segunda-feira, 15 de abril de 2019

Lápide - Capítulo 19






a vida é uma louca passagem
que só nos traz bagagem...
Gemido engolido pela racionalidade.
Não podemos ter tudo o que queremos...

Inês Dunas: Bife Tártaro



E AGORA PÁ?



O tempo arrastava-se devagar, como uma marcha fúnebre ensaiada para propositadamente dar o ambiente pesado à comoção dos meus dias.
Aprendera neste curto estado de tempo a gerir as dores dela e o nosso infortúnio com uma destreza física digna de qualquer ginasta e o dia-a-dia era o meu arame, que percorria de braços esticados e guarda-chuva aberto, para que o equilíbrio de quem fomos e seremos se mantivesse.
Às vezes, só às vezes, procurava no meu silêncio novas palavras que nunca lhe dissera e acercava-me de mansinho, com medo que tal procedimento a assustasse e proferia ao seu ouvido a jóia que acabara de descobrir e ela claro, louca das minhas loucuras e àvida dos meus devaneios ria e sorria consoante o esgar de dores lhe permitisse e escondia dos meus olhos, a crispação das marcas que noites e noites acordada lhe deixavam não só no rosto, mas sobretudo no olhar perdido e vago que ostentava sempre que ficava só.
Por esses dias resguardava-me sempre que podia no meu “pomar” assim dito como se fosse uma extensa área de árvores de fruto, quando mais não eram que quatro formosas árvores, duas delas ( os meus orgulhos) com excertos de fazer inveja a muito bom agricultor. Mas fugia para ali, não propriamente para cuidar das ditas, que nisso o Salvador com a sua destreza de mãos e conhecimento vivo da arte o fazia, mas para tão-somente organizar ideias, recuperar forças e ocupar o meu espírito com longas conversas com Salvador. Ah, Cara Mia se soubesses as longas dissertações que tal criatura proferia sobre a vila e seus habitantes, acharias que daria pois por bem empregue essa minha fuga e esse meu tempo gasto à socapa da tua presença.
E foi então, nessa fria tarde que o vi. Corriam os primeiros raios de sol do início da primavera , mas era ainda um sol de abril, fraco e distante como o tempo antes de entrares na minha vida. Vi o seu rosto pela janela do carro e não precisei de segunda confirmação para o identificar. Um pai conhece sempre os seus filhos e a tesoura da poda quedou-se estática e inerte na minha mão. Creio, mulher da minha vida, que nunca te cheguei a contar pormenorizadamente este nosso reencontro, até porque não te pretendia maçar o teu tempo com imensos detalhes, mas aproveito para te contar agora.
Álvaro estava crescido, era já homem de barba áspera sobre o rosto, que lhe cobria as imperfeições do Acne que outrora lhe marcaram a adolescência e de início não percebia como diabo ele me encontrou ali. Exactamente ali, ali…O sítio que eu escolhera para refúgio de tudo, para longe da tua dor, da minha impotência no aliviar dos teus sintomas. Ali, o sítio que comprara para fugir aos teus esgares de dor e às correrias dos ponteiros do relógio, em que imóvel ao teu lado te via definhar, mesmo durante as curtas pausas em que dormias. Não! Ali não era nem o momento nem o local para tal reencontro. Pousei o utensílio de corte, sacudi as mãos, como para me certificar que nada levava daquele quadrado sagrado e sem proferir qualquer palavra a Salvador dirigi-me a ele e de mãos nos bolsos expus-me aos seus critérios, ao seu juízo de valor e ouvi da sua boca os disparates sobre os ter abandonado, sobre o meu falso amor, a minha falsa paixão. Que diabo, como podia explicar ao miúdo que só se sabe o que é o amor, depois de ser pai. Até esse momento o amor é coisa vaga, algo lírico, uma mentira de S Valentim, uma cuspidela arrogante do capitalismo…E vendem-se livros e fazem-se filmes e inventam-se baladas para nada
Não há, nem existe no Mundo, ou mesmo neste Universo maior amor que segurar uma criatura recém-nascida nos braços e saber que de certa forma somos os responsáveis pela existência de tal Ser. O sorriso, o choro, o cheiro a recém-nascido e hipotéticas fraldas sujas, nada se sobrepõe ao amor incondicional enquanto Paeter desse Ser. Levei algum tempo a perceber isso mesmo, passei uma vida alheio das minhas responsabilidades e de certa forma, enquanto homem, vivia distanciado, direi mesmo, colocado à margem de todo este amor, de tal forma, que Cara Mia, chegava por vezes hipoteticamente e na distância que a minha ex obrigava a ser o gajo que ganhava para o sustento das criaturas e por incrível que agora pareça, no meu cérebro, na minha mente eu tinha consciencializado que seria apenas isso.
Mas não, contigo, paixão da minha alma eu percebi que o amor é aquele amor que nos obriga a sonhar acordados, ou a acordar a meio da noite e permanecer três dias com um sorriso parvo no rosto só porque sonhei connosco a ver estrelas ou algo assim. O Amor é saber que não obstante sermos mortais, temos a imortalidade dos momentos gravadas a dourado no pensamento e que jamais, mesmo que o corpo apodreça, mesmo que a carne desapareça, isso será apagado da minha alma.
E ele contava-me no seu tom de voz duro que eu reconhecia tão bem das suas birras na infância, a deliciosa história do abandono do lar de portas abertas que eu propositadamente deixara e de como o interior tinha sido alvo de larápios, das intempéries, em que a água da chuva tomara de assalto formando verdadeiras poças de água nos divinos, caros e pesados tapetes que a minha ex-mulher, senhora sua mãe tão orgulhosamente os gabava. E falou-me, do alto da sua sapiência, do cimo do seu metro e noventa, da minha indelicadeza em ter sumido do mapa, na viatura que ela tanto gostava, entregando a sua mãe de mão beijada, no desespero da minha partida, nas mãos de um crápula que lhe batia deixando-a com marcas visíveis na alma e no corpo e eu calhorda e cobarde, aparentemente sem remorsos de toda uma vida vivida e com filhos criados, perdido que estava por uma paixoneta fetiche, própria da crise da minha meia-idade,(como tão bem a sua mãe me diagnosticara, com base nos seus vastos conhecimentos adquiridos na revista Maria), ter abandonado tudo e todos, sem qualquer ponta de rancor. Só podia, na opinião da dita senhora, ser algum problema mental ou pior, qualquer evocação de uma poção mágica misteriosa que a bruxa da empregada me tenha dado a beber.
