dias.
O roncar do motor levava-nos assim para o nosso refúgio, o nosso canto idílico, a nossa nova vida, feita no embalo do teu regresso. Sim querida este é o meu grande plano. levar-te ao Norte, devolver-te às tuas raízes, deixar-te beber o vinho de sangue familiar, apaziguar os mal entendidos e por fim voltares a sorrir no sítio onde sempre deverias ter estado. No nosso lar, no meu colo, mas junto dos teus.
Foi sensivelmente a meio da viagem que tu percebeste as minhas reais intenções e uma vez mais os teus olhos brilharam, como um clarão de dois faróis em dias de nevoeiro cerrado. Como o tinha feito? Quando tinha eu congeminado tal plano? Porque não a consultara previamente? Perguntas que tu formulavas na tua mente mas não as dizias e contudo eu lia nos teus  olhos essas questões. Entrava na tua mente e saltava a corda com estas tuas questões e rebolava no chão do teu lóbulo parietal, estendendo-me ao comprido no lóbulo frontal, misturando as tuas emoções e o raciocínio e saía para assistir divertido  à tua sensação de perdida.
Simples, respondi eu como se tivesses realmente formulado as questões...Improvisei! Assim sendo cara preciosidade da minha nova vida, não há hotel marcado, não há qualquer contacto, não sei ao certo como vai ser, mas há apenas este maço de notas no bolso e uma vontade enorme de te aprisionar a uma cama e me perder em ti durante muitas e muitas horas.
No fundo, talvez esteja a ser parvo. Talvez tenha deixado a casa saqueada por qualquer vândalo que resolveu entrar, talvez tivesse agido com mais ponderação, talvez tivesse tido mais juízo, talvez tivesse te contado o meu plano, talvez te tivesse sugerido que ligasses a teus pais, talvez tivesse ficado....
Soltei uma gargalhada bem audível, acenei a cabeça e piscando-te o olho, confidenciei-te, enquanto a minha mão livre subia na tua perna:

" Antes isto que chegar lume e deixar arder"

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Lápide- Capítulo 12








A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida."

  Vinicius de Morais



Lambe-me o sal do suor inglório
Chupa-me as lágrimas de derrotas vertidas
E ergue-me ao colo, em promessas sentidas
Carpe Diem no resto dos nossos dias

Loucura de risos suspeitos
e beijos a despeito...
em tapetes de jasmim cuspido.

E de tudo o mais

Que ao corpo faça bom proveito!





