sábado, 11 de fevereiro de 2012

O acordar dos Sentidos - Capítulo 3 - Parte 2 " A Grande Marcha"



"O peito era agora um relicário cheio de esperança que levava a criança que era sempre pela mão numa ilusão deliciosa!"
Inês Dunas: Relicário...


Finais de Dezembro de 2012. Praça do Chile - Lisboa

Pelo fim da tarde, mais concretamente pelas 19 horas de uma tarde amena e sem chuva, os simpatizantes, curiosos e apoiantes do partido rumaram em silêncio em direcção à Assembleia da Républica, chegava a hora que muitos dos seus detractores esperavam e que Franco tanto temia.
Pragmático na sua forma de vêr, o Líder sabia que não havia outro remédio em relação às expectativas que tal Marcha significaria. No fundo, ou se convertia na rampa de lançamento da sua carreira política e simultaneamente um balão de oxigénio para o seu novo partido, ou seria um suicididio político ou na melhor das hipóteses a perda de uma chance de fazer história.
Os indicios que fora recebendo, quer dos seus apoiantes, quer da sua minúcia no tratamento da Grande-marcha, provocavam-lhe alguma sensação de segurança e algum conforto. Sentia dentro de si, que o minimo a que se dispusera a atingir estava assegurado, mas Franco tinha esse grande defeito, próprio de uma personalidade prática e analítica...Ele não era homem de mínimos!
Cumprindo o que estabelecera dirigia-se a pé, rodeado do seu séquito de confiança, mas sem grandes motivos de segurança e foi já perto da Alameda, quando reparou na massa humana que o seguia, que o cumprimentava, que lhe acenava.
Indiscritivelmente, as pessoas iam se juntando, munidas de velas, ou simplesmente em silêncio, o seguiam como autómatos. Contudo, elas estavam bem conscientes, estavam crentes da forma do protesto e estavam munidos de uma certa cumplicidade própria de quem passa sacríficios sem entender muito bem porquê.
Como um afluente de um rio, a massa humana convergia toda para o local préviamente estabelecido, onde estratégicamente colocadas, as viaturas de apoio a Franco se preparavam para a realização da sua quota parte nesse dia histórico.
Sem conhecimento de Franco, as forças de apoio estratégico, comandadas a Norte por um dos seus mais fortes apoiantes, preparava com extremo cuidado o início da fase de propaganda. Dezenas e dezenas de apoiantes, encobertos como simples admiradores, saiam das viaturas, usando fardas iguais às do seu líder e assim que os jovens recrutados para a distribuição de cartazes, bandeiras e material de propaganda começaram a distribuir, a adesão foi macissa.
Às dezenas de jovens previamente contratados para surgirem de farda, simples apoiantes ou meros curiosos, aproveitando a oferenda de fardas, começaram tambem a usar, ao longo desse desfile silencioso.
Repentinamente sem se perceber bem como, o Líder surgia perfeitamente incómodo no meio da massa trajada como ele.

Finais de Dezembro. Praça do Chile - lisboa. Alguns minutos depois

Os jovens da Extrema-Direita que haviam sido incubidos por alguem supostamente ligado ao primeiro ministro, para provocarem confusão e caos ao se verem rodeados de tanta gente fardada, como se fossem o pelotão de um grande exército e na confusão de não saberem se efectivamente eram seguranças ou meros apoiantes de Franco, começaram a abandonar o plano previamente combinado.
Perto dos seus homens, o líder do grupo, que já antes se encontrava sem força moral, como que hipnotizado por tamanha crença e confiança das gentes em Franco, incapaz de reagir e executar uma mínima ordem, foi-se gradualmente afastando da manifestação, seguido em silêncio pelos seus membros, numa espécie de retirada estratégica, de modo a poder realemnte tentar perceber o que se passava nas ruas de Lisboa.
Entre dentes o jovem praguejava, não concretamente por não saber o que fazer ao certo, mas porque de certa forma esperava algo do género por parte de Franco. Na verdade ele nem sabia explicar ao certop porquê, mas toda aquela posse de Franco no Outdoor, todo aquele querer e saber falar nas entrevistas, de certa forma tinham colocado em cuidado o pensamento do jovem.
Tivera a primeira prova de que não era só ele a pensar assim, quando foi recrutado para o trabalho a que agora se prestava. Se um membro do Governo teme um suposto adversário e prefere o caos louco nas ruas à estratégia organizada de um adversário político, então é motivo suficiente para tambem ele temer esse adversário.
Com a bota de biqueira de aço apoiada na parede caiada de branco, o jovem acendeu um cigarro e tentando transmitir uma falsa sensação de calma e segurança, sentenciou:
-Bem, "o primeiro milho é dos pardais", vamos esperar que essas avezinhas saciem o estomago e depois atacaremos forte!
Os sorrisos de satisfação expressos nos rostos de quem o acompanhava, não serviram de forma alguma para atenuar a incerteza e pânico que todo este movimento de fardas havia gerado nele.