Tudo isto ouvia eu calado, sentado na mesa quadrada do café da aldeia, para onde o levara, bem em frente ao andar que ocupava com essa minha suposta paixoneta. Olhava-o volta e meia de soslaio, na ânsia que cada palavra por ele proferida fosse o final do seu monólogo, mas ele continuava e eu desesperava pela quantidade de oxigénio que a criatura gastava em vão.
Quando finalmente, após ter pousado a chávena de café no pires ele se calou e refastelando-se na cadeira aguardou o contraditório, provavelmente convencido que da minha boca sairiam mil e uma desculpas em catadupa, num arrependimento mortal próprios de uma mente confusa ou deturpada, sorri e brincando com a minha curta barba apenas lhe perguntei, sem qualquer ponta de maldade ou cinismo:
-És feliz?
-Que...Não estamos a falar de mim pai!
-Não. Estamos a falar de mim, mas para que me compreendas preciso que me respondas.
-Se sou feliz? Sei lá isso é relativo e nem penso muito nisso.
-É como a morte. Nunca pensamos muito nisso até ela chegar...
-Pai, não desconverses! A verdade...
-A tua verdade, aquela que te puseram nessa cabecinha é que eu olhei para o cu da nossa empregada e num acesso de loucura saltei-lhe em cima, depois meti-a no carro e trouxe-a para aqui para me servir dela até me fartar, certo?
O pequeno grande homem, (porque no fundo, apesar de toda a sua altura e idade não deixava nunca de ser o meu menino, a minha criança feita cada vez mais à imagem e semelhança da cruela sua mãe), olhou-me incerto sobre o meu aparente sarcasmo e porque já havia sido previamente formatado por ela, concordou num sorriso amarelo:
-Algo desse género.
E demoradamente, com todas as pausas do mundo para que ele pudesse assimilar na amplitude máxima da magia da minha descoberta numa nova realidade a dois, que talvez fosse alternativa mas nunca ficcional, lhe narrei o verdadeiro abandono. O da sua mãe, que me deixara perdido e desnorteado. Que me descartara, acabado, rasgado, comido e cuspido numa vida a dois, a três e a quatro sem sentido, num lar que não era um lar, mas uma ala psiquiátrica do mais denso nível e de uma vida presa a um emprego que nunca fora verdadeiramente o meu, mas a minha prisão física e mental. O abandono, a fuga para a frente que ela escolhera, junto de um novo prisioneiro, um novo canalha, sem uma conversa franca, sem uma justificação, sem um testamento de vontades, mas com telefonemas de advogados....E graças a Deus, aos santos e a todas aquelas divindades criadas na imaginação humana que tal sucedeu.
-Sabes, - Contava-lhe eu com o mesmo tom de voz que usava na sua infância para lhe explicar o mundo- Somos tão formatados por tudo o que nos rodeia e nos deprime, tão cegos pela falsa luz de uma razão qualquer que nos atiram para cima que raramente nos apercebemos  que a felicidade é um pequeno passo. Bem sei, pobre rapaz , que parece uma frase feita sacada de qualquer livro de auto-ajuda, mas nem sempre temos o dom da palavra que nos permita com exactidão descrever tudo aquilo que o coração debita à nossa mente.
Vi-o a ir ás cordas, a aproximar-se de um K.O. técnico e justo na nova realidade das coisas que foram assim e não como lhe contaram, mas este não era mais o meu ringue, as lutas do passado, as vivências do que foi e do que se sucedeu já não eram tema de debate na minha mente e sem laivos de misericórdia falei-lhe da doença que consumia a minha companheira, de como mesmo estando ela dependente de mim, eu continuava dependente dela, sempre sequioso dos seus beijos, dos seus afectos, da sua companhia. Falei-lhe do estado terminal da doença, do talvez seja breve, talvez ocorra numa noite destas que surgirão ameaçadoras, ou talvez ainda dure mais uns anos. Talvez o destino, esse senhor de todas as coisas, permita que eu a carregue o colo, areia dentro para saborearmos o mar uma última vez, ou talvez adormeça nos meus braços e Morfeu a leve de mim e era precisamente essa incerteza que me fazia amá-la em cada segundo da minha vida, que me trazia a certeza que quando essa hora chegasse eu não estaria obviamente preparado mas ficaria em mim a certeza de em todos os momentos em que estivemos juntos, sempre ter guardado os melhores momentos que ocupariam a minha mente nas noites em que solitariamente me deitasse já sem a sua companhia.
Contei-lhe ainda como em todos estes anos ela havia moldado o ser imperfeito que sempre seria, na perfeição dos seus olhos e no modo como me olhava, como se eu fosse a Torre Eiffel, ou qualquer monumento consagrado e que isso acarretava a certeza de finalmente saber o que é ser amado e que se ele estava ali, à minha frente era precisamente devido à arte e engenho de quem, temendo partir deste mundo a qualquer momento, possibilitar que de certa forma eu me pudesse reunir ao meu passado e abrir as portas do meu coração aos meus filhos, numas contas a ajustar não só comigo mesmo, mas com eles. 
Ele demorou o seu tempo, de rosto contorcido na incerteza dos sentimentos que lhe assombravam os vestígios remanescentes de raiva que rapidamente se dissipava do seu rosto e num tom de voz pesaroso indagou a medo:
-Então és feliz?
-Todos os dias e a cada segundo desde que a tomei nos meus braços.
- Desculpa pai...
-Devias a ter visto a dançar, nos seus dias de glória e loucura. - Desabafei orgulhoso da memória visual que me assaltava o espírito
O pequeno grande homem pousou a mão dele sob a minha mão enrugada, apertando-a ao de leve e olhando-me intensamente, perguntou por entre os finos lábios:
-Então e agora, pá?