O CONFRONTO




Sabes Maria gosto do cheiro com que me brindas todas as manhã. Gosto de te sentir ao meu lado, o te corpo quente, a tua pele macia mas com as marcas de idade, as imperfeições na tua barriga de pneuzinho a surgir. Gosto do teu respirar ao meu ouvido, como melodia de Led Zepellin e amo as tuas mãos na minha cara, no meu pescoço, no meu peito. Derreto-me sobretudo quando as metes por baixo da camisa de pijama e sinto os teus dedos a brincarem com os pelos do meu peito. Maria doce Maria. Sabes Maria gosto do cheiro com que me brindas todas as manhã.  Enquanto passo as costas das mãos na tua face sempre tão serena, sempre tão brilhante e fico a ver-te caminhar pelo chão do quarto, coo uma deusa, a minha deusa Maria doce Maria! 
Uma amiga minha disse uma vez que o amor era um relógio de cuco cansado e de certa forma ri ante a analogia deliciosa de algo tão efémero que nos pula cá dentro, como o brinde preferido numa caixa de cereais, ou o super brinquedo num Kinder surpresa. Se o coração é a máquina do corpo humano, então a nível sentimental o meu deixou de ser Ferrari, para ser um amontoado de peças de lata velha agrupado, como atraído por um íman do desastre, do caos e do desespero. Achamos na nossa soberania empírica de donos das coisas que a felicidade é um direito adquirido à nascença, que é naturalmente nossa por direito e que tolo é aquele que se recusa a ser feliz. Temos mesmo o direito de sermos felizes ou será antes um dever que nos é delegado à nascença por uma entidade cósmica e maliciosa crente que vai surgir despiste a qualquer momento?
No fundo tratamos o amor como uma pastilha elástica de mentol que cuspimos no chão do desprezo assim que o açúcar e o paladar acaba e o nosso palato fica farto daquilo. 
Na  verdade nunca estamos satisfeitos, porque para nós homens a satisfação conseguida e atingida traz o fim das conquistas e dos prazeres surdos e secretos. Com o passar dos tempos, trocamos a paixão, essa loucura de viver,  por regras de convivência perdendo a genialidade de sermos capazes de surpreender, de sermos o rei no nosso quintal e o bobo da corte nos momentos intensos. 
A Terra deixa então de ser aquela bola colorida que gira e gira, cheia de seres mágicos e quase mitológicos para passar a ser plana, um visor de GPS 3D na rotina da vida.
Cada vez me convenço mais que os homens Lusos são efectivamente Apostólicos Romanos, pois tal como os Romanos  na antiguidade acreditam em várias deusas e ocupam a mente com bacanais romanos, enquanto aguardam com algum receio o surgimento do mesias e seus apóstolos para voltarem a colocar os elmos e lutarem por aquilo que os apóstolos lhes dizem que vale a pena lutar...Até que o enfado regresse.
E depois temos o sacana do Destino sempre disposto a aprontar das suas. No momento em que já declamava mentalmente o meu amor por Maria, eis que me volta a mente ainda a tua presença estúpida Laura.
Quis o acaso tonta ex-esposa que a minha heroína de trazer por casa e aconchegada nos lençóis que já foram nossos me recordou, na eminência da aventura que iria começar, que necessitaria de uma mala, uma pequena mala que senhora que se preze não viaja sem bolsa, mala e mochila, nem que fosse só até à localidade mais próxima e assim fui para a chuva, saltimbanco de poças de chuva, sapateando como Fred Astaire sem Ginger Rogers por entre as calçadas molhadas, esperançado em não me espalhar ao comprido. Agora mais do que nunca, nada me poderia suceder mas tinha que correr e correr. Enerva-me estes últimos pormenores que têm de ser resolvidos quando tudo o que queria era estar a arrepiar caminho.
Lembrei-me da loja ao fundo da avenida onde tu estúpida criatura compraste as malas para o Erasmos do puto e aqui estava eu de carteira em punho, a sacrificar mais alguns euros em coisa desnecessária, que por mim se atirava a roupa para a mala do carro e ala que se faz tarde.
