quinta-feira, 14 de março de 2019

Lápide - Capítulo 18


https://www.youtube.com/watch?v=NGorjBVag0I


A dança é o teu abraço,
o teu unguento,
a tua cura,
a tua vida!
A loucura que te mantém
e te sustém quando tudo o resto falha...

Inês Dunas: " My Wings"


SAVE THE LAST DANCE FOR ME...



O tempo seguiu o seu percurso e o corpo foi-se desgastando ao sabor dos dias incontáveis de energia auxiliar que foram gastas nesse nosso caminhar juntos. A aventura de um recomeço de vida, desta vez a dois, em que eu distante do passado tenebroso que me perseguia e me diluía num visco metamórfico que era tudo menos eu e tu, doce Maria ser angelical que procuravas a calmaria que o teu espírito rebelde nunca o permitiu, acertávamos agora agulhas  numas tréguas com o teu passado.
Foram seis anos em que aproveitando as sinergias que o pai havia deixado e alguns negócios que ele detinha, nos permitiu reerguer o nome da família e que de certa forma proporcionou à minha Diva Maria o ajuste de contas com o seu passado. Mas agora cerca de dois meses depois do último suspiro do seu progenitor, Maria a guerreira, mostrava as medalhas dessa louca batalha. Ou talvez seja eu a ser melodramático. Talvez a dor, a doença que a apanhou já estivesse à espreita, à espera do momento certo para se revelar, embora eu queira mais acreditar que a pobre doença que lhe foi gradualmente tolhendo a vitalidade e a força dos membros inferiores, estivesse a aguardar pacientemente  que a primeira batalha acabasse para então surgir requerendo toda a tua ( nossa?) atenção.
Dizem que o corpo é um invólucro, um amanhado de carne, pele e ossos que cobre algo de mais grandioso. A Alma, a nossa querida, amada e por vezes ignorada alma. O nosso centro do Universo, seja a Terra redonda ou plana ( ele há com cada teoria...) , mas o corpo é muito mais do que isso. O corpo...bolas, o corpo no fundo é a nossa representação corpórea, é a nossa caracterização enquanto personagens neste drama errante chamado de vida e somos livres de o mudar a nosso belo prazer, com ou sem bisturi, com ou sem pinturas e piercings. O corpo no fundo é a projecção da nossa ilusão e de quem pensamos que somos.  Mas Cara Mia, o corpo é frágil, os ossos  partem-se ou perdem a consistência, os músculos desaparecem, a gordura acumula-se e mesmo as artérias, essas auto-estradas do bálsamo da vida vermelho...perdão encarnado entopem. Assim, não obstante as unhas crescerem, os cabelos caírem e a pele ganhar rugas é no interior que surgem os pecados de uma existência.
Toda uma pré-vida de infelicidade e de rotina, toda uma pré-vida perdido em trabalho, toda uma pré- existência para te encontrar, para te amar, para te devorar, para te segurar numa dança eterna e agora que o tempo devia parar, agora que os ponteiros das horas e minutos e segundos deveriam congelar para sempre é quando mais rodam, quando mais aceleram.
E tu, Pitareca forte e guerreira, aguentando as dores constantes, a falta de genica e as quedas constantes porque as pernas cediam, nem um ai, nem um choro, nem uma lamuria saiam desses teus lábios mágicos que a vida me ensinou a beijar e a lamber. Tu que me olhavas de soslaio, mordendo o lábio inferior a esconderes as dores, com a tua atenção absorvida no meu respirar inquieto e preocupado e percebias como eu percebia o quanto me doía ver-te a definhar ao meu lado e eu impotente, perdido no meu embaraço de não seres árvore de fruto que pudesse salvar através de um qualquer excerto de raiz.
As noites que passavas acordada, sem sono, com dores e mesmo assim me procuravas no silêncio dos lençóis, invadindo as minhas calças ..."Ainda o levanto?" perguntavas tu a  medo, não convencida com o corpo que se erguia na palma da tua mão. " Como sempre o fizeste Maria das minhas tesões" replicava-te eu baixinho beijando-te a face, esticando as pernas e oferecendo-o ás tuas carícias ao teu toque  já sem a malícia e o vigor de outrora e no entanto fosse o meu corpo piano e os teus toques, as tuas carícias seriam ainda Mozart num manusear perfeito nesses cinco dedos de  doce moléstia, com que me castigavas e o obrigavas a manter-se erecto e firme, na força de um desejo ainda imenso e crescente onde só o enérgico palpitar do membro desencadeava o teu ténue sorriso de malvadez e de falsa arrogância no nosso jogo dos sentidos.