quinta-feira, 14 de março de 2019

Lápide - Capítulo 18


https://www.youtube.com/watch?v=NGorjBVag0I


A dança é o teu abraço,
o teu unguento,
a tua cura,
a tua vida!
A loucura que te mantém
e te sustém quando tudo o resto falha...

Inês Dunas: " My Wings"


SAVE THE LAST DANCE FOR ME...



O tempo seguiu o seu percurso e o corpo foi-se desgastando ao sabor dos dias incontáveis de energia auxiliar que foram gastas nesse nosso caminhar juntos. A aventura de um recomeço de vida, desta vez a dois, em que eu distante do passado tenebroso que me perseguia e me diluía num visco metamórfico que era tudo menos eu e tu, doce Maria ser angelical que procuravas a calmaria que o teu espírito rebelde nunca o permitiu, acertávamos agora agulhas  numas tréguas com o teu passado.
Foram seis anos em que aproveitando as sinergias que o pai havia deixado e alguns negócios que ele detinha, nos permitiu reerguer o nome da família e que de certa forma proporcionou à minha Diva Maria o ajuste de contas com o seu passado. Mas agora cerca de dois meses depois do último suspiro do seu progenitor, Maria a guerreira, mostrava as medalhas dessa louca batalha. Ou talvez seja eu a ser melodramático. Talvez a dor, a doença que a apanhou já estivesse à espreita, à espera do momento certo para se revelar, embora eu queira mais acreditar que a pobre doença que lhe foi gradualmente tolhendo a vitalidade e a força dos membros inferiores, estivesse a aguardar pacientemente  que a primeira batalha acabasse para então surgir requerendo toda a tua ( nossa?) atenção.
Dizem que o corpo é um invólucro, um amanhado de carne, pele e ossos que cobre algo de mais grandioso. A Alma, a nossa querida, amada e por vezes ignorada alma. O nosso centro do Universo, seja a Terra redonda ou plana ( ele há com cada teoria...) , mas o corpo é muito mais do que isso. O corpo...bolas, o corpo no fundo é a nossa representação corpórea, é a nossa caracterização enquanto personagens neste drama errante chamado de vida e somos livres de o mudar a nosso belo prazer, com ou sem bisturi, com ou sem pinturas e piercings. O corpo no fundo é a projecção da nossa ilusão e de quem pensamos que somos.  Mas Cara Mia, o corpo é frágil, os ossos  partem-se ou perdem a consistência, os músculos desaparecem, a gordura acumula-se e mesmo as artérias, essas auto-estradas do bálsamo da vida vermelho...perdão encarnado entopem. Assim, não obstante as unhas crescerem, os cabelos caírem e a pele ganhar rugas é no interior que surgem os pecados de uma existência.
Toda uma pré-vida de infelicidade e de rotina, toda uma pré-vida perdido em trabalho, toda uma pré- existência para te encontrar, para te amar, para te devorar, para te segurar numa dança eterna e agora que o tempo devia parar, agora que os ponteiros das horas e minutos e segundos deveriam congelar para sempre é quando mais rodam, quando mais aceleram.
E tu, Pitareca forte e guerreira, aguentando as dores constantes, a falta de genica e as quedas constantes porque as pernas cediam, nem um ai, nem um choro, nem uma lamuria saiam desses teus lábios mágicos que a vida me ensinou a beijar e a lamber. Tu que me olhavas de soslaio, mordendo o lábio inferior a esconderes as dores, com a tua atenção absorvida no meu respirar inquieto e preocupado e percebias como eu percebia o quanto me doía ver-te a definhar ao meu lado e eu impotente, perdido no meu embaraço de não seres árvore de fruto que pudesse salvar através de um qualquer excerto de raiz.
As noites que passavas acordada, sem sono, com dores e mesmo assim me procuravas no silêncio dos lençóis, invadindo as minhas calças ..."Ainda o levanto?" perguntavas tu a  medo, não convencida com o corpo que se erguia na palma da tua mão. " Como sempre o fizeste Maria das minhas tesões" replicava-te eu baixinho beijando-te a face, esticando as pernas e oferecendo-o ás tuas carícias ao teu toque  já sem a malícia e o vigor de outrora e no entanto fosse o meu corpo piano e os teus toques, as tuas carícias seriam ainda Mozart num manusear perfeito nesses cinco dedos de  doce moléstia, com que me castigavas e o obrigavas a manter-se erecto e firme, na força de um desejo ainda imenso e crescente onde só o enérgico palpitar do membro desencadeava o teu ténue sorriso de malvadez e de falsa arrogância no nosso jogo dos sentidos.
E de repente tudo mudara de novo, neste cada vez mais frio Inverno da nossa vida, que também a mim já levara as forças de poder te pegar ao colo, como tão bem merecias e te levar como se fosses uma criança pelo mundo, protegida de todos e abrigada de olhares piedosos e inquisidores. Pobre Maria outrora renascida que sucumbe agora,apesar da sua garra, às garras de uma PSP ( paralisia supranuclear progressiva) que se principiava a manifestar com toda a sua garra. Sim, doce Pitareca eu sei que tu ouviste da boca do médico o que eu ouvi, a descrição da evolução da doença e apesar de tudo ter parecido tão horrível, ambos ficamos convencidos que o pobre homem não nos contou tudo e no entanto, num jogo tácito, como se um juramento tivesse sido feito, nenhum de nós foi a correr para o google para pesquisar, até porque sabíamos que a verdade podia ser cada vez mais assustadora, embora eu te tenha omitido que cá fora, enquanto procurávamos a melhor cadeira de rodas para ti, o médico falou em demência. Que em certos casos se manifestava, talvez de forma leve, noutros era bem mais agressivo, mas como era uma doença rara não poderia dizer com precisão...Demência...Sorri baixinho e recordo-me do meu pensamento atroz...Pobre homem, dementes já andamos nós há uns pares de anos. Dementes de amor.
Mas na verdade, inigualável paixão, era agora meu dever não prometido diante de um altar, mas proferido a ti, pelos meus honrosos lábios e tendo por isso força-lei presente que sempre me terias ali ao teu lado, amparando-te as quedas, curando-te as feridas e se pior o cenário ficasse, eu contar-te-ia sobre as maravilhas que aprendera junto de Salvador, falar-te-ia do tempo e das estações do ano na importância do crescimento de novos botões de laranjeira e do vento...Como te poderia não falar do vento, esse velhaco assassino de rebentos de árvores de fruta, que surge num sopro maldito?