Finais de Dezembro de 2012.  - Lisboa

Verónica atravessava a rua em passo apressado e desejosa de se conseguir atravessar a mancha humana que inexplicávelmente havia surgido quase do nada.
Pacientemente, quase em fila indiana as pessoas iam seguindo absortas num silêncio assustador, algumas inclusivamente segurando velas, como se de um funeral se tratasse.
Se por um lado estava radiante por ver o apoio que o Povo dispensava a franco, por outro lado, graças ao seu sentido de jornalista, começava a ficar apreensiva, pois se ela, uma simples repórter conseguia perceber a força do Líder do novo partido, como reagiriam os membros do governo, conhecedores dos jogos da política e da relação entre estratégia e necessidade?
Franco prometera tentar acordar um País adormecido e tentar acima de tudo devolver o orgulho nacionalista e na verdade tivera já, na sua curta carreira enquanto líder de um partido o melhor retorno possível junto de um potencial eleitorado.
Mas havia outra razão, aparentemente muito forte que a fazia acelerar o passo, aumentar o ritmo cardíaco, num longo equilibrio entre as pontas dos pés, na tentativa vã de vislumbrar ao longe o chapéu de Franco.
Queria estar ao lado dele e apesar de ter comparecido a horas no local combinado, no meio de tanta gente, não o conseguiu ver.
Agora que contornava o alto edíficio e que mantinha a esperança, de com uma visão geral sobre a calçada poder mais fácilmente avistar a presença dele, o choque foi total.
A praça encontrava-se cheia de muitos Francos. Quase todos de chapéu, quse todos perto do palco e mais chegavam.
Atónita tentou avistar o seu colega de reportagem, que estaria junto ao palco, pois de acordo com o pré-estabelecido no estudio, faltavam apenas alguns minutos para o início da cobertura e subitamente tudo se atrasara.
Nada podia ser pior para ela, que falhar este evento, quer pessoal quer profissionalmente e perdendo algum do seu decoro, usou os cotovelos para poder se movimentar mais rapidamente na "enchente" que desaguava na praça.
Não havia propriamente um manual pré-estabelecido de como abrir caminho à força entre a multidão, sem criar uns olhares de reprovação, mas a experiência que acomulara no Metro em hora de ponta antes de ter carro, ajudava-a agora, quase por instinto.
Desembaraçando-se rapidamente das primeiras filas, foi avançando num ritmo lesto, sem tirar nunca os olhos do pequeno palco, rezando entre dentes para que Franco não subisse antes de ela iniciar a reportagem.
Pelo canto do olho, apercebeu-se que alguns canais já estavam a transmitir imagens.
Quase sem folego avançou, ate que um braço a segurou firme. Diante de si e já perto do palco,Franco sorria-lhe abertamente:
-Estava mesmo à sua procura! - Exclamou o lìder
-E eu à sua.
-Pronta para a reportagem?
-Sim...Mas isto é incrivel....Toda esta gente!
-Eu sei. Devo confessar que tambem eu estou pasmado.
-A fardas....
-Infelizmente não foi ideia minha e desconhecia em absoluto.
Numa rápida olhadela ao local, enquadrou-se para a imagem que o cameram focava, fechou os olhos e preparou mentalmente o inicio do directo.