E de repente tudo mudara de novo, neste cada vez mais frio Inverno da nossa vida, que também a mim já levara as forças de poder te pegar ao colo, como tão bem merecias e te levar como se fosses uma criança pelo mundo, protegida de todos e abrigada de olhares piedosos e inquisidores. Pobre Maria outrora renascida que sucumbe agora,apesar da sua garra, às garras de uma PSP ( paralisia supranuclear progressiva) que se principiava a manifestar com toda a sua garra. Sim, doce Pitareca eu sei que tu ouviste da boca do médico o que eu ouvi, a descrição da evolução da doença e apesar de tudo ter parecido tão horrível, ambos ficamos convencidos que o pobre homem não nos contou tudo e no entanto, num jogo tácito, como se um juramento tivesse sido feito, nenhum de nós foi a correr para o google para pesquisar, até porque sabíamos que a verdade podia ser cada vez mais assustadora, embora eu te tenha omitido que cá fora, enquanto procurávamos a melhor cadeira de rodas para ti, o médico falou em demência. Que em certos casos se manifestava, talvez de forma leve, noutros era bem mais agressivo, mas como era uma doença rara não poderia dizer com precisão...Demência...Sorri baixinho e recordo-me do meu pensamento atroz...Pobre homem, dementes já andamos nós há uns pares de anos. Dementes de amor.
Mas na verdade, inigualável paixão, era agora meu dever não prometido diante de um altar, mas proferido a ti, pelos meus honrosos lábios e tendo por isso força-lei presente que sempre me terias ali ao teu lado, amparando-te as quedas, curando-te as feridas e se pior o cenário ficasse, eu contar-te-ia sobre as maravilhas que aprendera junto de Salvador, falar-te-ia do tempo e das estações do ano na importância do crescimento de novos botões de laranjeira e do vento...Como te poderia não falar do vento, esse velhaco assassino de rebentos de árvores de fruta, que surge num sopro maldito?
Recordo-me das primeiras vezes, aquelas primeiras vezes em que a doença te tinha pegado e te segurava, principiando a sugar-te a energia de vida que tão bem distribuías por todos os que te eram próximos e tu cansada, sentada com a manta sobre as pernas, enquanto ligava o aquecedor, preparava o teu chá e escolhia de entre a fabulosa colecção de discos de vinil que  teu pai falecido deixara, o companheiro do nosso serão. Pelas minhas mãos nesses tempos passavam The Platters, The Beatles, o Paulo de Carvalho que tu tanto amavas, o inimagínável José Cid e afastando a pequena mesa de apoio ( a mesa das bolachas e do chá como lhe chamavas) , pegava-te como se fosses de cristal e teimava que desses uns passos,( tu que resgataras da casa do teu pai uns horríveis sapatos rasos de verniz vermelho, com sola adaptada para sapateado e o que eu te gozei com tamanha aberração,levando a que vencida, guardasses os ditos o armário à espera de melhores dias) e num gingado "voavas" no meu abraço, imaginando-te uma fada suspensa no ar, em que os meus braços eram apenas ramos que te levitavam e faziam voar acima da copa das árvores, acima das nuvens, para o infinito e mais além e contudo, apesar do esforço extra a que te submetia, não parecias cansada, via o teu sorriso de paz e felicidade, entrecortado por trejeitos e esgares de dores mas era o calor do teu corpo, o teu cheiro, a  tua presença....As tuas mãos frias na minha face afagando-me a barba e o teu olhar embebido num amor tão natural....Ah e julgava eu não saber o que era o amor.
Mas nessa noite, quando nos deitamos ainda a remoer a consulta com o médico, senti-te estremecer e sabia-te a chorar:
-Psiu...Dá-me a mão, ignora as dores. Eu ajudo-te!
-Não são as dores...Sim, tenho dores, mas oh...Não é isso...
-Então?
Seguiu-se um incomodativo silêncio, não mais que uns três minutos como se procurasses dentro de ti as palavras certas, como se estivesses a consultar o teu coração às escondidas de mim e por fim, o dilúvio não só em forma de pranto, mas de oratória:
-Não há saída. Não vou melhorar e tu sabes. A partir daqui vai ser sempre a descer e vou provavelmente perder o andar. Não vou recuperar e nenhum medicamento do mundo me fará voltar a dançar nos teus braços. Não há milagres para uma pecadora, uma fedelha como eu. O meu pai tinha razão, não podemos ignorar o destino e o meu será como o dele. Morrer só, enfiada numa cadeira velha, atarracada de movimentos e não percebendo dia após dia porque Deus me mantém viva!
-Ei! - Gritei com toda a força- Que é isso agora?
-Vai! Não te agarres a mim, serei sempre uma prisão. A tua segunda prisão e me odiarás por uma vez mais te prenderem a uma rotina, te fazerem de escravo e prisioneiro do drama dos outros. Este é o meu drama e a partir daqui nada mais tenho ou terei.
-Maria, oh doce Maria, como podes tu ser prisão se é a tua presença que me faz renascer dia após dia? Como podes tu ser rotina, se todos os minutos a sós descubro novas formas de te amar, de te beijar, de te penetrar, de te idolatrar? Tu não és nem serás o meu drama, mas sempre o meu romance, o meu conto imoral, o meu Devir, o chão que aprendi a calcar, as assas que aprendi a usar e o meu coração, que aprendi a escutar. 
Recordo o modo desajeitado como ela tentou se sentar na cama, o braço como alavanca, o misto de dor e raiva espalhados numa face encharcada de lágrimas salgadas de autocomiseração:
-Vai. Segue a tua luz, o teu Destino. Contactas-te o teu filho como eu te pedi, reforça isso...Manda nova carta e por amor de Deus compra a porcaria de um telemóvel. Volta para o mundo dos vivos, dos saudáveis e deixa-me...Eu prometo-te ligar!
Ergui-me vagarosamente, esta era a minha doce guerreira a ultimar os termos de rendição de um passado recente. Esta era a minha heroína de capa e espada, antes quebrar que torcer. Encostando-me à parede, mostrando-me que tenho mundo lá fora, que ainda tenho saída, que ainda tenho esperança...Céus, será que a demência já se estaria a manifestar nela? Como poder ia eu abandoná-la? Voltar as costas ao que amo e desejo? Não podia, e acercando-me do lado direito da cama, onde ela se encontrava chorosa, peguei-lhe na mão, beijei os dedos, mordiscando-lhe os nós dos dedos e mirando-a serenamente, assegurei-lhe:
- Maria, eu que já fui trocado e abandonado, noutro tempo, num passado que não quero ter de volta, nem um regresso aos filhos, livros e cadilhos de outrora, eu que contigo descobri esta coisa fantástica de amar, partilhar e sentir, não poderia nunca partir. Nem que todos os teus membros caíssem, nem que o teu cabelo se perdesse e os teus olhos escorresem face abaixo. Nem mesmo que as tuas mamas rebolassem por este pavimento e o sangue corresse num leito de rio vermelho...Enquanto restar um milésimo de ti, enquanto ainda te puder ouvir e tu me escutares, enquanto houver algo de ti e de nós, nessa magnífica pessoa que sempre foste, mesmo que o salvado caiba apenas numa caixa de fósforos eu estarei aqui, dentro de ti - ao pousar a mão no seu peito senti o doce bater do coração- Amo-te sabias?
Ela limpou desajeitadamente as lágrimas no lençol, sorriu ao de leve:
-A sério que imaginaste as minhas mamas a correr no soalho?
-Ora bolas, eu sei lá. Sabes que consigo ser meio dramático.
-A tua sorte é doer-me tanto a mão e só por essa razão não te puxo essa barba.
-A minha sorte é ter-te aqui à minha frente.
Ela sorriu:
-Prometes que me levas a dançar todas as noites?
-Miuda, guardarei sempre lugar para uma ultima dança, no fim do dia...noite após noite, século após século.
-Posso ir buscar os meus sapatos vermelhos?
E pela primeira vez nessa noite rimos...de tudo, de nós e dos malditos sapatos.




2 comentários:

  1. "mesmo que o salvado caiba apenas numa caixa de fósforos"... Isto é das melhores frases de Amor que já li! Isto é dos finais mais bonitos que alguém poderia imaginar, o amor que sabe que apesar da dor e de haver sempre um fim eminente, mais ou menos, trágico existe sempre uma última dança possível e o expoente máximo da empatia e companhia será sempre rirmos juntos, de nós próprios! Amei!

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  2. Puxa vida devo agradecer vocês ganharam meu dia que site fantástico cheio de noticias não me canso de Elogiar já é a minha terceira visita por aqui absolutamente fantástico.


    Gir Leiteiro


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