Recordo-me das primeiras vezes, aquelas primeiras vezes em que a doença te tinha pegado e te segurava, principiando a sugar-te a energia de vida que tão bem distribuías por todos os que te eram próximos e tu cansada, sentada com a manta sobre as pernas, enquanto ligava o aquecedor, preparava o teu chá e escolhia de entre a fabulosa colecção de discos de vinil que  teu pai falecido deixara, o companheiro do nosso serão. Pelas minhas mãos nesses tempos passavam The Platters, The Beatles, o Paulo de Carvalho que tu tanto amavas, o inimagínável José Cid e afastando a pequena mesa de apoio ( a mesa das bolachas e do chá como lhe chamavas) , pegava-te como se fosses de cristal e teimava que desses uns passos,( tu que resgataras da casa do teu pai uns horríveis sapatos rasos de verniz vermelho, com sola adaptada para sapateado e o que eu te gozei com tamanha aberração,levando a que vencida, guardasses os ditos o armário à espera de melhores dias) e num gingado "voavas" no meu abraço, imaginando-te uma fada suspensa no ar, em que os meus braços eram apenas ramos que te levitavam e faziam voar acima da copa das árvores, acima das nuvens, para o infinito e mais além e contudo, apesar do esforço extra a que te submetia, não parecias cansada, via o teu sorriso de paz e felicidade, entrecortado por trejeitos e esgares de dores mas era o calor do teu corpo, o teu cheiro, a  tua presença....As tuas mãos frias na minha face afagando-me a barba e o teu olhar embebido num amor tão natural....Ah e julgava eu não saber o que era o amor.
Mas nessa noite, quando nos deitamos ainda a remoer a consulta com o médico, senti-te estremecer e sabia-te a chorar:
-Psiu...Dá-me a mão, ignora as dores. Eu ajudo-te!
-Não são as dores...Sim, tenho dores, mas oh...Não é isso...
-Então?
Seguiu-se um incomodativo silêncio, não mais que uns três minutos como se procurasses dentro de ti as palavras certas, como se estivesses a consultar o teu coração às escondidas de mim e por fim, o dilúvio não só em forma de pranto, mas de oratória:
-Não há saída. Não vou melhorar e tu sabes. A partir daqui vai ser sempre a descer e vou provavelmente perder o andar. Não vou recuperar e nenhum medicamento do mundo me fará voltar a dançar nos teus braços. Não há milagres para uma pecadora, uma fedelha como eu. O meu pai tinha razão, não podemos ignorar o destino e o meu será como o dele. Morrer só, enfiada numa cadeira velha, atarracada de movimentos e não percebendo dia após dia porque Deus me mantém viva!
-Ei! - Gritei com toda a força- Que é isso agora?
-Vai! Não te agarres a mim, serei sempre uma prisão. A tua segunda prisão e me odiarás por uma vez mais te prenderem a uma rotina, te fazerem de escravo e prisioneiro do drama dos outros. Este é o meu drama e a partir daqui nada mais tenho ou terei.
-Maria, oh doce Maria, como podes tu ser prisão se é a tua presença que me faz renascer dia após dia? Como podes tu ser rotina, se todos os minutos a sós descubro novas formas de te amar, de te beijar, de te penetrar, de te idolatrar? Tu não és nem serás o meu drama, mas sempre o meu romance, o meu conto imoral, o meu Devir, o chão que aprendi a calcar, as assas que aprendi a usar e o meu coração, que aprendi a escutar. 
Recordo o modo desajeitado como ela tentou se sentar na cama, o braço como alavanca, o misto de dor e raiva espalhados numa face encharcada de lágrimas salgadas de autocomiseração:
-Vai. Segue a tua luz, o teu Destino. Contactas-te o teu filho como eu te pedi, reforça isso...Manda nova carta e por amor de Deus compra a porcaria de um telemóvel. Volta para o mundo dos vivos, dos saudáveis e deixa-me...Eu prometo-te ligar!
Ergui-me vagarosamente, esta era a minha doce guerreira a ultimar os termos de rendição de um passado recente. Esta era a minha heroína de capa e espada, antes quebrar que torcer. Encostando-me à parede, mostrando-me que tenho mundo lá fora, que ainda tenho saída, que ainda tenho esperança...Céus, será que a demência já se estaria a manifestar nela? Como poder ia eu abandoná-la? Voltar as costas ao que amo e desejo? Não podia, e acercando-me do lado direito da cama, onde ela se encontrava chorosa, peguei-lhe na mão, beijei os dedos, mordiscando-lhe os nós dos dedos e mirando-a serenamente, assegurei-lhe:
- Maria, eu que já fui trocado e abandonado, noutro tempo, num passado que não quero ter de volta, nem um regresso aos filhos, livros e cadilhos de outrora, eu que contigo descobri esta coisa fantástica de amar, partilhar e sentir, não poderia nunca partir. Nem que todos os teus membros caíssem, nem que o teu cabelo se perdesse e os teus olhos escorresem face abaixo. Nem mesmo que as tuas mamas rebolassem por este pavimento e o sangue corresse num leito de rio vermelho...Enquanto restar um milésimo de ti, enquanto ainda te puder ouvir e tu me escutares, enquanto houver algo de ti e de nós, nessa magnífica pessoa que sempre foste, mesmo que o salvado caiba apenas numa caixa de fósforos eu estarei aqui, dentro de ti - ao pousar a mão no seu peito senti o doce bater do coração- Amo-te sabias?
Ela limpou desajeitadamente as lágrimas no lençol, sorriu ao de leve:
-A sério que imaginaste as minhas mamas a correr no soalho?
-Ora bolas, eu sei lá. Sabes que consigo ser meio dramático.
-A tua sorte é doer-me tanto a mão e só por essa razão não te puxo essa barba.
-A minha sorte é ter-te aqui à minha frente.
Ela sorriu:
-Prometes que me levas a dançar todas as noites?
-Miuda, guardarei sempre lugar para uma ultima dança, no fim do dia...noite após noite, século após século.
-Posso ir buscar os meus sapatos vermelhos?
E pela primeira vez nessa noite rimos...de tudo, de nós e dos malditos sapatos.