Foi quando te vi no centro da loja, caminhavas serena e de sorriso rasgado, de calças de ganga e camisola de gola alta e aquelas botas de cano alto imensas que sempre fazias questão de usar, mastelando o nosso soalho como uma festarola de trovões, ias de braço dado com ele, o infeliz canalha que te levou, que te arrancou dos meus braços e da nossa casa. Tremi, não sei se da raiva de te ver a sorrir ou se foi do ar de feliz do canalha, qual pescador regressado do mar com o maior caviar do mundo nos braços. Temi, naqueles segundos seguintes fazer uma cena, erguer as minhas penas de pavão e cantar de galo guerreiro ou investir de cabeça como um touro, agora que tu estúpida ex-esposa me adornaste a testa, sobre a pobre criatura, mas ao invés disso contemplei o meu rosto no vidro da porta da loja e notei que sorria. Não se pode enganar a alma.
Dei por mim a rodar os calcanhares e caminhar serenamente na tua presença, lançar-te o meu mais sincero e feliz sorriso e tu que tremias e hesitavas, como se buscasses as palavras que a tua boca escondia na língua que te travava. Este é o Jean Paul, não sei se conheces, chefe de cozinha, como? Ah sim, conheci-o no workshop de culinária vegetariana. Lembras-te? Sim, aquele mesmo em que fiz questão que tu viesses e tu disseste que eras carnívoro...Sussurraste tu com medo não sei de quê! E pois sim, que cumprimentei o encolhido Paul de mão flácida ante o meu vigor e a súbita vontade de lhe dar um beijo na face, não só por me ter permitido descobrir a Maria e um novo recomeço ou por ao estilo mafioso Chicago anos 30, ser o beijo de despedida do padrinho, uma espécie de prenúncio de morte. Na verdade, pensei eu meio divertido, não o queria marcar de morte ou a fazer qualquer ameaça velada pois já me bastava o sossego de saber que após a primavera da relação deles e quando as andorinhas retornarem para outro calor, o inverno virá e ele verá a companheira com o mesmo enfado que eu a vi. Ou será que o Jean Paul chefe de cuizine vegetariano se apaixonará por outra febra?
Perdi vinte minutos a falar com o cada vez mais encolhido mestre das beringelas e afins, enquanto observava deliciado o teu ar de estupefacção. Saboreei cada minuto do nosso encontro que ainda perdido no éter do teu desconforto, vos arrastei para um café rápido e fiz todo o meu circo de prazer e risos e sorrisos, mas desta vez genuínos que me saiam sem esforço. Observei durante a conversa, as coisas que deixaste no WC esquecidas e confidenciei-te ter usado a tua camisa de dormir para limpar as manchas de whiskey que havia entornado nos primeiros dias. Pedi desculpa por ter deitado ao lixo a tua escova de dentes. Tu espantada não falavas, rias num misto de receio que tivesse enlouquecido ou só a ser cínico sem te dares conta que estava apenas a expurgar o que restava de ti no meu ser. Sim, defunta Leonor, menti ao afirmar que mudara a fechadura mas que daí a dois dias te deixaria a chave debaixo do tapete pois iria viajar e voltaria dentro de poucos meses. E os anos do nosso filho? Perguntas-te tu ainda atarantada. Ele que os festejasse numa party de arromba com stripers e tudo, mas infelizmente não iria estar contactável. Aliás já não estaria mais disponível, avancei eu de pronto enquanto fazia questão de pagar aqueles dois míseros cafés e o teu descafeinado. Assim que saísse da porta do café, que ela me desculpasse mas deixaria de estar contactável. Como? Não já não usava o mesmo número de telemóvel, nem tão pouco usava telemóvel, mas com certeza o destino se encarregaria de promover tão doce encontro nos próximos anos. Em despedida , mesmo segundos antes de te voltar as costas para sempre te falei da Maria, a Maria convertida ao meu catolicismo na igreja dos meus últimos dias.
E regressei a um lar que já foi nosso, sem mala para amostra, mas com uma vontade enorme de ser feliz.

