Finais de Dezembro de 2012. Assembleia da Républica

De braços cruzados sobre o peito, o primeiro ministro assistia, junto com o alguns membros do governo ao início da dita Grande-Marcha.
Apesar de ter tomado algumas precauções, tentava no seu íntimo desvalorizar a importância da mesma e o medo que secretamente a possibilidade de Franco ser bem sucedido lhe causava.
A situação do País estava periclitante e o minimo foco de contestação poderia acarretar consequências drásticas para o seu Governo. Talvez ainda mais agravado pelo facto de ainda ter na memória os graves acontecimentos na grécia no final de 2011, ele temia essencionalmente o possível embaraço junto de outros estados membros e talvez mesmo junto dos Estados unidos da América. Afinal ele nunca se podia esquecer que tinha sido eleito para a substituição de um membro socialista forte e que de certa forma reunia a simpatia  europeia. Pior que ter sempre esse lado comparativo, era o facto de ter sido eleito sem ter um esquema, uma solução concreta para o País e apesar da boa imprensa, até aí favorável, com o surgimento de Franco tudo se principiava a desmoronar.
De sobrancelha arqueada assistiu quase sem conseguir emitir um som, á mancha humana que se principiava a concentrar á fren te do edifício. Com um nervoso miudinho, tentou perceber ao certo se seriam membros "oerquestrados" por franco, ou povo de livre e espontânea vontade.
Sem vontade alguma para sorrir, o primeiro ministro assistiu estupefacto á chegada ao local de centenas de indíviduos fardados como Franco e então, no seu íntimo percebeu que estava a perder uma batalha mesmo antes de lea poder começar.
Num assombrar de tgerror, lembrou-se então dos jovens de Extrema-Direitta e da ordem para o caos...Meu deus, com esta gente toda, copm mulheres e crianças....Meu deus, o que fiz eu? Murmurou para si.
Perto dele, o seu braço-direito, julgando que a tonalidade pálida da face do primeiro-ministro se devia tão só à manifestação de afecto do povo para com franco, tentou amenizar:
-Um autentico circo!
-Com certeza, meu caro. - Desabafou o primeiro ministro
Rodando sobre os calcanhares, como temendo continuar a olhar, conluiu nervosamente:
- Creio contudo quie os palhaços somos nós!







4 comentários:

  1. O primeiro post deste ano e eu já estrebuchava pela continuação de Franco e de Portugal, na tua visão sempre completa e ousada.

    Força nisso, está brutal!
    (Anita)

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  2. Bem meu querido amigo o impacto visual deste capítulo é avassalador!!!! Fez-me lembrar um casamento perfeito entre o filme V-Vingança com a Natalie Portman e o livro Ensaio sobre a Lucidez e a afluência dos eleitores às urnas para exercerem o voto em branco!!! Genial, simplesmente genial!!!
    Andei atrapalhada para conseguir cá vir, mas finalmente vim aqui matar o vicio!!! :))))
    Mil beijinhos em ti!!
    Ass. Milupa

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  3. Tão Pá??

    Não sei se é por saude,nem sei tão puco se foi porque já não te apeteceu escrever,mas esta tua ausencia é uma violencia.
    Provavelmente creio que és o gajo mais injustiçado desta vida e acredito que possa ser por isso este teu abandono, mas mesmo assim porra gajo esta cena do Franco estava brutal,divina mesmo e sabes perfeitamente que não sou tipa para elogios fáceis.
    Andei todo este tempo a matutar porque este teu desinteresse, inda por cima de um gajo que nasceu para isto. Pensei ser era de saude, de doença, de periodos mais ocupados e convencime que talvez estivesses sem tempo.
    Um capítulo em três meses não é falta de tempo é puro desinteresse e desculpa que te diga nenhum dos teus leitores merecia isto de ti.
    Okey, como disse podes te sentir injustiçado, mal lido, mal compreendido, onde ninguem aposta e blá,blá,blá.
    Se assim é, porque foges? Escreves para ti e para nós ou para falhados que não sabem o que têm diante do nariz?
    Eu sei do que falo e afirmo que a minha vontade de te ler é recente, mas tens mais people a comentar e a ler o que escreves. Não chega?
    Falo à vontade, pois sei que me tens visto a comentar este conto e apesar de não te conhecer ao ler o que escreves viajo naquilo que mostras e chega.
    Não conheço nenhum escritor que não tenha passado crises e acredita que conheço alguns,não conheço nenhum artista que não tenha brancas de inspiração, mas porra isto estava tão bom.
    Li há pouco tempo de uma assentada contos antigos teuis arquivados aqui no blog e ate me arrepiei e depois pensei que ler algo teu pela metade é uma violencia.
    Como tua leitora exijo o resto do conto.pelo menos isso.
    Vá lá gajo, bota cá pra fora isso que tu tens, que eu leio.
    Promessa de escuteira, ok?

    (Anita)

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