terça-feira, 12 de março de 2019

Lápide - Capítulo 17




Tenho muito por que agradecer,
até as cicatrizes foram felizes descobertas
e não existem feridas abertas à espera de sarar!
O tempo não cura nada,
só a nossa loucura de viver nos pode trazer à tona d'agua!

Inês Dunas: Tic tac...

http://librisscriptaest.blogspot.com/2018/12/tic-tac.html



ONCE UPON A TIME...


Era uma vez .... tudo sempre na vida devia começar assim, um "once upon a time" alinhavado, redigido a sangue e perpetuado nas estrelas para que permanecesse imortal. Todo o Homem têm a sua fábula, a sua história de vida, a sua paixão de ter vivido ou sobrevivido às vicissitudes de uma vida madrasta, tão vil quanto as dos contos de fadas, com ou sem maçãs mas sempre vis  e eu e tu não somos excepções. Repara doce ninfa que pronunciei eu e tu e não o nós precisamente porque não há nós. Tu és a minha ninfa, tu és tu e és a luz da minha nova aurora, a razão do meu acordar e talvez a razão das noites em claro, perdidas em tacteamentos nocturnos pelo teu corpo, repousado e quente ao meu lado. Mas ainda assim somos duas almas penadas, seres incompreendidos pelo resto da sociedade, seremos génios ou loucos? Jamais saberemos , mas aquilo que importa reter é que somos a simbiose perfeita da loucura em todas as coisas e nas mais pequenas virtudes.

Espelho, espelho meu já existiu alguém mais feliz do que eu?