sábado, 3 de fevereiro de 2018

Lápide- Capítulo 11






Sabes-me ao sal de todas as lágrimas,
porque afinal,
só o coração que ama sofre o suficiente para viver intensamente
um amor de cada vez...

http://librisscriptaest.blogspot.pt/2013/08/




PARA TI MARIA!


És carne, és osso, és sangue, és vida! A minha vida e eu sou o teu Dexter amador, sem grande espalhafato e sem técnicas de cinema. Sou o  bisturi encantado, amador, improvisado, dissecando o teu corpo, morto de prazer e de amor, cortando cada pedaço de ti, às fatias finas, abrindo pequenos cortes milimétricos, embebedando-me no teu sangue, sorvendo-o como parte de mim, separando as vísceras, afastando os órgãos, não sem antes os beijar e lamber e provar, como alimento vital e coloco-os a meu lado, para que os possa olhar, admirar, venerar...Altar de tudo e de nada.

Depois mergulho no que resta de ti, num mergulho olímpico de prancha imaginária, de braços bem juntos e hirtos com as palmas das mãos bem unidas, para poder aprisionar nelas a tua alma, impedi-la de a fugir, de a perder.
Porque tu, doce Maria dos meus mais secretos desejos, mulher de tentação e perversão despertas isto em mim, colocas nas minhas mãos o teu/nosso futuro, que o presente escorre em sangue nas minhas mãos e o passado, esse período visceral será para o balde dos desperdícios, do esquecimento, do intemporal, do vazio mental. Já não o uso e já não o quero, nem como memórias. Para ti e para mim a partir de hoje sofro de Alzheimer, só me recordo de ti, de nós , do teu corpo quente, das covinhas na tua face quando te ris, do teu arquear de sobrancelha quando te surpreendo...ó como eu nunca tinha visto isso e do meu sexo quente, como chicote nos teus seios, na tua boca, em todos os destinos que a carne e a tesão consentem.
Sou para ti apenas uma foda? Gemeste tu na noite passada, encharcada em meu sémen, com aparência de violentada na nossa cama sagrada. Não, doce corpo de pecado, luz ao fundo do túnel de minha vida, chama da minha glória terrena. Não és foda, és um conjunto de fodas eternas que daremos em suaves prestações diárias, como pagamento ou cumplicidade das prestações ao minuto deste nosso acordo sagrado. Creio, deusa de seios fartos e de mamilos pontiagudos que és mais carne que razão, a minha que foi perdida. que foi fodida por um passado certinho. És a alegria do meu ser animal, que se banqueteia como lobo solitário de dentes curtos e afiados, que te rasga e te devora, até mesmo com o olhar.
Mas também és a estátua de fecundidade, de cabeça de golfe com buracos, seios fartos e pneuzinho que agarro e mordo, minha Vénus de Willendorf, ou imagem de Virgem imaculada de alma serena e luz angelical. És tudo e não sou nada, seremos apenas e se fores uma foda e eu o martelo da arrogância que te toma à noite só porque este meu lado de lobo te chama, antes sejas meu alimento que virgem em desespero de não me ter. Sei lá, somos e seremos...
Não me respondeste à pergunta! Remataste tu, de lábios desenhados no meu peito e se calhar até te respondi, não sei. O que importa é o agora e ambos estamos precisando disto. Menti-te à laia de esconder dos teus ouvidos o meu plano maior, o meu fim de nada e principio de tudo, que guardei para nós.Porque cara paixão eterna,o amor é agora, é já e não se fala mais nisso nem se perde tempo. O amor é um pássaro livre, que aprendeu a fugir do seu cativeiro pelos seus próprios meios, batendo as asas de anjo num piar sonoro de triunfo sob a melancolia do desespero do silêncio dos anos passados em pó de candelabro velho e móveis rangentes.
A paixão é uma esponja de banho, molhada e esponjosa que percorrerá com a devida espuma todas as curvas do teu corpo, adivinhando-lhe as zonas sensíveis, limpando as feridas da minha brutalidade fogosa, removendo as minhas, nossas acções mais impiedosas talvez abrindo caminho para outras mais, num creme hidratante que durará a eternidade e eu serei ou pretendo ser a brisa de vento de verão que te secará e te prepará para a eternidade que nos espera.
Doce e querida Maria, flor de meu desejo, carne de minha tentação e semente do meu mais recente e  promíscuo desespero, contigo tal como o amor, não tenho idade, não tenho passado, não tenho ilusões, não tenho sermões só doces e lânguidas tentações.
És a razão da batida célere do coração no meu peito, do pulsar quente e frenético do sangue nas minhas veias, razão do meu desembaraço tão embaraçado que estava.
Gosto quando te encosto á parede, quando te apanho de surpresa e de meter a minha mão dentro do teu vestido, apalpando-te, brincando com teu mamilo, preferencialmente o esquerdo e deslizá-lo pelos meus três dedos da mão esquerda, num escorregar e dedilhar de improviso, assim como os beijos que os descarrego no teu pescoço, forçando-te a olhares para o outro lado, na secreta esperança de ainda te surpreender, como se houvesse carícia ou provocação minha que ainda não conhecesses.