Eu e tu matamos um drama, uma desgraça inacabada e juntos começamos um novo romance, tantas páginas de magia que escrevemos agora juntos, epopeia dos sentidos, dos prazeres e amores correspondidos, best- sellers de uma vida recomeçada nos teus olhos, nos teus afectos e nos meus beijos.
Pitareca dos meus dias de vulcão, de relâmpago, de renascimento, de emoção, de prazer, de recomeço. Senhora das meus gestos, dos meus pensamentos, dos meus pequenos nadas. Personagem principal no meu romance, nos meus devaneios e eu cavaleiro de um romantismo que o tempo tinha calado, que a falta de paixão tinha enterrado e que ao meu coração fora negado, ergo a espada, monto a cavalo e luto agora a teu lado.
Tiveste a tamanha coragem de recomeçar, onde o teu pai deixara. Não do zero, mas seguramente do menos um.  Não sendo pessoa muito abastada, o teu pai tinha sido calculista e aqui e ali um pouco aventureiro. Criara duas empresas, comprara apartamentos e no passado enquanto a saúde o permitia geria pequenos negócios de vendas, mas o lucro, esse residia nas rendas cobradas a espaços comerciais que lhe permitiam um retorno mensal interessante. Mas tudo estava em risco, agora que o outrora forte homem se encontrava confinado a um lar , recuperando de uma forte mazela , a sobrevivência dos negócios estava em risco. Obviamente que tu, doce Pitareca percebes-te o que estava à vista e todos e ninguém via. Que teimoso como o teu pai era, jamais entregaria tal herança à gestão de um qualquer contabilista e mesmo contra a tua vontade mergulhamos de cabeça na escrita e nos negócios de família. Eu enterrado no sofá, redigindo cartas solicitando o pagamento de rendas em atraso e tu sentada na secretária de pernas semi-abertas, cabelo apanhado na nuca e de lápis na boca como se fosse um punhal. Abrias livros, fechavas cadernos, vasculhavas agendas, reunias folhas de papel dispersas por toda a divisão, coçavas a cabeça e eu reparava na veia saltitante do pescoço, numa pulsação nervosa. Ah, mas  não eram as contas, o deve e o haver, ou a parafernália de rabiscos que te enervavam. Nem tão pouco o facto do teu pai nunca ter usado um  computador e usar cadernos grossos azuis  que numerava numa ordem que à partida só ele entendia. Não, o que te enervava era o regresso a casa. Senti-o desde que entraste, nos teus olhos e nos teus lábios. Eram apenas algumas horas que lá passávamos, porque te recusas-te a deixar o nosso quarto alugado, mas essas horas mexiam  contigo, como se de certa forma receasses qualquer fantasma, ou ouvir a voz pesada do teu progenitor.
Nesta nossa relação habituei-me aos teus tempos de silêncio, a saber gerir as tuas expectativas e a torná-las minhas também. E quando o infortúnio, a má-sorte ou a fadiga te encontrar, estarei perto para te segurar, para te apoiar, para cerrar os dentes por ti pois afinal o meu caminho também se faz com os teus passos.
Por vezes lançavas-me um olhar de compreensão e nos momentos bons tinha até direito a um sorriso ténue mas límpido e sincero, como quem afaga a cabeça a cabeça de um animal de estimação grato pela companhia e presença deste, mas outras vezes fico invisível, dando-me a sensação de me ter fundido com o sofá e de já não estar ali. Temia, inclusivamente nesses momentos, que subitamente deixasse de ter existência corpórea, que me transformasse em nada, que ninguém mais me pudesse ver e que mesmo tu não me pudesses tocar.
Mas no recanto, no nosso recanto eu sabia que me vias e me dispensavas então toda a tua atenção que focaras nos pesados cadernos. Aí nesse instante eu era de novo o ar que respiras, o teu boneco articulado, a tua necessidade, a minha necessidade, as tuas carícias em arranhões vigorosos, as minhas mordidas em carne suada, quente...Os teus lábios, o meu puxar de cabelos, os teus gemidos, os meus queixumes de prazer. Não fazias amor comigo, nem tão pouco eu esperava isso. A cama era a nossa arena e a campainha da vitória soaria quando o cansaço, o orgasmo, o sono chegasse. Por vezes fazíamos pequenos intervalos, em pausas estratégicas, procurando uma nova posição, uma nova vantagem e lá voltávamos a um simulacro de luta livre não ensaiada, no improviso dos beijos e afectos e por favor que fiquem as marcas visíveis.  
O mais irónico de tudo, guerreira Pitareca é que ambos sabíamos que não precisávamos nada disto e muito menos que precisaríamos de algo do teu pai. Não que dinheiro não fosse um problema, mas ainda tinha que chegasse em horas de aflição e dada a tua recusa ( repulsa?) pela casa de teus pais, pelo que ele deixava ou pelo que ele pudesse ter, que se venderia a granel e se lhe entregasse o dinheiro. Certamente que ele não sairia a perder e amealharia algum que lhe permitisse um sobreviver tranquilo e simultaneamente um conforto na doença.
Mas era uma questão pessoal, talvez mesmo um ajustar de contas teu com  o passado e com o teu pai. Era algo que tinhas de fazer e que precisavas que fosse bem feito e sendo assim, nada mais me restava senão erguer a lança e te acompanhar em tal fervorosa batalha. As batalhas são para serem travadas no local próprio e no tempo certo e esta permitia em caso de vitória uma volta de honra vitoriosa no repisar das tuas memórias.
Eu sabia contudo que em segredo preparavas a grande arma. A mãe de todas as armas, a tua vitória seria fulminante e para isso precisavas de todo o tempo possível para conseguires o efeito esperado, agora que as barreiras familiares estavam caídas e a resistência do teu progenitor já não era a mesma. Mas não poderias cometer erros.
Preocupava-me contudo a opinião dos outros. Pensariam eles que só tinhas regressado para colocar em ordem as contas e amealhares para ti o dinheiro, deixando o teu pai entregue a um lar? Achariam eles que seria a minha presença, talvez até os meus conselhos que te fariam lutar assim tanto? Temeriam os outros, os restantes familiares. que voltasses a desaparecer, desta vez com toda uma hipotética herança? Mais preocupante ainda, estarias tu preparada para um julgamento do povo, regra geral tão picuinhas com a vida dos outros?
Mas o tempo, esse fiel conselheiro, haveria de te dar razão nestes dois anos que se passaram de intenso labor, fúria contida e explosão sentida no retorno de todos os teus ( nossos?) esforços. Nunca conseguimos deixar o nosso pequeno santuário à berma da estrada. Um segundo andar alugado à pressa, quando enjoaste o quarto de Hotel. Suficiente próximo contudo do lar do teu pai e  relativamente afastado do teu lar de infância. Era um meio termo, uma meia distância consentida num tratado de paz nunca assinado pelo teu progenitor, mas no fundo consentido por todos, até por mim. E deliciava-me como o modo subtil carregado de malícia que usavas no relato dos negócios ao teu progenitor. Recordo-me mesmo de quando anuncias-te que tinhas decidido aumentar a renda ao restaurante tal e após teres percebido o riso de concordância dele, logo anuncias-te como uma adaga espetada a sangue frio, que tal era normal, pois tinhas investido de novo nas canalizações e em outras obras e o teu prazer quando as feições do teu progenitor se endureceram, para logo de seguida espetares o que faltava da lamina ao anunciares, com requintes de malvadez, que entre o deve e  o haver, não obstante o aumento o lucro é na margem mínima, quase imperceptível. Assistias então maravilhada ao acenar da cabeça do pesado sujeito, sem forças para te contrariar e provavelmente lamentando não ser capaz de te distribuir uma galheta. A boa e velha galheta, que segundo me contas-te ano passado (quando finalmente decidis-te a falar sobre isso!) era presença assídua na tua face, em vários momentos do dia.
E nesses dois anos eu não era sombra, ou Sancho Pança de uma Quixotesca donzela. Não, nesse tempo perdera-me noutras delícias, no prazer duro do pequeno pomar que comprara e onde passava as horas mortas da tua ausência. Era ali, junto de Salvador, esse poço de sabedoria agrícola que eu aprendia e assistia ao prazer do nascimento de pequenos frutos, ao brotar das flores nos ramos que EU cultivara, que EU  podara e que de certa forma eu ajudara a crescer e a tornar-se forte. Reconheço que de início havia comprado essa parcela de terreno, oficialmente devido ao baixo preço, mas com o secreto plano de construir algo para nós. 