Amo-te, porra como te amo! Amar, minha deusa de colo sagrado  amar intensamente cada palavra que sai e sairá dos teus lábios,  cada olhar transviado e carregado de desejo que me darás, pão nosso de sustento de mim e da minha alma empedernida que estava num passado de meias frases e ausência de beijos. E ó como são doces os teus lábios, carregados de esperança e tesão, de língua sibilante e tortuosa que me encharca a boca, a mente e  que se enrosca na minha língua como jovens apaixonados num banco do jardim, que me explora em lambidelas quentes o meu pescoço, o meu peito, a minha carne em suspenso, pedaço de mim hirto que tão bem o trata e o colhe na boca num vai e vem de ternura e capricho.
Agora a nossa vida é essa estrada linda, larga e límpida de quilómetros de prazer, sem curvas ou sinais de perigo. De bermas floridas, com árvores de frutos proibidos e jasmins perfumados que se curvariam ante a nossa passagem. És minha, sou teu somos nós, os dois e apenas os dois de mãos dadas num raio de sol chamado de eternidade, minha sinfonia esquecida de Mozart, dedilhada em finas teclas brancas de marfim, tão brancas como os lençóis dos meus, nossos sonhos mais molhados.
Eu não soube viver, não tive arte ou engenho para crescer, não evitei o amadurecer.Outrora era um sujeito inútil, zombie sem vida,
 enfiado num fato pardo como a minha vida, sempre a correr para o trabalho ( e para quê, se ele não fugia? Se ele continuaria ali pelo menos o dia todo) e de volta a casa em passo acelerado e de novo pergunto para quê? Sem filhos à espera, sem fogo na cama que me movesse, sem picante à hora da refeição....Para quê?
Todos os humanos são assim creio. Sempre cheios de pressa, sempre cheios de vontade de ir para qualquer lado. Aquela mãe que sai do trabalho para ir buscar os filhos à escola e vai a voar para casa, para lhes fazer o jantar ( sim, não vai brincar com eles, nem perguntar-lhes como foi o dia, nem se eram felizes) e depois do jantar o banho a correr ( modalidade maternal quase olímpica), o pijama em contra-relógio e cama antes que o petiz se lembre da birrinha. E então estafada que está, olha a loiça suja amontoada e chora por dentro, um choro invisível, que se vai amontoando até transbordar e nessa altura o petiz está na faculdade e já não tem tempo...E nós homens de barba rija o que fazemos? Um olhar de relance ao rabo da colega do escritório, a corrida desenfreada para o carro, o trânsito, as filas, os cigarros, o tamborilar dos dedos no volante, o irresistível sorrisinho à condutora do carro ao lado, ou a pesca dos macacos do nariz(igualmente modalidade masculina quase olímpica, seguida preferencialmente pelas quatrocentos e vinte e sete coçadelas às partes baixas, sob as calças) e para quê? Para chegar em casa, ver a criatura a aclamar as criaturinhas, ligar a TV, descalçar os sapatos e contar mentalmente os minutos até ao jantar, onde será dito algo entre amuos e muitos acenos de cabeça, sempre de olho nos petizes com medo de uma birra de circunstância.
Mas é pior os que não têm carro, que se oferecem como cobaias para serem colocadas num comboio apinhado de gente igual a nós, com o mesmo desejo de sobreviver e que vai ali a pensar na vidinha (como se de facto a tivessem ou a controlassem). Homens como eu rezando para que à sua frente fosse uma miúda, já que provavelmente seria o único encosto que teriam com  o sexo feminino nessa semana.
Agora eu sei que errei, que estava errado que fui apunhalado pela minha cúmplice deste crime de sobreviver. Paz à sua alma!  Agora eu vivo, estou vivo e respiro felicidade e energia em cada poro do meu corpo. Agora estou livre, já quase não tenho amarras e isso mesmo te tento explicar doce Maria, enquanto os meus passos desenham círculos imperfeitos no tapete da sala. De dedo no ar como professor de antigamente, eu o senhor sabichão, eu o verdadeiro profeta da nossa salvação, da nossa luz, renascido do fundo do mar negro do meu passado. Agora que te tenho ao meu lado, agora que realmente sou teu de devoção e coração volto a ter uma razão para tudo, para ser tudo, para fazer tudo.
Expliquei-te talvez um pouco nervosamente os meus planos com uma minúcia que até a mim me surpreendeu e adivinhava a surpresa na tua cara. Não te contei tudo obviamente, mas a parte de tudo que também era tua.
Tu rias e dizias que não, que por favor tivesse juízo, mas sabias tão bem quanto eu que juízo era coisa que recusava ter. Afinal o plano era perfeito e só o era perfeito porque era para ti. Abandonaríamos tudo, aquilo tudo excepto o carro. Mudaria de nome no cartão de cidadão se preciso for para que nos deixassem em paz e assim passaria a ser" Servo de Maria" ou "Para Ti Maria"!
Seguiríamos à aventura, sem remorsos, medos ou hesitações. Logo se veria, menti eu que tinha uma nobre intenção escondida, para onde e por quanto tempo.
Seriamos como dois adolescentes num inter-raill do destino sem bilhete de volta, dois adolescentes em corpos quebrados pela idade a aprender de uma vez por todas que todos os segundos que respiramos são uma benesse divina e acredita paixão da minha alma, já perdemos muitos segundos cuspidos de enfado.
Partiríamos pois e não se falou mais disso, a luz apagou-se, as minhas calças abriram-se e a tua mão o procurou entre risos.