Espelho, espelho meu já existiu alguém mais feliz do que eu?

Gorado o plano de construção do nosso Forte de guerra, a nossa Sede Imperial,a nossa Embaixada da nossa paixão, na tua insistência pelo quarto alugado, vi ali uma forma de me distrair e pouco a pouco fui ganhando o gosto, ainda que discretamente e de forma ligeira, pelas árvores de fruto, até ao dia em que Salvador, no alto do seu metro e oitenta, proferiu num hálito de bagaço a palavra mágica...Enxertia.
E que era isto afinal? Simples. Era uma forma de partida à mãe natureza. Salvador jurava-me a pés juntos, ser possível, com os cuidados certos e respeitando certos procedimentos, de colocar uma laranjeira a dar limões. Que diabos, aquilo era demais até para mim, que sempre me considerei bem informado. Então ele explicou-me que tudo passava pela união de duas partes ( raiz e parte aérea) de plantas da mesma espécie ou de espécies da mesma família, passando a formar um só individuo. Contudo, ressalvava ele num tom de voz de professor da primária, para esta união ser bem sucedida, as partes devem ter afinidades e ser compatíveis.  Corri para o Google, e nunca esqueci a primeira vez que te contei. Foi à noite, uma das muitas noites em que chegavas morta de cansaço de casa do teu pai, ainda com a cabeça a latejar de contas e números. Mal entras-te em casa, apressei-me a te explicar, prática Pitareca todo o processo, como se fosse um garoto que tinha acabado de montar o seu próprio Lego, contei-te demoradamente e apaixonadamente os cuidados a ter e todo um maná de apontamentos recolhidos aleatóriamente no google e depois de te explicar excitado todo o processo, tu descalçaste-te encostaste-te na cadeira e sorvendo um gole de vinho , retorquíste estendendo-me a mão: 
-Então e eu?... Serei Laranja ou limão?
-Porque serias fruta?
-Porque te alimento.
-Podias ser vinho.
-Porque te dou a volta à cabeça...Ainda?
-Sempre Ma Chère!

Espelho, espelho meu já existiu alguém mais feliz do que eu?

E ajoelhei-me, de cabeça pousada no teu regaço e mente entretida no pomar do meu embaraço com a promessa não proferida de qualquer dia falar sobre esta nossa vida, esta nossa história, este nosso momento, todo este longo documento redigido desde o primeiro instante que a parva Leonor me trocou, até que me rendi a ti e tu a mim. Esta nossa epopeia que bem poderia começar com o sonoro..."Once Upon a Time", até ao dia em que alguém nos leria!